Hamas aceita entregar comando de Gaza a comitê tecnocrático palestino
O Hamas anuncia nesta quarta-feira (28) que está pronto para entregar o controle da Faixa de Gaza ao Comitê Nacional para o Governo de Gaza (NCAG). A transferência integra o acordo de cessar-fogo firmado em 2025 com Israel, sob mediação dos Estados Unidos, e abre uma disputa sobre segurança, desarmamento e futuro político do território.
Transição negociada sob fogo cruzado
O anúncio vem após dois anos de bombardeios israelenses e sucessivas rodadas de negociações, que culminam no plano de paz apresentado por Washington em setembro de 2025. O NCAG, descrito como um comitê “tecnocrático”, passa a ser o pivô da reconstrução de Gaza e da reorganização administrativa de um território devastado, com serviços públicos colapsados e centenas de milhares de deslocados internos.
Em entrevista à agência AFP, o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, afirma que a máquina administrativa do grupo já está pronta para a mudança. “Os protocolos estão preparados, os arquivos estão completos e os comitês estão em vigor para supervisionar a transferência, garantindo uma transferência completa de governança na Faixa de Gaza em todos os setores para o comitê tecnocrático”, diz. A fala confirma o que ele próprio antecipa em 12 de janeiro, quando revela que todas as instituições do governo de Gaza recebem instruções para se preparar para a transição.
O NCAG é formado por 15 palestinos nascidos em Gaza e ligados à Autoridade Palestina, que governa partes da Cisjordânia ocupada. O colegiado é presidido por Ali Shaath, ex-ministro dos Transportes, e responde ao chamado Conselho da Paz, órgão criado pelo governo Donald Trump para supervisionar a implementação do acordo. Na prática, a estrutura tira das mãos do Hamas a gestão civil de um território de cerca de 2 milhões de habitantes e concentra poder em um arranjo apoiado diretamente pela Casa Branca.
Disputa por segurança e controle das armas
A transição, porém, não se limita a carimbos e arquivos. O ponto central é o controle da segurança interna e do arsenal do Hamas, tema que já tensiona o entendimento com Israel. Em carta vista pela agência Reuters, a liderança do grupo exorta mais de 40 mil servidores civis e agentes de segurança a cooperarem com o NCAG, mas promete trabalhar para incorporá-los à nova estrutura de governo. Nos bastidores, o Hamas tenta preservar poder de polícia e influência nas ruas, mesmo sem comandar formalmente o Executivo.
O movimento pressiona para manter ao menos 10 mil homens nas forças policiais que os Estados Unidos ajudam a montar para garantir a ordem em Gaza. A exigência enfrenta resistência do governo israelense, que vê risco de o grupo preservar um braço armado sob nova roupagem. O acordo prevê também o envio de uma força militar de estabilização composta por exércitos de países árabes, encarregada de patrulhar fronteiras sensíveis e áreas-chave, enquanto se discute o desarmamento gradual do Hamas.
O desfecho sobre as armas permanece em aberto. O plano de paz coloca o desarmamento completo do grupo como condição central da terceira fase, que inclui o reconhecimento de um Estado palestino. A liderança do Hamas insiste que só entrega o arsenal quando esse Estado existir de fato. Do outro lado, o premiê israelense Binyamin Netanyahu afirma publicamente que jamais aceitará um Estado palestino nessas condições. O impasse transforma a transição de governo em Gaza em peça de um tabuleiro maior, onde a disputa é pela definição de fronteiras e pela própria ideia de soberania palestina.
Infraestrutura em ruínas e novos centros de poder
O NCAG nasce com uma missão imediata: reconstruir uma faixa de terra onde rodovias, hospitais, escolas e redes de energia sofrem danos sucessivos desde o início da escalada militar mais recente. A meta inicial, descrita em documentos do plano de paz, é restabelecer serviços básicos em até 18 meses, com prioridade para água, eletricidade e atendimento médico. A agência da ONU para refugiados palestinos estima que dezenas de milhares de moradias sejam reconstruídas ou reparadas nesse período, em coordenação com doadores internacionais.
O governo Trump cria ainda um Conselho Executivo de Gaza para apoiar politicamente Ali Shaath. A função exata do órgão segue pouco definida, mas a composição indica o peso dos interesses externos. Entre os integrantes estão o chanceler turco, Hakan Fidan, o general egípcio Hassan Rashad, o bilionário israelense Yakir Gabay e diplomatas de Qatar, Emirados Árabes Unidos, Bulgária e Holanda. Junto com o Conselho da Paz e o NCAG, o Conselho Executivo forma uma teia de três instâncias que passam a arbitrar o cotidiano de Gaza, da liberação de verbas de reconstrução à definição de projetos de infraestrutura.
As decisões sobre circulação de pessoas também se tornam centrais. Qassem afirma que a passagem de Rafah, na fronteira sul com o Egito, precisa ser aberta “em ambas as direções, com total liberdade de saída e entrada para a Faixa de Gaza, sem quaisquer obstáculos israelenses”. O corredor é vital para abastecimento, evacuação de feridos e saída de trabalhadores. O controle dessa porta de entrada, somado às restrições impostas por Israel ao norte, define o ritmo da retomada econômica e a capacidade de Gaza de respirar além do cerco militar.
Transição frágil e futuro em disputa
A entrega formal do governo marca um ponto de inflexão após quase duas décadas de domínio do Hamas em Gaza, iniciado em 2007. O movimento tenta se reposicionar como ator político e militar em um cenário em que passa a dividir a cena com tecnocratas próximos à Autoridade Palestina e com comitês desenhados em Washington. A população, exausta de apagões, falta de água e ataques aéreos, observa a troca de placas de governo com ceticismo e expectativa moderada.
O sucesso da transição depende de fatores que extrapolam o território. Israel controla o ritmo de liberação de mercadorias, o sobrevoo de aviões militares e a entrada de materiais considerados de uso dual, como cimento e aço. Os Estados Unidos coordenam o fluxo de recursos e condicionam parte do financiamento ao cumprimento de etapas do plano de paz. Países árabes se comprometem com tropas de estabilização, mas exigem garantias de que não atuarão como força de ocupação por prazo indeterminado.
As próximas semanas devem definir se o Hamas aceita reduzir sua presença nas forças policiais ao número que os mediadores considerarem aceitável e se o NCAG consegue assumir de fato a administração sem paralisar serviços essenciais. A implementação da segunda fase do plano de paz abre espaço para reconfigurar o mapa político palestino e recolocar a discussão sobre Estado próprio na mesa de negociações. A questão que permanece é se a mudança em Gaza inaugura um caminho consistente para esse desfecho ou apenas redesenha, com novos nomes e comitês, um conflito que continua sem solução clara.
