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Herança de tio reabre disputa jurídica e expõe novo capítulo de Suzane

A disputa pela herança de Miguel Abdalla Neto, morto em 2026 em São Paulo, coloca de um lado Suzane von Richthofen e, de outro, Silvia Magnani. As duas travam na Justiça uma guerra por imóveis, carro e o próprio direito de serem reconhecidas como herdeiras.

Mortes, invasões e um espólio em disputa

O caso ganha contornos mais tensos a partir da morte de Miguel, então com pouco mais de 60 anos, em uma casa na Rua Baronesa de Bela Vista, na zona sul de São Paulo. A Polícia Militar registra a ocorrência como morte suspeita e o 27º Distrito Policial, no Campo Belo, pede perícia para esclarecer o que ocorreu, já que não há sinais aparentes de violência no local.

Enquanto o laudo definitivo não vem, o que se consolida é um conflito em torno do patrimônio deixado pelo irmão de Marísia von Richthofen, assassinada em 2002 ao lado do marido, Manfred, em um dos crimes mais conhecidos do país. Depois do duplo homicídio, Miguel passa a administrar os bens do sobrinho Andreas, então adolescente, até que ele atinge a maioridade, o que reforça a imagem de figura de confiança dentro da família.

Com a confirmação da morte de Miguel, a residência na Baronesa de Bela Vista passa a ser alvo de invasões. Móveis, documentos e dinheiro desaparecem. Diante desse cenário, Suzane e o filho de uma prima do falecido relatam à Justiça que decidem soldar os acessos do imóvel para impedir novos furtos. A medida, segundo a versão apresentada no processo de inventário, seria uma forma emergencial de proteção do espólio.

Silvia Magnani reage com dureza. Em nota oficial, afirma que mantém união por mais de dez anos com Miguel e diz sentir “profunda indignação” ao saber que o portão da casa é soldado e as fechaduras, trocadas, sem qualquer determinação judicial. Para ela, o ato representa uma exclusão deliberada de quem se considera companheira e principal responsável pelos últimos momentos de vida do empresário.

Silvia sustenta que cuida de todos os trâmites do sepultamento, arca com despesas e colabora com as investigações sobre a morte e as invasões na casa. Ao mesmo tempo, alega que se vê afastada da gestão do patrimônio, que inclui o imóvel e um automóvel Subaru XV, hoje no centro de uma das frentes mais visíveis da briga judicial.

Carro, inventário e o alcance da indignidade

No processo de inventário, a Justiça nomeia Suzane von Richthofen como inventariante, figura responsável por administrar e preservar os bens até a partilha final. A decisão vem mais de duas décadas depois de Suzane ser condenada como coautora do assassinato dos pais e, por isso, declarada indigna para herdar o patrimônio de Manfred e Marísia.

A presença de Suzane nessa nova disputa reacende discussões jurídicas e morais. Pelas regras do Código Civil, a exclusão por indignidade se restringe à herança da vítima do crime e de familiares diretos previstos em lei. A condição de Suzane em relação aos pais não se estende automaticamente ao tio, o que abre espaço para sua participação na sucessão como sobrinha.

Na prática, isso significa que, na ausência de descendentes, ascendentes e cônjuge de Miguel, a herança segue para os parentes colaterais. A lei estabelece uma ordem: primeiro irmãos; na falta deles, sobrinhos por representação. Como Marísia já está morta, Suzane e o irmão Andreas ocupam o lugar da mãe na linha sucessória e podem dividir, em tese em partes iguais, os bens do tio.

Silvia tenta mudar esse desenho. Sua defesa contesta a nomeação de Suzane como inventariante e pede o reconhecimento de união estável. Se a Justiça confirmar que a relação de mais de uma década preenche os requisitos legais, ela passa a ter preferência ou, no mínimo, concorrência direta na partilha. Nesse cenário, o patrimônio pode ser repartido entre ela e os sobrinhos, o que reduz a fatia destinada a Suzane e Andreas.

O automóvel Subaru XV simboliza o grau de desgaste entre as partes. Em manifestação ao juízo, Suzane informa que o carro está sob sua guarda, estacionado em “local seguro”, sem uso, até decisão definitiva. Os advogados de Silvia falam em “subtração planejada” do veículo, que consideram parte do espólio, e pedem que o bem retorne à esfera do inventário.

Disputa jurídica, repercussão pública e próximos passos

O processo de inventário de Miguel ocorre no Fórum de São Paulo, em meio a outros procedimentos que tratam da morte suspeita e das invasões na casa da Baronesa de Bela Vista. Delegados e peritos trabalham para esclarecer as circunstâncias do óbito, enquanto o Judiciário analisa se houve excesso na forma como o imóvel foi lacrado e se bens foram retirados de maneira irregular.

Especialistas em direito sucessório ouvidos pela reportagem afirmam que o caso tem potencial para se tornar um precedente importante em ao menos dois pontos. O primeiro é o alcance da indignidade em heranças sucessivas, diante de uma personagem que já foi formalmente excluída da sucessão dos pais, mas permanece apta, em tese, a receber bens de um tio. O segundo é a força probatória que relações longas, mas muitas vezes informais, podem ter quando alguém busca o reconhecimento de união estável para disputar patrimônio.

Na prática, decisões como essa impactam casais que vivem juntos por anos sem formalizar casamento ou registrar contratos de união. A definição de quem tem direito ao imóvel, ao carro ou a aplicações financeiras passa a depender de provas como contas conjuntas, testemunhas, registros de convívio contínuo e participação em despesas. Um deslize na documentação pode significar a perda de uma parte significativa da herança.

No caso de Miguel, o desfecho ainda está distante. O juiz precisa decidir se mantém Suzane como inventariante, se reconhece ou não a união estável alegada por Silvia e como serão restituídos os bens já retirados do imóvel, incluindo o Subaru XV, avaliado no mercado em algumas centenas de milhares de reais, dependendo do ano e do estado de conservação.

As investigações criminais sobre a morte e as invasões também seguem abertas. A conclusão do inquérito policial pode influenciar o andamento do inventário, sobretudo se apontar responsabilidade de algum dos envolvidos na disputa pela herança. Até lá, a briga em torno do espólio de Miguel Abdalla Neto mantém viva, mais de vinte anos depois, a sombra do caso Richthofen no noticiário e deixa em aberto uma pergunta central: quem, de fato, terá direito de herdar o que restou da família.

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