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Ibaneis nega ter tratado compra do Banco Master com controlador do BRB

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), nega ter feito qualquer tratativa direta com o banqueiro Daniel Vorcaro sobre a tentativa de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). A declaração, dada em janeiro de 2026, confronta o depoimento do controlador do Master à Polícia Federal e ocorre no momento em que a oposição protocola pedidos de impeachment na Câmara Legislativa.

Negativa do governador amplia conflito de versões

Ibaneis admite que se encontra com Vorcaro e que chega a ir à casa do banqueiro, mas insiste que o negócio envolvendo o BRB não entra na conversa. “Nunca tratei nada relacionado ao BRB com o Vorcaro. Todas as tratativas foram feitas pelo Paulo Henrique (Costa) — ex-presidente do BRB”, afirma ao Correio. A fala contrasta com o que o próprio controlador do Master relata à Polícia Federal, ao dizer que discute a operação com o chefe do Executivo local.

O impasse não é apenas de narrativa. O BRB, banco controlado pelo governo do Distrito Federal, está no centro de uma crise que mistura risco financeiro, disputa política e suspeitas criminais. A tentativa de compra de 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do Banco Master, aprovada em tempo recorde pela Câmara Legislativa em 2025, é barrada pelo Banco Central em setembro do mesmo ano, após mais de cinco meses de análise técnica.

O BC aponta irregularidades e falta de transparência nos ativos do Master, classificando a operação como arriscada demais para um banco estatal. Em novembro de 2025, a Polícia Federal deflagra a Operação Compliance Zero, que investiga fraudes bilionárias na emissão e negociação de carteiras de crédito ligadas ao Master. Vorcaro é preso, dirigentes do BRB são afastados e o negócio, que já estava parado pelo regulador, se transforma em caso de polícia.

Entre os afastados está Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, que sai do comando do banco por decisão judicial por 60 dias. Ibaneis, porém, o destitui logo após a operação da PF vir à tona. Ao atribuir a ele todas as negociações com o Master, o governador tenta se desvincular de decisões que hoje são descritas por opositores como temerárias e politicamente estimuladas.

Impeachment, rombo bilionário e disputa política

O caso chega ao plenário político com força. PSB e Cidadania protocolam, na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), um pedido de impeachment contra Ibaneis. O documento sustenta que o governador comete crime de responsabilidade ao permitir, ou não impedir, que o BRB se exponha a uma operação considerada de alto risco para o patrimônio público. A peça lembra que o banco desembolsa R$ 12,2 bilhões na compra de títulos que, segundo a investigação, não existem e servem para mascarar a tentativa de aquisição do Master.

A representação tem assinatura de nomes conhecidos da política brasiliense. Cristovam Buarque, ex-governador e presidente do Cidadania-DF, fala em “destruição da imagem do BRB” e cobra reação institucional. Rodrigo Rollemberg, ex-governador e deputado federal pelo PSB-DF, afirma que o pedido é resultado de um conjunto de fatos que, na avaliação dele, confirma os alertas feitos pelo partido desde o início da operação. Ricardo Cappelli, dirigente do PSB-DF, chama o cenário de “gravíssimo” e critica as saídas estudadas pelo governo para cobrir o rombo no banco.

As alternativas em discussão incluem o uso de dinheiro em caixa do próprio Distrito Federal, a criação de um fundo imobiliário com terrenos públicos e até a transferência de estatais para o BRB. Para a oposição, qualquer uma dessas medidas transfere para a população a conta de erros na condução do banco. “Usar recursos do caixa do DF significaria tirar dinheiro da saúde, da educação e da segurança pública”, alerta Cappelli.

O PSol também apresenta seu próprio pedido de impeachment, com foco na governança e na conduta do governador. O texto fala em indícios de falhas graves na proteção do interesse público e dá destaque à divergência de relatos sobre as conversas entre Ibaneis e Vorcaro. Para o partido, o simples fato de existirem versões contraditórias sobre encontros e interlocuções já configura “ponto de elevada gravidade institucional”.

O deputado distrital Fábio Felix (PSol) descreve o caso como um divisor de águas na política local. Ele lembra que o projeto de lei que autoriza a compra do Master é protocolado e aprovado no mesmo dia em que é lido na CLDF, sem qualquer debate público mais amplo. “Foi votado em tempo recorde aqui na Casa. Protocolado e aprovado no mesmo dia que foi lido, sem nenhuma discussão”, critica, ao cobrar que a Câmara não se omita diante do que classifica como risco direto ao patrimônio do DF.

Risco ao patrimônio público e pressão por transparência

A base governista tenta conter o desgaste. O líder do governo na CLDF, deputado Hermeto (MDB), diz não ver ambiente político para o avanço de um impeachment e minimiza a ofensiva da oposição, que, segundo ele, “está no papel dela”. O parlamentar pede cautela e defende que se espere o andamento das apurações. “Falam dos encontros, mas ainda não há como saber o teor do encontro. Se encontrar com alguém é crime?”, questiona.

Os pedidos de impeachment, porém, ganham fôlego ao serem apresentados como pauta suprapartidária. Rodrigo Dias, presidente do PSB no DF, afirma que o movimento não pertence a um único partido, mas “ao cidadão do Distrito Federal”. A articulação envolve diferentes legendas de oposição e pressiona a CLDF a se posicionar sobre os limites da atuação do Executivo na gestão de empresas públicas.

No centro da disputa, o BRB tenta preservar sua imagem enquanto enfrenta questionamentos de mercado, de órgãos de controle e de clientes. O banco, criado em 1966 e tradicionalmente visto como braço financeiro do governo local, passa a ser associado a uma operação classificada por críticos como arriscada, pouco transparente e mal explicada. Para investidores e correntistas, a principal dúvida é quem paga a conta do prejuízo potencial e de eventuais ajustes exigidos pelos reguladores.

A crise também expõe fragilidades na supervisão de negócios que envolvem bancos públicos e instituições privadas em dificuldade. O fato de o Banco Central barrar a compra do Master não impede que o BRB feche negócios paralelos com títulos hoje questionados pela PF. Órgãos de controle, como tribunais de contas e Ministério Público, avançam sobre contratos, atas de reunião e relatórios internos, em busca de quem avalizou cada etapa do processo.

Investigações em curso e cenário aberto na Câmara

As próximas semanas devem ser decisivas para o futuro político de Ibaneis e para o destino do BRB. A Polícia Federal aprofunda as oitivas, cruza depoimentos e rastreia fluxos financeiros ligados ao Master e ao banco público. A versão do governador, que nega qualquer participação direta em tratativas com Vorcaro, será testada contra mensagens, agendas, e-mails e relatos de executivos envolvidos na negociação.

Na Câmara Legislativa, a presidência da Casa terá de decidir se aceita ou não os pedidos de impeachment. Caso algum deles avance, abre-se uma comissão especial, com prazos definidos e poder para convocar autoridades, requisitar documentos e realizar audiências públicas. A pressão de movimentos sociais, sindicatos de servidores e entidades empresariais tende a aumentar à medida que novos detalhes sobre o rombo e as alternativas para cobri-lo venham a público.

Enquanto isso, o governo do DF tenta segurar a narrativa de que o BRB segue sólido e que eventuais problemas decorrem de atos isolados e já investigados. A insistência de Ibaneis em se afastar das negociações com o Master busca proteger o Palácio do Buriti de um desgaste maior, mas o conflito de versões com Vorcaro mantém a crise em ebulição. A resposta que sairá das apurações oficiais definirá não apenas o futuro do governador, como também o grau de confiança que brasilienses e investidores terão no principal banco público do Distrito Federal.

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