Ultimas

Haddad deixa Fazenda para disputar eleição e indica Durigan

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, confirma que deixa o cargo na próxima semana para disputar as eleições de 2026. A saída cumpre a exigência de desincompatibilização prevista na lei eleitoral e abre caminho para a indicação de Guilherme Mello Durigan como provável sucessor na condução da política econômica do governo.

Saída coordenada em ano eleitoral

A decisão de Haddad ocorre em março de 2026, a pouco mais de seis meses do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. A legislação exige que ministros se afastem do cargo até seis meses antes da votação para concorrer, e o titular da Fazenda escolhe cumprir o prazo com margem de segurança, em um momento em que o governo tenta preservar algum grau de estabilidade econômica antes do acirramento da campanha.

Haddad se torna o primeiro nome de peso do núcleo econômico a deixar o governo com vistas diretas à disputa eleitoral. A confirmação encerra semanas de especulações sobre sua permanência no cargo e força uma reorganização interna em pleno período de discussão do Orçamento de 2027 e de revisão das metas fiscais. Segundo interlocutores, o ministro afirma em reuniões reservadas que “é hora de colocar o projeto em avaliação nas urnas” e que a transição na Fazenda precisa ser “rápida e previsível”.

Durigan herda vitrine e pressão

O nome mais cotado para assumir a pasta é o de Durigan, hoje uma das principais vozes da equipe econômica. Ele participa de decisões centrais do ministério desde 2023, quando o governo retoma discussões sobre arcabouço fiscal, reforma tributária e crescimento do investimento público. A escolha sinaliza tentativa de continuidade na linha econômica, sem ruptura brusca na gestão do orçamento federal e nas negociações com o Congresso.

Durigan assume, se confirmado, uma das cadeiras mais expostas de Brasília. A Fazenda comanda um orçamento superior a R$ 5 trilhões, coordena metas de resultado primário e precisa negociar cada ponto percentual de gasto com uma base parlamentar fragmentada. Em ano de eleição, qualquer ajuste em renúncia fiscal, imposto sobre consumo ou benefício social vira munição política imediata. Nesse ambiente, o novo ministro passa a ser cobrado ao mesmo tempo por disciplina fiscal, crescimento do PIB e resposta a pressões de aliados por mais recursos.

Disputa com Tarcísio e efeito nas pesquisas

A movimentação ocorre em um cenário em que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, aparece na dianteira das pesquisas nacionais de intenção de voto, com índices na casa de 30% em alguns levantamentos divulgados nos últimos meses. Haddad, que perde para Tarcísio em São Paulo por margem de dois dígitos desde 2022, tenta redesenhar sua imagem: deixa o papel de ministro responsável por cortes e ajustes e tenta falar como candidato capaz de “proteger emprego e renda” em meio a um crescimento ainda modesto da economia, na faixa de 2% ao ano.

Líderes governistas avaliam que sua saída da Fazenda pode reduzir o desgaste diário com temas impopulares, como contenção de gastos e revisão de subsídios, e ao mesmo tempo liberar o ex-ministro para percorrer o país. “Não dá para ser candidato de peso e passar o dia discutindo contingenciamento de verba com deputado”, admite um parlamentar próximo ao Planalto. A aposta é que Haddad use a experiência à frente de um orçamento trilionário como credencial de responsabilidade, em contraste com discursos mais genéricos de adversários sobre economia.

Mercado, Congresso e o fio da navalha fiscal

Investidores acompanham o movimento com atenção redobrada. Desde 2023, a equipe econômica tenta convencer o mercado de que é possível combinar meta de déficit zero em horizonte de poucos anos com aumento de gasto social e investimento em infraestrutura. A troca no comando ocorre em meio a discussões sobre revisão de metas para 2026 e 2027, após resultados fiscais abaixo do projetado. Qualquer sinal de afrouxamento descontrolado pode pressionar o câmbio e os juros, num momento em que a taxa básica ainda gira em torno de dois dígitos.

No Congresso, a mudança é lida também como rearranjo de forças. Deputados e senadores querem saber se Durigan manterá o estilo de negociação de Haddad, que distribui tempo em reuniões e aceita aparar projetos para evitar derrotas amplas em votações. A pauta econômica acumulada inclui desde projetos de desoneração setorial até a regulamentação final da reforma tributária e disputas sobre a partilha de receitas entre União, estados e municípios. A forma como o novo ministro lidar com governadores e prefeitos, em meio a receitas apertadas e demandas por mais repasses, tende a influenciar diretamente a temperatura política regional nas vésperas da eleição.

Projeto eleitoral em teste

Haddad se lança na disputa de 2026 carregando o selo de fiador da política econômica do governo, com acertos e erros à vista. Defensores apontam a aprovação da reforma tributária sobre o consumo, a queda gradual da inflação para a casa de 4% ao ano e a recomposição parcial do salário mínimo acima da inflação como vitrine. Críticos lembram a dificuldade de entregar o equilíbrio das contas públicas prometido e o aumento da carga tributária em setores específicos para fechar o caixa federal.

A campanha deve explorar esse balanço. A narrativa governista tende a apresentar Haddad como o responsável por evitar uma crise fiscal mais profunda, preservar programas sociais e manter investimento em obras estratégicas em meio a um Congresso dividido. Oposição e governadores de centro-direita, como Tarcísio, devem insistir na ideia de que o país cresce menos do que poderia, com excesso de impostos e incerteza regulatória. O embate sobre números de emprego, renda e dívida pública promete dominar os debates na TV e nas redes.

O que vem depois da troca na Fazenda

Palácio do Planalto e lideranças da base trabalham para que a nomeação de Durigan ocorra em poucos dias, reduzindo o espaço para especulações sobre alternativas e para ruídos com o mercado. A transição interna inclui redistribuição de secretarias, revisão de cronogramas de anúncios econômicos e definição de quem passa a ser o principal interlocutor com a Câmara e o Senado em temas orçamentários. A intenção é que, até o fim de março, o novo titular já esteja à frente de reuniões com presidentes de bancos públicos, governadores e representantes do setor produtivo.

Haddad, fora da Esplanada, terá o desafio de transformar a visibilidade de ministro em capital eleitoral concreto, em um país ainda marcado por desigualdade de renda, juros altos e desconfiança com a política. A saída da Fazenda encerra um ciclo e abre outro: o de um ex-ministro que tenta provar nas urnas que o balanço de sua gestão pesa mais que o desgaste de cada corte de gasto anunciado. A pergunta central, nos próximos meses, é se o eleitor enxergará nele o gestor responsável que o Planalto descreve ou o rosto de uma economia que ainda não entrega o ritmo de crescimento que o país espera.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *