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Houthis ameaçam intervir com força militar se Mar Vermelho virar base contra o Irã

Os houthis do Iêmen declaram nesta sexta-feira (27) que estão “com os dedos no gatilho” para uma intervenção militar direta na guerra envolvendo o Irã. O alerta vale caso novas alianças se formem ao lado de Estados Unidos e Israel ou se o Mar Vermelho for usado para ataques contra Teerã e países muçulmanos.

Grupo xiita mira Mar Vermelho e liga sinal de alerta regional

A ameaça parte de Yahya Saree, porta-voz militar do movimento xiita aliado a Teerã, em pronunciamento televisionado a partir do Iêmen. Em vídeo, ele afirma que o grupo está pronto para agir se o que chama de escalada contra o Irã e o “eixo da resistência” continuar, referência à rede de aliados iranianos que inclui facções no Líbano, na Síria, no Iraque e em Gaza.

“Confirmamos que estamos prontos para uma intervenção militar direta”, diz Saree, ao condicionar essa entrada à formação de novas coalizões com Washington e Israel ou ao uso do Mar Vermelho para “operações hostis” contra o Irã. Ele não detalha que tipo de ataque os houthis poderiam lançar, mas lembra que o grupo não aceitará que o estreito marítimo se transforme em plataforma para ofensivas contra qualquer país muçulmano.

O pronunciamento ocorre em 27 de março de 2026, num momento em que a região ainda absorve o impacto de ataques norte-americanos e israelenses contra alvos iranianos. A fala ecoa em uma zona por onde passam, todos os anos, milhões de toneladas de petróleo e contêineres ligando Ásia, Europa e África. O Mar Vermelho e o estreito de Bab el-Mandeb, entre o Iêmen e o Chifre da África, concentram uma das rotas mais sensíveis do comércio mundial.

Desde 2023, as principais potências monitoram os movimentos dos houthis no litoral iemenita. O grupo já demonstrou capacidade de atingir alvos a centenas de quilômetros de distância, com mísseis e drones que alcançam tanto Israel quanto rotas comerciais ao redor da Península Arábica. O novo recado, agora vinculado diretamente à defesa do Irã, aumenta a incerteza em torno de uma eventual ampliação da guerra.

Ameaça de bloqueio reacende temor sobre rotas de petróleo

Saree volta a criticar o que chama de “bloqueio ao Iêmen” e adverte que qualquer endurecimento dessa pressão terá resposta. Ele pede a suspensão imediata dos ataques dos EUA e de Israel contra o Irã e aliados, incluindo territórios palestinos, Líbano e Iraque, e relaciona esse recuo à implementação efetiva do cessar-fogo em Gaza, firmado em outubro de 2025.

O histórico recente dos houthis dá peso ao aviso. Depois do ataque de 7 de outubro de 2023 do Hamas contra Israel, o grupo iemenita inicia uma campanha no Mar Vermelho. Navios de bandeiras variadas, de porta-contêineres a petroleiros, passam a ser atacados sob a justificativa de apoio aos palestinos. Em resposta, Israel realiza bombardeios aéreos em solo iemenita, enquanto os Estados Unidos lançam mísseis contra posições houthis.

Ao longo de 2024 e 2025, Washington articula coalizões navais para proteger comboios na região. Em paralelo, a ONU discute mecanismos para resguardar o comércio também no Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial exportado por via marítima. O cessar-fogo em Gaza, mediado por Washington em outubro de 2025, leva os houthis a suspender ataques contra navios, mas não encerra a disputa pela influência sobre os corredores marítimos.

Fontes ligadas a serviços de inteligência da região estimam que mais de 400 combatentes do Hezbollah foram mortos desde o início da guerra, número que ilustra a intensidade da frente aberta no Líbano. Milícias iraquianas também admitem envolvimento direto em ataques contra posições ligadas aos EUA. Os houthis, até agora, se mantêm formalmente fora do conflito mais amplo, apesar de sua aliança estratégica com o Irã e da posição geográfica crítica, de frente para o Mar Vermelho.

A declaração desta semana mexe com cálculos militares em capitais de ambos os lados. Uma intervenção houthi pode pressionar prêmios de risco no transporte de petróleo, encarecer seguros marítimos e deslocar rotas pelo Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, acrescentando milhares de quilômetros às viagens. O impacto tende a ser sentido em fretes internacionais, inflação e preço de combustíveis, em especial na Europa e na Ásia.

Risco de guerra mais ampla e dilema para diplomacia

Os recados do porta-voz houthi se somam à movimentação de aliados do Irã no Líbano e no Iraque, que já assumem papel ativo na guerra. O alerta de que o grupo está pronto para agir “diretamente” amplia o risco de que o conflito se espalhe, desta vez sobre um corredor por onde circulam, diariamente, dezenas de navios de grande porte. Cada interrupção prolongada nessa rota tende a se refletir em estoques, prazos de entrega e custos de energia.

Para os Estados Unidos e Israel, o comunicado representa uma ameaça direta a interesses estratégicos. A região do Mar Vermelho é vital para a 5ª Frota americana e para o abastecimento energético de aliados ocidentais. Uma ofensiva dos houthis que feche ou restrinja Bab el-Mandeb coloca pressa sobre iniciativas diplomáticas, ao mesmo tempo em que fortalece a ala mais dura, que defende respostas militares preventivas.

Para o Irã, o discurso sinaliza que sua rede de aliados segue disposta a proteger Teerã diante de novas coalizões adversárias. A postura reforça a imagem de um “eixo da resistência” capaz de atingir interesses americanos e israelenses em múltiplas frentes, do Levante ao Golfo. A conta, porém, também pode recair sobre a própria economia iraniana, dependente de rotas marítimas seguras para exportar petróleo e contornar sanções.

Diplomatas ouvidos em capitais árabes avaliam que qualquer erro de cálculo no Mar Vermelho pode transformar uma ameaça em confronto aberto entre forças regionais e potências estrangeiras. A presença de navios de guerra de diferentes bandeiras, operando em um espaço limitado e sob alta tensão, aumenta o risco de incidentes. Um ataque mal atribuído ou uma interceptação fracassada podem funcionar como gatilho para uma escalada rápida.

Negociadores tentam, nos bastidores, preservar canais com Teerã e com o próprio movimento houthi, que controla amplas áreas do norte do Iêmen desde 2014. O desafio é combinar a proteção do fluxo de navios com alguma forma de contenção militar. Enquanto não surge uma fórmula estável, a pergunta que se impõe nas pontes de comando dos cargueiros que cruzam o Mar Vermelho permanece a mesma: até quando o comércio mundial poderá seguir passando ileso por uma zona de guerra em gestação?

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