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Guerra no Oriente Médio entra no 14º dia com ataques e ameaça de escalada

A guerra no Oriente Médio completa 14 dias nesta sexta-feira (13) com novos ataques de mísseis, repressão a protestos no Irã e fracasso das tentativas de cessar-fogo. Estados Unidos, Israel, Irã e Hezbollah endurecem o discurso e sinalizam uma escalada militar, enquanto a ONU tenta evitar que o conflito saia do controle.

Escalada militar atinge Teerã, Líbano e Israel

O décimo quarto dia de confrontos começa com sirenes em Tel Aviv, explosões em Teerã e novos alvos atingidos no Líbano. Forças armadas israelenses lançam uma campanha ampliada contra o Irã e emitem avisos de evacuação para partes de Teerã e de Qazvin, cidade a cerca de 150 quilômetros a noroeste da capital. A TV estatal iraniana relata explosões em áreas urbanas e moradores registram caças sobrevoando a baixa altitude.

Em paralelo, Israel admite pela primeira vez ter mirado uma estrutura civil desde o início da guerra. O alvo é uma ponte no Líbano, ponto estratégico para o deslocamento de pessoas e suprimentos em direção ao sul do país, área de influência do Hezbollah. Em Beirute, o secretário-geral da ONU, António Guterres, desembarca para uma visita de solidariedade e pede publicamente que Israel e Hezbollah aceitem um cessar-fogo imediato. O apelo não muda o curso do dia: ataques seguem dos dois lados.

No norte de Israel, um míssil balístico iraniano atinge Zarzir, cidade próxima a Nazaré. O serviço de resgate local informa 58 feridos, nenhum em estado grave. Sirenes de alerta tocam em Tel Aviv e várias explosões são ouvidas na região metropolitana. O som chega a Jerusalém, a cerca de 70 quilômetros dali, reforçando a sensação de que a linha de frente já não está claramente definida.

A onda de mísseis e drones atravessa fronteiras e amplia o raio de tensão. Nos Emirados Árabes Unidos, autoridades dizem ter interceptado 27 artefatos. O Reino Unido afirma ter derrubado “múltiplos drones”, sem detalhar o local. A Turquia relata a interceptação de um míssil iraniano, o terceiro desde o início da guerra. Explosões fazem prédios tremerem em Dubai, enquanto em Omã duas pessoas morrem após um ataque de drone.

Ruas em ebulição no Irã e endurecimento em Washington

Em Teerã, a guerra externa alimenta uma nova onda de tensão interna. Milhares de iranianos saem às ruas para protestar contra Israel, o sionismo e em apoio à Palestina. Durante a marcha, uma explosão próxima à manifestação deixa uma pessoa morta e aumenta o clima de medo. A Guarda Revolucionária reage com ameaça direta. Em comunicado, afirma que qualquer novo protesto contra o governo será reprimido “de forma ainda mais dura” do que em janeiro, quando milhares de manifestantes morreram na repressão.

O recado mira uma sociedade exausta por anos de sanções, inflação alta e falta de perspectivas. Ao mesmo tempo, Teerã vê crescer a pressão internacional. Nesta sexta, os Estados Unidos divulgam um cartaz oferecendo recompensa de até US$ 10 milhões por informações sobre Motjaba Khamenei, filho de Ali Khamenei e escolhido como novo líder supremo, e por líderes da Guarda Revolucionária. O valor, superior a R$ 50 milhões na cotação atual, reforça a estratégia de isolar o núcleo duro do regime.

Motjaba permanece fora de cena desde a escolha. Seu único pronunciamento é lido por um porta-voz, o que alimenta rumores sobre seu estado de saúde. O presidente americano, Donald Trump, afirma acreditar que ele está vivo, porém ferido. O secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, vai além e diz que Motjaba deve estar “desfigurado”. As declarações ecoam em Teerã como provocação direta ao futuro líder.

Trump usa a escalada para reforçar a narrativa de que busca o fim do poderio militar iraniano. Em novos comentários nesta quinta, promete atacar o Irã “com muita força” na próxima semana e volta a defender que a campanha em curso mira a “base industrial de defesa iraniana”. Em uma das frases mais controversas do dia, o presidente declara que “é uma honra matar iranianos”, declaração que amplia o desgaste com aliados europeus e com a própria ONU.

O discurso contrasta com a cautela militar nos bastidores. O general Dan Caine, chefe do Estado-Maior dos Estados Unidos, admite em coletiva que o Estreito de Ormuz é um “ambiente taticamente complexo”. Segundo ele, qualquer movimentação em grande escala na região exige garantias de que as ações estarão alinhadas aos “objetivos militares atuais”. O corredor é vital para o escoamento de petróleo do Golfo e concentra parte relevante do comércio global de energia.

Hezbollah se prepara para guerra longa e risco cresce para civis

No Líbano, o líder do Hezbollah, Naim Qassem, fala em tom de confronto prolongado. Em discurso televisionado, afirma que o grupo está pronto para uma “longa batalha” e minimiza ameaças de assassinato feitas por Israel. “Esta é uma batalha existencial, não uma batalha limitada ou simples”, diz. Para Qassem, a entrada do Hezbollah no conflito busca “enfraquecer a posição de Israel” e melhorar os termos de um eventual acordo. “Não há solução a não ser pela resistência; caso contrário, o Líbano enfrentará a extinção”, afirma.

O avanço militar já redesenha o mapa do risco civil em boa parte da região. Explosões em Teerã, Tel Aviv e Jerusalém se somam ao medo cotidiano no sul do Líbano e em cidades próximas a bases militares no Irã. A interceptação de mísseis e drones em países como Emirados Árabes, Omã e Turquia indica que a guerra extravasa as fronteiras originais e pressiona economias dependentes de turismo, transporte aéreo e logística internacional.

Analistas ouvidos pela ONU alertam que duas semanas de ataques contínuos são suficientes para desorganizar cadeias de suprimento, atrasar projetos de investimento e elevar prêmios de risco na região. A perspectiva de que os EUA possam ampliar operações perto do Estreito de Ormuz adiciona um componente imediato: qualquer interrupção relevante no fluxo de navios pode acelerar a alta do petróleo e encarecer energia em grandes cidades do mundo em poucas semanas.

No Irã, a repressão anunciada pela Guarda Revolucionária aprofunda o impasse entre governo e sociedade. O histórico de protestos duramente reprimidos desde 2019 alimenta a percepção de que o regime está disposto a pagar um preço alto em vidas para manter o controle interno enquanto enfrenta pressão militar externa. A oferta de recompensa americana por Motjaba Khamenei e por generais reforça o risco de disputas internas e de operações clandestinas.

Diplomacia em impasse e incerteza sobre duração da guerra

As tentativas de mediação da ONU, por enquanto, esbarram em declarações públicas que apontam na direção oposta. Trump admite que o presidente russo, Vladimir Putin, pode estar ajudando “um pouco” o Irã, mas afirma que Washington não foca, neste momento, em uma operação para tomar o urânio iraniano, embora não descarte essa possibilidade no futuro. A justificativa oficial para o início dos bombardeios, a suspeita de desenvolvimento de armas nucleares por Teerã, continua no centro do discurso americano.

No calendário esportivo, os reflexos já aparecem. O Grande Prêmio do Bahrein, previsto como a quarta etapa da temporada para o fim de semana de 12 de abril, e a corrida na Arábia Saudita, marcada para sete dias depois, entram em revisão de segurança. Organizadores acompanham a escalada de ataques com mísseis e drones na região e avaliam riscos para equipes, pilotos e torcedores.

No curto prazo, governos e analistas esperam uma combinação de mais ações militares e novas manifestações populares, sobretudo no Irã. Cada ataque que atinge uma cidade, cada explosão próxima a uma passeata ou bairro residencial, torna mais difícil qualquer discurso de normalidade. O quadro nas próximas semanas dependerá da disposição de Washington, Teerã, Jerusalém e Beirute em aceitar algum tipo de compromisso, ainda que temporário.

A dúvida central, neste momento, é se a guerra caminha para um acordo imposto pelo cansaço e pelo custo econômico ou para uma fase ainda mais arriscada, com maior envolvimento internacional e uma crise humanitária ampliada em todo o Oriente Médio.

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