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Houthis lançam mísseis contra Israel e elevam risco de escalada regional

Os houthis do Iêmen lançam, na manhã deste sábado (28), dois mísseis em direção a Israel e forçam uma nova frente na guerra que envolve Estados Unidos e Irã. As Forças de Defesa de Israel afirmam que os projéteis são interceptados antes de atingir o território e não deixam feridos nem danos, mas o episódio acende um novo alerta militar e econômico no Oriente Médio.

Grupo iemenita entra no confronto com Israel

Horas separam o primeiro e o segundo lançamento, segundo uma fonte de segurança israelense ouvida pela CNN Internacional. O alvo são áreas militares no sul de Israel, perto de Eilat, região já pressionada por ataques de grupos apoiados pelo Irã desde o fim de 2024. A ofensiva atual marca a entrada explícita dos houthis no confronto que opõe Washington e Teerã, ainda que de forma indireta.

O movimento Ansarallah, nome oficial dos houthis, anuncia uma “saraivada de mísseis balísticos contra alvos militares israelenses sensíveis” em um comunicado transmitido pela TV. O grupo fala em resposta ao que classifica como agressões de Israel e de seus aliados e promete ampliar a atuação caso o conflito se expanda. “Confirmamos que estamos prontos para uma intervenção militar direta”, diz o porta-voz militar Yahya Saree, em discurso televisionado, ao ameaçar novos ataques se o Mar Vermelho for usado para “operações hostis” contra o Irã e seus aliados.

Autoridades israelenses tratam o episódio como mais um teste ao sistema de defesa antimísseis, que já intercepta disparos vindos do Líbano e de Gaza. Na avaliação de militares, os projéteis houthi não representam, hoje, ameaça comparável à do Hezbollah, mas a combinação de alcance crescente e imprevisibilidade preocupa. A presença de tecnologia iraniana de médio alcance nessas armas adiciona uma variável sensível a um tabuleiro já congestionado.

De guerra civil no Iêmen a eixo da resistência

O disparo contra Israel é o capítulo mais recente de uma trajetória que começa nos anos 1990, quando Hussein al-Houthi lidera o movimento “Juventude que Acredita”. A organização nasce para defender a minoria zaidita, ala do islã xiita que governa partes do Iêmen por séculos, mas perde espaço após a guerra civil de 1962 e a ascensão de um regime sunita. O grupo se fortalece ao canalizar frustrações com a desigualdade e, mais tarde, com a proximidade do governo iemenita com Washington e Riad.

A ruptura com o então presidente Ali Abdullah Saleh se cristaliza em 2003, quando ele apoia a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Al-Houthi transforma a ira popular em protestos de massa, enfrenta ordem de prisão e é morto por forças do próprio país em 2004. A morte não encerra o movimento; ao contrário, a ala armada ganha força e arrasta o Iêmen para uma guerra civil que, segundo a ONU, mata quase 250 mil pessoas em menos de uma década.

Em 2014 e 2015, os houthis tomam partes de Sanaa, avançam sobre o palácio presidencial e forçam a fuga do então presidente Abd-Rabbu Mansour Hadi para a Arábia Saudita. Riad reage com uma coalizão militar e lança, em março de 2015, uma campanha que deveria ser rápida e se arrasta por anos. Um cessar-fogo é assinado em 2022, expira seis meses depois, mas o conflito não retorna ao nível anterior de intensidade. Na prática, os houthis consolidam o controle sobre grande parte do norte do país.

Nesse período, o Irã amplia o apoio político e militar ao grupo. Relatórios do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais indicam que Teerã fornece peças, conhecimento técnico e modelos de mísseis balísticos, de cruzeiro e drones. Inicialmente, os armamentos houthi são montados com componentes contrabandeados. Com o tempo, engenheiros locais adaptam e refinam os sistemas, ganhando alcance e precisão. Em dezembro de 2024, Israel já relata a interceptação de uma salva de mísseis de médio alcance disparados da região de Saada em direção a Eilat.

Pressão no Mar Vermelho e impacto econômico

Enquanto testam os limites contra Israel, os houthis mantêm uma campanha quase diária no Mar Vermelho desde dezembro de 2024. Drones e mísseis antinavio miram cargueiros e petroleiros, inclusive embarcações sem vínculo direto com Israel. O objetivo declarado é atingir economicamente os aliados de Tel Aviv e, assim, forçar uma mudança na condução da guerra.

A rota que liga o estreito de Bab-el-Mandeb ao Canal de Suez responde por cerca de 12% do comércio global e por aproximadamente 30% do tráfego mundial de contêineres. Em 2021, o encalhe do navio Ever Given no Suez expõe, por quase uma semana, a fragilidade dessa artéria marítima e paralisa até US$ 10 bilhões em carga por dia. Os ataques atuais reacendem o fantasma de um choque logístico ainda maior, agora potencializado pelo risco militar permanente.

Quatro das cinco maiores empresas de navegação do planeta — Maersk, Hapag-Lloyd, CMA CGM e Evergreen — já suspendem parte das operações pelo Mar Vermelho desde o fim de 2024. A petroleira BP toma a mesma decisão. Navios desviam a rota para contornar a África, esticando viagens em até duas semanas em alguns casos e elevando o custo de frete e seguro. A fatura tende a chegar ao consumidor em forma de combustível mais caro e pressões inflacionárias renovadas, em um momento em que governos ainda lidam com a ressaca da pandemia.

Os Estados Unidos reagem com a Operação Prosperity Guardian, que reúne mais de 20 países para proteger rotas comerciais no Mar Vermelho. O destróier USS Carney já responde a sucessivos pedidos de socorro de navios atacados. Bombardeios americanos contra posições houthi no Iêmen, intensificados após 15 de março de 2025, quando um ataque em Sanaa mata ao menos nove civis, não conseguem estancar a campanha do grupo.

Escalada regional e dilemas para Washington e Riad

A opção dos houthis por ataques diretos a Israel altera a equação regional. O grupo deixa de atuar apenas como força de pressão econômica e passa a reivindicar um papel de frente de batalha no chamado “Eixo da Resistência” liderado pelo Irã. Ao lado do Hezbollah, no Líbano, e do Hamas, em Gaza, eles reforçam a ideia de um cerco assimétrico a Israel e aos seus parceiros.

Para a Arábia Saudita, que negocia há anos uma saída política para o conflito no Iêmen, a escalada representa um risco duplo. Por um lado, consolida a imagem dos houthis como poder de fato no norte iemenita. Por outro, reabre a possibilidade de a fronteira sul saudita voltar a ser palco de ataques cruzados. Riad também tenta equilibrar uma reaproximação com Teerã, anunciada em 2023, e o alinhamento estratégico de décadas com Washington.

Nos Estados Unidos, a decisão de Donald Trump, no início de 2025, de designar os houthis como “organização terrorista estrangeira” limita as margens para negociações diretas. A classificação restringe canais financeiros e aumenta o custo político de qualquer diálogo. Ao mesmo tempo, a Casa Branca enfrenta críticas internas por operações que provocam mortes de civis no Iêmen, como o bombardeio em Sanaa em 15 de março de 2025.

O que pode acontecer a partir de agora

Diplomatas na região enxergam no ataque a Israel uma tentativa calculada de elevação de aposta. Os houthis buscam projetar força regional, reforçar a legitimidade interna e ampliar o poder de barganha em negociações futuras sobre o Iêmen. Ao colocar na mesa a possibilidade de “intervenção militar direta” caso novos países se alinhem a Washington e Tel Aviv, o grupo tenta dissuadir rivais árabes e mandar um recado a capitais europeias que cogitam entrar em coalizões navais.

Israel, por sua vez, evita por enquanto anunciar uma represália dedicada ao Iêmen, para não abrir mais uma frente de guerra. Mas a pressão doméstica por respostas duras cresce a cada novo disparo. Em paralelo, mercados de petróleo e de frete monitoram a escalada, ajustando preços a cada notícia sobre ataques no Mar Vermelho ou lançamentos de mísseis.

A ONU segue classificando a guerra no Iêmen como a pior crise humanitária do mundo. A combinação de fome, colapso institucional e bombardeios intermitentes deixa milhões dependentes de ajuda internacional. O avanço dos houthis sobre o tabuleiro regional coloca uma questão ainda em aberto para as grandes potências: até onde será possível conter a escalada militar sem fechar as portas para uma solução política no Iêmen e sem provocar um choque econômico global de proporções maiores?

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