Hugo Souza sofre ataques racistas após classificação do Corinthians
Hugo Souza, goleiro do Corinthians, sofre ataques racistas de torcedores da Portuguesa ao deixar o gramado do Canindé, em São Paulo, neste domingo (23). Os insultos ligam sua aparência e corte de cabelo a estereótipos de pobreza e violência, enquanto policiais militares próximos não intervêm.
Ofensas após noite de herói
O episódio acontece minutos depois de o Corinthians garantir vaga na semifinal do Campeonato Paulista, nos pênaltis, diante da Portuguesa. Hugo sai de campo como um dos protagonistas da classificação, após defender um pênalti no tempo normal e mais duas cobranças na disputa decisiva. Do alambrado, parte da torcida da Lusa responde com gritos que misturam racismo e ataque social.
No caminho entre o gramado e o túnel de acesso aos vestiários, o goleiro ouve uma sequência de ofensas. Em vídeo registrado pela Jovem Pan, torcedores gritam: “Seu sem dente, passa fome. Seu sem dente do caral**. Vai cortar esse cabelo, piolhento do caral**”. Em outra gravação que circula nas redes sociais, é possível ouvir xingamentos como “favelado”, “piolhento”, “corta esse cabelo” e “sem dente”. A associação entre cabelo crespo, favela e sujeira, apontam especialistas, é uma forma recorrente de violência racial no futebol brasileiro.
Policiais militares posicionados na arquibancada, a poucos metros dos agressores, acompanham a cena sem qualquer reação imediata. Não há tentativa de abordagem, identificação ou retirada dos torcedores que aparecem nas imagens. Nas redes sociais, a ausência de intervenção amplia a indignação e levanta questionamentos sobre o cumprimento de protocolos de combate ao racismo em estádios paulistas.
Dentro de campo, a noite marca uma virada dramática. A Portuguesa vence por 1 a 0 até os acréscimos do segundo tempo, quando Vitinho empata para o Corinthians e leva o jogo para os pênaltis. Nas cobranças, Hugo confirma a boa fase e garante a vaga alvinegra, que coloca o time de Dorival Júnior entre os quatro melhores do estadual de 2026. Do herói esportivo ao alvo de ataques, o goleiro atravessa, em poucos minutos, dois retratos opostos do futebol brasileiro.
Racismo recorrente e falha de proteção
O caso no Canindé expõe, mais uma vez, a persistência do racismo nas arquibancadas, mesmo em jogos transmitidos para todo o país e com forte presença policial. A legislação brasileira já trata injúria racial como crime equiparado ao de racismo, com possibilidade de prisão e multa. A CBF e federações estaduais anunciam, há anos, campanhas e protocolos de enfrentamento. Na prática, episódios como o deste domingo mostram que o caminho entre norma e aplicação permanece aberto.
O Estatuto do Torcedor prevê responsabilização de clubes e organizadores por atos discriminatórios em suas praças esportivas. Regulamentos de competições como o Paulistão autorizam punições que vão de multa financeira à perda de mando de campo e até pontos na tabela. A pressão agora recai sobre a Federação Paulista de Futebol, que deve analisar as imagens e avaliar eventual abertura de processo contra a Portuguesa. A inércia dos agentes de segurança também entra em foco, já que a Polícia Militar atua como braço do Estado no cumprimento da lei dentro dos estádios.
Enquanto autoridades não se manifestam oficialmente, o caso ganha corpo nas redes sociais. Torcedores de diferentes clubes publicam mensagens de apoio a Hugo Souza e cobram punições exemplares. Perfis dedicados à cobertura do futebol reproduzem os vídeos das arquibancadas, o que amplia o alcance da denúncia e mantém o episódio entre os temas mais comentados da noite. A própria trajetória do goleiro, que chega ao Corinthians cercado de desconfiança e se afirma com atuações decisivas, reforça a leitura de que atletas negros seguem mais expostos a ataques quando se tornam símbolos de sucesso.
Episódios recentes, no Brasil e no exterior, indicam que a repetição de casos não ocorre por acaso. Jogadores como Vinícius Júnior, alvo de ofensas racistas em estádios espanhóis desde 2022, transformam a cobrança por respostas institucionais em pauta global. No cenário doméstico, casos em campeonatos regionais e nacionais, registrados ano após ano, mostram que as arquibancadas ainda são espaço de reprodução de hierarquias raciais presentes na sociedade brasileira. O que se vê no Canindé, neste 23 de fevereiro, soma mais um capítulo a essa estatística incômoda.
Pressão por responsabilização e próximos passos
O episódio cria um ambiente de pressão sobre a Portuguesa, a Federação Paulista e a própria organização do Paulistão. A tendência é que o caso entre na pauta das próximas reuniões do tribunal esportivo paulista, responsável por julgar infrações disciplinares na competição. Se houver denúncia e condenação, o clube rubro-verde pode enfrentar multa, perda de mando de campo e imposição de medidas educativas obrigatórias, como campanhas antirracistas em jogos e ações de conscientização com torcedores.
No campo esportivo, o Corinthians volta as atenções à semifinal contra o Novorizontino, marcada para o próximo fim de semana, no Estádio Doutor Jorge Ismael de Biasi, com dia e horário a definir pela Federação Paulista. A atuação de Hugo Souza, decisiva na classificação, tende a consolidar sua posição como titular no elenco de Dorival Júnior. Fora das quatro linhas, porém, o goleiro se torna personagem involuntário de um debate que ultrapassa o Paulistão. A reação das autoridades, ou sua ausência, vai indicar se cenas como as do Canindé continuarão a ser tratadas como indignação passageira ou como crime a ser investigado e punido.
