Guerra na Ucrânia empurra país para beira de colapso demográfico
Às vésperas de a guerra na Ucrânia completar quatro anos, mulheres como a ex-atiradora de elite Olena Bilozerska descobrem que o conflito não destrói apenas cidades. Ele corrói, em silêncio, a capacidade do país de ter filhos e reconstruir o próprio futuro.
Um país que envelhece sob bombardeio
Quando o casal Bilozerska decide se juntar ao combate, em 2022, o plano de ter um bebê fica em suspenso. A guerra parece urgente, a maternidade pode esperar. Quando Olena deixa o Exército, aos 41 anos, ouve dos médicos que suas chances de engravidar são praticamente nulas. É tarde demais.
A história dela se repete, com variações, em milhares de lares. Com o conflito iniciado em 2014 e ampliado pela invasão em larga escala russa em fevereiro de 2022, a Ucrânia perde cerca de 10 milhões de pessoas em poucos anos, entre mortos, refugiados e moradores em áreas ocupadas, segundo a demógrafa Ella Libanova. “É uma catástrofe. Nenhum país pode existir sem pessoas”, resume à CNN.
A taxa de fertilidade, que já vinha caindo antes da guerra, entra em queda livre. Hoje, uma mulher ucraniana tem, em média, menos de um filho ao longo da vida — abaixo da média europeia de 1,4 e distante dos 2,1 necessários apenas para repor a população. A Ucrânia avança para uma das piores crises demográficas do mundo.
Os motivos se acumulam. Mulheres adiam a gravidez por medo de ataques, falta de renda estável e deslocamentos constantes. Clínicas em Kiev e em outras cidades registram mais casos de infertilidade, falhas de gestação e menopausa precoce em mulheres ainda jovens. O estresse crônico, a insegurança e as condições de vida degradadas se somam aos traumas físicos de quem passou pela frente de batalha.
Fertilidade em colapso e um país de viúvas e órfãos
Em Kiev, o embrião de Olena Bilozerska fica congelado em um banco de criopreservação cercado por 10 mil outros. Ela volta ao front como atiradora de elite, enquanto o futuro do possível filho depende da rede elétrica e de uma parede reforçada que protege os tanques de nitrogênio líquido de estilhaços e destroços.
Valery Zukin, diretor da clínica de medicina reprodutiva Nadiya, diz ver a mudança “a olho nu”. Testes genéticos em embriões abortados mostram aumento claro de anomalias cromossômicas desde o início da invasão em grande escala. “Estamos vendo mais complicações, mais anomalias, mais dificuldade em levar a gravidez até o fim”, afirma.
A colega dele, a médica Alla Baranenko, relata uma onda de menopausa precoce e piora na qualidade dos óvulos, inclusive de doadoras jovens e saudáveis. “A qualidade está pior e o número está diminuindo — e isso se deve ao estresse”, explica. O esperma dos homens, especialmente dos que voltam da frente, também se deteriora. “O estresse afeta os homens, mas também as condições em que vivem”, diz.
Ao mesmo tempo, a linha de frente transforma a Ucrânia em um país de viúvas e órfãos. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), em Washington, estima entre 100 mil e 140 mil ucranianos mortos desde 2022. Como a idade média dos soldados beira os 43 anos, muitos já são pais e maridos quando caem.
São mortes que não aparecem apenas nas estatísticas militares. Elas reaparecem na certidão de nascimento de Yustyna, filha de Iryna Ivanova com Pavlo Ivanov, um piloto de caça F-16 morto em combate em 12 de abril de 2025. Ivanova descobre que está grávida quando o marido já não volta. “Você pode sentir a maior alegria e a maior dor, e simplesmente se acostuma que isso faça parte da sua vida agora”, diz, com a bebê de olhos azuis no colo.
Os órfãos se multiplicam. Dados oficiais apontam 59 mil crianças vivendo hoje sem seus pais biológicos, a maioria em lares adotivos. Por trás do número, há mulheres como Oksana Borkun, viúva desde 2022, quando o marido é morto em Bakhmut. Marcada pelo estigma histórico da viuvez na sociedade ucraniana, ela cria um grupo de apoio on-line que já reúne mais de 6 mil mulheres.
Com as amigas Juliia Seliutina e Olena Biletska, Borkun organiza encontros presenciais, noites de homenagem e uma rede que envia cerca de 200 presentes de aniversário por mês a filhos de soldados mortos. Elas tentam preencher, simbolicamente, a ausência paterna. “A guerra me roubou os anos em que eu poderia ter tido filhos”, diz Biletska, viúva aos 45 anos, após tentativas frustradas de tratamento de fertilidade.
Êxodo, fuga de cérebros e o desafio de reconstruir
Enquanto o país enterra seus mortos, milhões partem em silêncio. Cerca de 6 milhões de pessoas, em sua maioria mulheres jovens e crianças, se registram como refugiadas no exterior desde 2022. Poucas retornam. “A cada mês há mais destruição aqui e, do outro lado, mais migrantes se adaptam à nova vida. Menos voltam”, avalia Libanova.
O movimento é também uma fuga de cérebros. Jovens qualificados encontram emprego, escola e serviços de saúde em outros países europeus. Para uma economia que já encolhe por causa da guerra, a perda de trabalhadores produtivos significa menos capacidade de reconstrução quando os combates cessarem. “Se não tivermos pessoas suficientes, teremos que trazer estrangeiros. Mas duvido que muitos profissionais qualificados venham em grande número”, diz a demógrafa.
Nas mesas de café de Kiev, viúvas mais jovens como Seliutina afirmam que não pretendem assistir à reconstrução de longe. “Sabemos o preço da perda. Não podemos ficar sentadas esperando que alguém faça algo por nós”, diz. Para especialistas, esse engajamento feminino será crucial num cenário de população menor, mais velha e marcada por traumas.
O impacto na saúde reprodutiva amplia o desafio. Com mais anomalias cromossômicas, mais menopausa precoce e queda na qualidade de óvulos e espermatozoides, cada nova gravidez se torna mais incerta. Clínicas como a Nadiya, que armazenam milhares de embriões e preservam esperma há três décadas, viram espécie de cofres do futuro demográfico do país.
Foi ali que o embrião de Bilozerska esperou três anos, enquanto a mãe enfrentava o inverno nas trincheiras. Aos 45 anos, exausta e com o pai idoso precisando de cuidados, ela aceita deixar a linha de frente e volta a Kiev. “Eu realmente não conseguia mais fazer o trabalho de combate”, admite. Recupera o embrião e, aos 46, dá à luz Pavlus Bohdan — “presente de Deus”, em ucraniano.
Um futuro em aberto entre o luto e o berçário
O nascimento de Pavlus contrasta com a matemática fria da demografia. Um bebê não compensa 10 milhões de pessoas perdidas, entre mortos, refugiados e deslocados. Mas, para Bilozerska, ele é a prova de que a guerra ainda não conseguiu extinguir o desejo de continuidade. “Você o pega no colo e simplesmente se derrete”, diz. No parque de Kiev, o menino de macacão azul-claro parece alheio às sirenes.
Para a Ucrânia, a disputa deixa de ser apenas por território e segurança imediata. A batalha agora envolve tempo biológico, políticas de retorno e proteção social para viúvas e órfãos. Sem incentivos robustos à natalidade, sem planos de reabsorção de refugiados e sem apoio à saúde reprodutiva, especialistas alertam que o país pode chegar ao pós-guerra com uma população encolhida, envelhecida e concentrada em poucos centros urbanos.
Nos próximos anos, decisões sobre reconstrução, previdência e migração vão definir se histórias como a de Pavlus serão exceção comovente ou parte de um renascimento gradual. A dúvida que paira sobre Kiev, entre geradores a diesel e incubadoras de embriões congelados, é se haverá gente suficiente, e jovem o bastante, para reconstruir o que ainda resta de pé.
