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Homem é sequestrado após golpe em app de namoro na Zona Leste

Um homem é sequestrado por dois dias após cair em um golpe do amor marcado por aplicativo de encontros na noite de 22 de janeiro de 2026. Ele fica em cativeiro na Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo, até ser resgatado pela polícia, que prende três suspeitos.

Encontro marcado em app termina em cativeiro

O que começa como uma conversa sedutora em um aplicativo de encontros termina em sequestro na periferia de São Paulo. A vítima, um homem de cerca de 30 anos, combina o primeiro encontro com uma mulher que conhece online, segue as instruções enviadas pelo chat e chega à Cidade Tiradentes acreditando que terá um encontro romântico em plena noite de terça-feira.

Ao descer do carro em uma rua estreita do bairro, ele é cercado por homens armados. A mulher desaparece da cena em segundos. O grupo obriga o homem a entrar em outro veículo e leva o celular, os cartões bancários e os documentos. O sequestro relâmpago, que costuma durar algumas horas, se transforma em cárcere privado de dois dias em um imóvel simples da região.

Investigadores ouvidos pela reportagem descrevem um roteiro já conhecido em delegacias especializadas: perfis atraentes em aplicativos, conversa rápida, convite para encontro em áreas afastadas e abordagem violenta. A diferença, neste caso, é o período prolongado de cativeiro e a operação que termina com o resgate. “É a mistura de golpe digital com crime de sequestro tradicional”, afirma um delegado que acompanha o caso.

Golpe do amor migra do virtual para o crime organizado

Durante as cerca de 48 horas de cativeiro, os criminosos pressionam a vítima, exigem senhas, tentam transferir dinheiro por aplicativos bancários e avaliam bens em nome do homem. A polícia ainda não divulga valores, mas apura tentativas de movimentação em contas e uso de limites de crédito. Em outros casos semelhantes, as perdas chegam a dezenas de milhares de reais, o que faz as autoridades tratarem esses sequestros como parte de uma engrenagem de crime organizado.

O resgate ocorre após rastreamento de sinais do celular e análise de câmeras de segurança das redondezas. Agentes identificam o trajeto do carro usado no sequestro e chegam a uma área de vielas na Cidade Tiradentes, distrito com mais de 200 mil moradores, marcado por déficit histórico de serviços públicos e forte presença de facções criminosas. A operação termina com a libertação da vítima, aparentemente sem ferimentos graves, e com a prisão de três suspeitos, dois homens e uma mulher, apresentados como integrantes de um grupo especializado em golpes articulados pela internet.

Delegados que atuam na Zona Leste relatam aumento constante de crimes que começam em aplicativos de relacionamento. Em boletins registrados desde 2023, aparecem relatos de roubos, extorsão e chantagem emocional. Em alguns, fotos íntimas são usadas para ameaçar a vítima; em outros, como neste sequestro, o crime evolui para violência física. “Os aplicativos se tornam a nova esquina escura da cidade”, resume um investigador.

Especialistas em segurança digital alertam que a combinação entre exposição voluntária de dados pessoais e ausência de checagem mínima cria terreno fértil para golpes. Perfis falsos, fotos roubadas de redes sociais e conversas marcadas por pressa e insistência aparecem como sinais de alerta. A recomendação é simples, mas nem sempre seguida: evitar encontros em locais isolados, avisar amigos ou familiares e desconfiar de convites que envolvam deslocamento para bairros desconhecidos em horários de pouco movimento.

Pressão por mais segurança em apps e investigação policial

O caso reacende o debate sobre a responsabilidade das plataformas de encontros. Algumas empresas já oferecem verificação de fotos, selos de perfis confirmados e botões de emergência que acionam contatos de confiança ou o 190 com um toque. A adoção real desses recursos, porém, ainda é limitada. Pesquisas recentes mostram que boa parte dos usuários brasileiros ignora as abas de segurança dos aplicativos, mesmo diante de relatos de golpes com prejuízos financeiros e emocionais profundos.

Na esfera policial, a prisão dos três suspeitos abre espaço para rastrear a cadeia completa do golpe. Investigadores querem saber se há outros cativeiros na Zona Leste, quantas vítimas já caíram na mesma armadilha e se facções participam diretamente da estruturação desses crimes. A origem das contas bancárias usadas nas tentativas de transferência e o caminho do dinheiro entram no centro do inquérito, que pode se desdobrar em novas operações ainda neste semestre.

Para a vítima, a libertação encerra o período de cativeiro, mas não resolve o impacto emocional. Psicólogos que atendem sobreviventes de sequestro relatam quadros de insônia, medo de circulação à noite e dificuldade de retomar a rotina, mesmo quando não há lesões físicas. O trauma tende a se agravar quando a violência nasce em espaços que deveriam sugerir afeto, como um encontro amoroso.

O episódio em Cidade Tiradentes transforma o celular em peça central do crime e da investigação. O mesmo aparelho que serve de porta de entrada para o relacionamento virtual ajuda a polícia a localizar o cativeiro. A tecnologia, de um lado, amplia a capacidade de dano dos grupos criminosos; de outro, oferece ferramentas de rastreio e prova. A disputa entre esses dois usos deve definir os próximos capítulos de casos como este, que colocam em choque a promessa de conexões rápidas e o risco concreto de cair em uma emboscada.

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