Houthis lançam mísseis contra Israel e abrem nova frente na guerra
Os houthis do Iêmen lançam neste sábado (28/3/2024) uma série de mísseis balísticos contra alvos militares em Israel, no primeiro ataque direto do grupo no atual conflito. Israel afirma interceptar ao menos um projétil e põe em alerta seus sistemas de defesa.
Ataque direto liga o Iêmen ao front israelense
O disparo de mísseis parte de áreas controladas pelos houthis no Iêmen e mira instalações militares consideradas sensíveis em território israelense. O próprio grupo, aliado do Irã, divulga que a ofensiva tem como alvo “alvos militares israelenses sensíveis” e ocorre em resposta a ataques recentes contra o Irã, o Líbano, o Iraque e os territórios palestinos.
Em comunicado, os houthis afirmam que suas operações não se limitam ao ataque deste sábado. O movimento promete manter a pressão até o que chama de fim da “agressão em todas as frentes”, expressão que ecoa o discurso do chamado Eixo da Resistência, bloco de grupos armados alinhados a Teerã. As Forças de Defesa de Israel confirmam, mais cedo, a interceptação de um míssil lançado do Iêmen, sem detalhar danos ou vítimas.
Analistas veem o episódio como um ponto de virada. Com o Iêmen integrado de forma aberta ao tabuleiro militar, a guerra deixa de se concentrar apenas em Gaza, no sul do Líbano ou no Golfo Pérsico. O conflito ganha uma nova frente na península Arábica e amplia o risco de choque direto entre forças apoiadas pelos Estados Unidos e grupos próximos ao Irã.
Bab el-Mandeb no centro da disputa regional
A escalada ocorre enquanto o Estreito de Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho, volta ao radar das potências. O corredor liga o Golfo de Áden ao Canal de Suez, entre Iêmen, Djibuti e Eritreia, e concentra cerca de 12% do petróleo transportado por navios no mundo. No último mês, a rota ganha ainda mais peso por servir de alternativa ao fluxo de óleo do Oriente Médio após o fechamento do Estreito de Ormuz, principal saída do Golfo.
Os houthis já atacam essa região em outras fases da guerra, usando drones e mísseis contra navios para pressionar Israel e seus aliados. O pesquisador iemenita Farea Al-Muslimi, do think tank britânico Chatham House, descreve um eventual bloqueio efetivo do estreito como “um pesadelo”. “Já temos um pesadelo, e isso só o tornaria ainda pior”, afirma, ao lembrar a dependência das cadeias globais de energia e de comércio dessa passagem.
Nesta semana, a agência semioficial iraniana Tasnim, próxima à Guarda Revolucionária, divulga que os houthis estão “totalmente preparados” para assumir o controle de Bab el-Mandeb como parte das “forças de resistência”. “Se houver necessidade de controlar o Estreito de Bab el-Mandeb para punir ainda mais o inimigo, os heróis do Ansar Allah do Iêmen estão totalmente preparados para desempenhar um papel fundamental”, diz uma fonte militar iraniana. Segundo essa fonte, fechar a rota “é uma tarefa fácil para eles”.
No dia anterior, a mesma agência publica um alerta mais amplo. Uma fonte adverte que, se os Estados Unidos tentarem resolver a crise no Estreito de Ormuz com “medidas imprudentes”, correm o risco de “adicionar outro estreito aos seus problemas”, em referência direta a Bab el-Mandeb. Em paralelo, o líder houthi Abdul Malik al-Houthi reitera, segundo a Bloomberg, que o grupo responde militarmente a ataques de Israel e dos EUA se considerar necessário.
Um dirigente houthi ouvido pela agência Reuters, sob anonimato, afirma que o movimento está “militarmente pronto” para atacar o estreito em apoio ao Irã. “Estamos com todas as opções à nossa disposição. A decisão sobre o momento cabe à liderança, que acompanha os desdobramentos e definirá a hora certa de agir”, declara. O recado é lido em capitais ocidentais como sinal de que o Mar Vermelho permanece em risco permanente de interrupção.
Economia global e segurança marítima sob pressão
A possibilidade de novos ataques no corredor entre o Golfo de Áden e o Mar Vermelho preocupa governos e empresas de navegação. Um bloqueio de Bab el-Mandeb obriga petroleiros e porta-contêineres a contornar o Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África, o que aumenta tempo de viagem em até duas semanas e eleva custos de frete e seguros. Em um mercado de energia já pressionado, qualquer interrupção adicional tende a puxar para cima o preço do barril de petróleo.
Os Estados Unidos emitem, na quinta-feira anterior ao ataque, um alerta específico para a região. A Administração Marítima do Departamento de Transportes afirma que, embora os houthis não ataquem navios comerciais desde um cessar-fogo entre Israel e Gaza em outubro de 2025, o grupo ainda representa “uma ameaça aos ativos dos EUA, incluindo embarcações comerciais, nesta região”. A nota reforça a orientação para que capitães revisem rotas e protocolos de emergência.
O movimento houthi, que se apresenta como defensor da minoria xiita zaidita no Iêmen, consolida sua força política e militar ao longo das últimas três décadas. Surgido nos anos 1990 sob o nome Ansar Allah, o grupo se projeta nacionalmente em 2014, quando lidera uma revolta contra o presidente Abdrabbuh Mansour Hadi. Em 2015, toma a capital, Sanaa, e força Hadi ao exílio, o que provoca a intervenção da Arábia Saudita, apoiada por Bahrein e Emirados Árabes Unidos.
A coalizão saudita tenta reverter o avanço rebelde, mas os houthis mantêm o controle de amplas áreas do país. Em 2017, o grupo mata o ex-presidente Ali Abdullah Saleh, antigo aliado que tenta se reaproximar de Riad. Com o tempo, os rebeldes aprofundam laços com o Irã e passam a se declarar parte orgânica do Eixo da Resistência, ao lado de Hamas, no território palestino, e Hezbollah, no Líbano.
Guerra mais ampla e dúvidas sobre o limite da escalada
O ataque de mísseis deste sábado sinaliza que o conflito no Oriente Médio entra em uma nova fase, mais difusa e imprevisível. Israel precisa reforçar baterias antimísseis não apenas ao norte, voltadas para o Líbano e a Síria, mas também ao sul, em direção ao Mar Vermelho e ao Iêmen. O deslocamento de recursos militares aumenta a tensão em outras frentes e pressiona aliados a ampliar sua presença naval na região.
Potências ocidentais discutem, de forma reservada, opções para proteger as rotas marítimas sem aprofundar o confronto direto com o Irã. Um reforço de escoltas a navios comerciais no Mar Vermelho é uma possibilidade. Outra é intensificar sanções e pressão diplomática sobre Teerã e sobre a liderança houthi em Sanaa. Nenhuma dessas medidas, porém, resolve o ponto central: a guerra atual conecta múltiplos conflitos locais e transforma cada estreito, cada porto e cada base militar em peça de um jogo regional mais amplo.
A forma como Israel responderá ao primeiro ataque direto dos houthis permanece em aberto. Uma retaliação direta ao território iemenita pode arrastar ainda mais atores à linha de frente. Um movimento mais contido, focado em defesas e interceptações, retarda a escalada, mas não elimina o risco de novos disparos. Entre Bab el-Mandeb, Ormuz e o Mediterrâneo, a pergunta que se impõe às diplomacias, nesta noite, é até onde a guerra consegue ir antes que o custo para a economia global se torne insustentável.
