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Hugo Souza condena fala machista e se solidariza com árbitra Daiane

Hugo Souza, goleiro do Corinthians, se solidariza com a árbitra Daiane Muniz e condena a fala machista do zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, em entrevista no domingo, um dia após a eliminação da equipe de Bragança Paulista nas quartas de final do Paulistão 2026.

Solidariedade pública após ataque machista

O discurso do goleiro ganha corpo em um momento em que o estadual entra em fase decisiva e a arbitragem volta ao centro do debate. Herói da classificação corintiana para a semifinal, Hugo escolhe usar a boa fase em campo para tratar de respeito e igualdade de gênero. Ele fala à CazéTV sobre o episódio envolvendo Daiane Muniz, árbitra do duelo entre Red Bull Bragantino e São Paulo, no sábado, em Bragança Paulista.

Gustavo Marques, zagueiro do Bragantino, reage à eliminação por 2 a 1 e questiona a presença de uma mulher na função de árbitra em jogo decisivo. Na entrevista pós-jogo, ele afirma que “não adianta” escalar uma mulher para apitar partidas entre grandes clubes e acusa Daiane de falta de honestidade. As declarações repercutem durante toda a noite de sábado e atravessam o domingo, até chegarem ao vestiário corintiano.

Hugo decide se posicionar. Na conversa transmitida pela CazéTV, ele faz questão de citar a arbitragem feminina de forma direta, sem rodeios. “Queria publicamente expressar meus sentimentos sobre o que aconteceu ontem na entrevista do jogador do Bragantino. Isso não tem que acontecer”, afirma. Em seguida, ele reforça o princípio de isonomia. “A gente é chato, reclama, sabe que os juízes erram e acertam, mas não é pelo fato de ser homem ou mulher que a gente vai diferenciar as coisas”, diz.

O goleiro, emprestado ao Corinthians até o fim da temporada, destaca que a crítica à arbitragem faz parte do futebol, mas não pode se apoiar em gênero. “A gente vai cobrar quando tiver que cobrar, mas que seja da mesma forma. Meus sentimentos à árbitra. O jogador do Bragantino foi muito infeliz”, completa. A fala circula nas redes sociais ao longo da tarde e se soma ao repúdio público já manifestado por torcedores, entidades e colegas de profissão.

Reação em cadeia no futebol paulista

As declarações de Gustavo Marques acontecem logo após a derrota por 2 a 1 para o São Paulo, que garante o time do Morumbi nas semifinais. O Bragantino deixa a competição ainda nas quartas, depois de disputar 12 partidas no estadual. A frustração com a eliminação se transforma em ataque à árbitra, em um cenário que expõe a resistência à presença de mulheres em funções de comando no futebol masculino profissional.

Gustavo diz, diante das câmeras, que Daiane “não foi honesta” e que “puxou” para o lado do São Paulo. Atribui à condição de mulher o suposto desequilíbrio na condução da partida. As frases são reproduzidas em portais esportivos, programas de debate e perfis dedicados ao Paulistão em plataformas como X, Instagram e TikTok. Em poucas horas, a percepção de um desabafo de vestiário se converte em caso de machismo explícito.

O jogador volta atrás no dia seguinte. Em nota nas redes sociais, afirma estar “de cabeça quente” e admite que “acabou falando o que não deveria e poderia”. Procura a árbitra para pedir desculpas e se manifesta novamente diante da imprensa. O gesto, ainda que esperado, não estanca a reação institucional. O Red Bull Bragantino divulga comunicado em que “não compactua e repudia a fala machista” de seu atleta e promete estudar uma punição interna nos próximos dias.

A Federação Paulista de Futebol (FPF) entra em cena e anuncia que levará o caso à Justiça Desportiva, etapa que pode resultar em suspensão e multa ao defensor. A entidade aproveita a rodada seguinte para reforçar a mensagem contra o preconceito. No duelo entre Portuguesa e Corinthians, no Canindé, a placa de publicidade eletrônica exibe: “Preconceito não apita. Respeito é regra. Competência não tem gênero”. O recado aparece várias vezes ao longo dos 90 minutos e se torna imagem-símbolo da resposta do torneio ao episódio.

Impacto na disputa por espaço e respeito

A repercussão do caso vai além da semana de mata-mata do Paulistão. A arbitragem feminina ainda ocupa uma fatia pequena das escalas em torneios de elite, apesar do avanço recente. Em 2023, por exemplo, a CBF registra pouco mais de 10% de jogos de séries A e B com participação de mulheres no quadro de arbitragem, seja como principais, assistentes ou no vídeo. Em São Paulo, a presença cresce, mas ainda é exceção em partidas entre clubes de maior torcida.

Daiane Muniz é uma das principais referências desse quadro. Aos 40 anos, acumula jogos em competições nacionais e internacionais e integra o grupo de árbitras da Fifa. A escolha de seu nome para apitar um confronto entre São Paulo e Bragantino representa, para a FPF, um passo de normalização da presença feminina em jogos de grande audiência, transmitidos para todo o país por plataformas como HBO Max e canais de streaming como o UOL Play, que vendem pacotes a partir de R$ 22,90 por mês.

A fala de Hugo Souza funciona como um contraponto dentro do próprio ambiente dos jogadores. Ao cobrar que a crítica à arbitragem se concentre em lances e decisões, e não em gênero, ele rompe o silêncio que costuma cercar manifestações machistas no vestiário. Também envia um sinal a torcedores e colegas de profissão em início de carreira, para quem a presença feminina em campo ainda desperta estranhamento.

O episódio pressiona clubes e federações a adotar medidas mais concretas. A nota do Bragantino, que promete punição ao atleta, e o anúncio da FPF de levar o caso à Justiça Desportiva indicam uma disposição de agir além do discurso. Se a pena esportiva sair nas próximas semanas, o processo se tornará um exemplo prático de que ofensas de gênero passaram a ter consequências mensuráveis, assim como casos de racismo nos estádios.

Próximos passos e disputa de narrativa

O desfecho do processo na Justiça Desportiva deve orientar as próximas respostas do futebol paulista a episódios semelhantes. A pena ao zagueiro, caso confirmada, pode variar entre advertência, suspensão por alguns jogos ou multa financeira, de acordo com o enquadramento no código disciplinar. A FPF promete celeridade, mas não divulga prazo para o julgamento.

O Bragantino, que já inicia o planejamento para a temporada nacional e a disputa do Campeonato Brasileiro, também precisa definir qual sanção interna aplicará ao defensor. A decisão passa por diretoria, comissão técnica e departamento jurídico, em um momento em que a imagem do clube está diretamente associada ao caso. A forma como o time de Bragança lida com o episódio será observada por patrocinadores, torcedores e por outras jogadoras e árbitras que tentam se firmar no futebol.

Hugo Souza volta o foco para o campo e para a semifinal, mas carrega agora o rótulo de voz ativa em temas de respeito e inclusão. A postura abre espaço para que outros atletas se manifestem em situações semelhantes, dentro e fora do Brasil. A presença de mensagens como “Competência não tem gênero” nas placas de publicidade indica que o futebol brasileiro começa a transformar slogans em política pública, ainda que de forma lenta e desigual.

O que a Justiça Desportiva decidir nas próximas semanas ajuda a definir se o episódio ficará restrito a uma polêmica de rodada ou se marcará um ponto de virada na forma como o machismo é tratado no futebol profissional.

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