Ibaneis nega tratativas com Vorcaro enquanto oposição pede impeachment
O governador Ibaneis Rocha (MDB) nega ter tratado diretamente com o banqueiro Daniel Vorcaro sobre a tentativa de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). A negativa ganha peso político nesta sexta-feira (23/1), quando partidos de oposição protocolam pedidos de impeachment na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), alegando gestão temerária e risco ao patrimônio público.
Negativa do governador acirra disputa em torno do caso Master/BRB
Ibaneis admite que se encontra com Vorcaro e que chega a ir à casa do dono do Banco Master, mas insiste que não discute o BRB nessas ocasiões. “Nunca tratei nada relacionado ao BRB com o Vorcaro. Todas as tratativas foram feitas pelo Paulo Henrique (Costa) — ex-presidente do BRB”, afirma, por meio de nota encaminhada à reportagem. A versão confronta o depoimento prestado por Vorcaro à Polícia Federal, no qual o empresário diz ter conversado com o governador sobre a operação de compra.
A divergência se instala no momento em que o caso deixa o campo técnico e entra de vez no centro da crise política do Distrito Federal. PSB, Cidadania e PSol formalizam representações contra o governador, com base em investigações da Polícia Federal e em decisões do Banco Central (BC) que barram a entrada do BRB no Master. Os documentos citam suspeitas de irregularidades financeiras, fraudes em carteiras de crédito e uma tentativa de operação considerada de alto risco para um banco público controlado pelo GDF.
A estratégia de defesa do governador busca isolar o episódio na gestão do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afastado do cargo por decisão judicial por 60 dias após a deflagração da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025. Ibaneis decide destituí-lo do comando do banco logo depois das primeiras prisões. A oposição sustenta que, mesmo sem assinatura direta em contratos, o chefe do Executivo tem responsabilidade política e legal sobre decisões que envolvem bilhões de reais em recursos públicos.
Impeachment avança como pauta suprapartidária na CLDF
O pedido de impeachment apresentado por PSB e Cidadania descreve a tentativa de aquisição do Banco Master como um “risco sistêmico elevado ao patrimônio do Distrito Federal”. O texto é assinado, entre outros, pelo ex-governador Cristovam Buarque, presidente da Comissão Provisória Regional do Cidadania-DF; pelo deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB-DF); e por Ricardo Cappelli, dirigente do PSB-DF. Eles afirmam que o caso “extrapola o campo do erro administrativo” e configura “gestão temerária e politicamente estimulada de recursos públicos”.
Os autores lembram que, à época da tramitação do projeto que autoriza a compra, o mercado financeiro, a imprensa especializada e órgãos de controle emitem alertas sucessivos sobre a fragilidade do Banco Master. Apesar disso, o Executivo encaminha à CLDF, em regime de urgência, proposta para que o BRB adquira 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do capital social do banco privado. O projeto é protocolado e aprovado no mesmo dia em que é lido, com 14 votos favoráveis e 7 contrários.
O presidente regional do PSB, Rodrigo Dias, diz que a iniciativa não se restringe a uma legenda. “Essa não é uma pauta de um partido só, essa é uma pauta do cidadão do Distrito Federal”, afirma. Segundo ele, o pedido é discutido com outras siglas e parlamentares de oposição antes mesmo de chegar ao protocolo da CLDF, e novas adesões ainda são buscadas.
O deputado distrital Fábio Felix (PSol) sustenta que o caso marca uma inflexão na política local. Para ele, a votação relâmpago do projeto agrava o quadro. “Foi votado em tempo recorde aqui na Casa. Protocolado e aprovado no mesmo dia que foi lido, sem nenhuma discussão”, lembra. O PSol também formaliza pedido próprio de impeachment, alegando indícios de falhas graves de governança, probidade administrativa e descuido com o interesse público.
Do lado do governo, o líder na CLDF, deputado Hermeto (MDB), tenta conter o avanço da crise e afirma que não enxerga clima político para derrubar o governador. Ele relativiza o peso dos encontros entre Ibaneis e Vorcaro. “Falam dos encontros, mas ainda não há como saber o teor do encontro. Se encontrar com alguém é crime?”, questiona. O parlamentar diz esperar o andamento das investigações antes de qualquer julgamento político.
Operação bilionária fracassada deixa rombo e incertezas
O embate em torno de versões ocorre sobre um terreno já minado pelos fatos. Em março de 2025, o GDF encaminha ao Banco Central o pedido de autorização para que o BRB compre participação no Banco Master. Depois de mais de cinco meses de análise, o BC rejeita a transação em setembro, ao apontar irregularidades e falta de transparência nos ativos do Master. Técnicos do órgão concluem que a operação representaria grave incerteza para um banco estatal que administra recursos do Tesouro do DF.
O caso ganha nova dimensão em novembro, com a Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que mira fraudes na emissão e negociação de carteiras de crédito ligadas ao Banco Master. Executivos do grupo são presos e dirigentes do BRB, afastados. Em meio às diligências, o ex-governador Rodrigo Rollemberg afirma que as ações da PF confirmam denúncias feitas pelo PSB desde o início das tratativas. “Ficou claro, após a operação da Polícia Federal, que o BRB desembolsou R$ 12,2 bilhões em uma operação de compra de títulos inexistentes, que serviu para tentar esconder a operação de aquisição do Banco Master”, diz.
O valor citado por Rollemberg se torna símbolo da dimensão do problema. A oposição fala em “rombo” e vê risco direto aos cofres públicos. Ricardo Cappelli, da executiva regional do PSB, critica as alternativas ventiladas pelo governo para cobrir as perdas do BRB. Para ele, usar dinheiro do caixa do DF significaria “tirar dinheiro da saúde, da educação e da segurança pública”. Ele também rejeita a criação de um fundo imobiliário com terrenos públicos ou a transferência de estatais para o banco como forma de reforçar o capital.
Cristovam Buarque, ex-governador e um dos rostos mais conhecidos do grupo que pede o impeachment, endurece o tom e diz que a crise não se resume a um problema contábil. Na avaliação dele, a condução do caso atinge a credibilidade construída pelo BRB ao longo de décadas. “As alternativas apresentadas pelo governo penalizam diretamente os brasilienses. A sociedade não pode assistir passivamente à destruição da imagem do BRB. Estamos aqui como cidadãos e cidadãs do Distrito Federal dizendo basta. A resposta institucional precisa ser o impeachment”, declara.
Crise testa limites da fiscalização e abre disputa sobre responsabilidade
O pedido apresentado pelo PSol ressalta que o objetivo não é antecipar culpa, mas verificar se o governador atua, ou deixa de atuar, dentro do dever reforçado de zelo, probidade e impessoalidade que o cargo exige. A legenda chama atenção para “a existência de interlocuções atribuídas ao governador com o controlador do Banco Master e, simultaneamente, versões públicas contrapostas quanto ao conteúdo e ao alcance desses contatos”. Para o partido, a simples divergência já configura um “ponto de elevada gravidade institucional”.
O caso pressiona o sistema de controle do gasto público e recoloca a CLDF sob escrutínio. A Câmara, que aprova a autorização em tempo recorde, agora é cobrada para investigar o caminho da operação, identificar responsáveis e medir o impacto real para o banco e para o Tesouro local. A oposição insiste que a Casa não pode se omitir diante do risco direto ao patrimônio público e do abalo à confiança dos clientes do BRB, que reúne cerca de 4 milhões de correntistas e concentra grande parte da folha de pagamento do serviço público do DF.
O governo tenta ganhar tempo à espera do desfecho das investigações da Polícia Federal e das apurações em curso nos órgãos de controle. A defesa política de Ibaneis se apoia na tese de que a negociação é conduzida pela diretoria do BRB, e não pelo Palácio do Buriti, e de que o negócio não se concretiza graças aos filtros institucionais do Banco Central e das instâncias de fiscalização.
O protocolo dos pedidos de impeachment encerra apenas a primeira etapa de uma disputa que tende a se arrastar por meses. Cabe agora ao presidente da CLDF decidir se admite as denúncias e abre processo. O movimento também testa o grau de coesão da base governista num cenário de incerteza financeira e pressões crescentes sobre o caixa do DF. Até que a Câmara dê uma resposta, permanece em aberto a pergunta que hoje norteia o debate político em Brasília: quem responde, em última instância, por uma operação bilionária que não sai do papel, mas deixa um rastro de prisões, desconfiança e instabilidade?
