Guerra EUA-Israel contra o Irã rompe barreiras e se aproxima da Europa
A guerra iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, no último sábado, rompe as fronteiras do Oriente Médio e se espalha em múltiplas direções. Entre quarta (4) e quinta-feira (5), o conflito chega às águas do Sri Lanka, toca o espaço aéreo da Turquia, atinge o Azerbaijão e alcança bases militares em Chipre, acendendo o alerta em capitais europeias.
Do Índico ao Mediterrâneo, um tabuleiro em expansão
O episódio mais dramático ocorre na quarta-feira (4), quando um submarino americano torpedeia uma fragata iraniana nas proximidades do Sri Lanka, a poucas centenas de quilômetros da costa da Índia. Dezenas de marinheiros iranianos morrem, segundo fontes militares, no ataque mais grave a um navio de guerra iraniano por forças dos EUA desde 1945. A embarcação retornava de exercícios navais conjuntos com a Marinha indiana, o que expõe a delicada posição de Nova Délhi, que cultiva o chamado “multialinhamento” e tenta manter laços simultâneos com Washington, Teerã e Tel Aviv.
Horas depois, a guerra cruza outra fronteira sensível. A Turquia, membro da Otan, anuncia que um míssil balístico disparado do território iraniano é abatido por sistemas de defesa da aliança atlântica quando se dirige ao espaço aéreo turco. Ancara ainda não esclarece se o país era alvo deliberado, mas o chanceler Hakan Fidan telefona ao colega iraniano e adverte que “todas as medidas suscetíveis de provocar uma escalada no conflito deveriam ser evitadas”. Em Washington, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, apressa-se em descartar que o episódio acione o Artigo 5 da Otan, a cláusula de defesa mútua que poderia arrastar toda a aliança para a linha de frente.
Na manhã desta quinta-feira (5), a escalada dá mais um salto geográfico. Dois drones iranianos atingem o enclave de Nakhchivan, território azerbaijano encravado entre a Armênia, o Irã e a Turquia. Um deles acerta um aeroporto do enclave, aumentando a tensão em uma região já marcada por conflitos recentes. O governo de Baku promete que o ataque “não ficará sem resposta”, enquanto Israel, aliado próximo do Azerbaijão, nega qualquer envolvimento na operação. A incógnita sobre a autoria operacional e a cadeia de comando alimenta o clima de desconfiança na região do Cáucaso.
Chipre vira polo militar europeu e Líbano volta ao centro do mapa
No Mediterrâneo oriental, o Chipre, membro da União Europeia, transforma-se em peça-chave da resposta europeia. Drones de origem iraniana são direcionados a uma base britânica na ilha, que abriga instalações estratégicas do Reino Unido desde os anos 1960. Em reação, ao menos quatro países europeus – Reino Unido, Grécia, França e Espanha – reforçam nas últimas 48 horas sua presença militar na região, enviando navios de guerra, aeronaves de patrulha e contingentes adicionais. Um navio militar espanhol cruza o Mediterrâneo rumo ao entorno cipriota, sinal visível dessa mudança de postura.
No norte, o Líbano é arrastado de volta ao epicentro da crise. O Hezbollah, aliado histórico de Teerã, intensifica ataques contra Israel a partir do território libanês. Em resposta, forças israelenses cruzam a fronteira e iniciam operações terrestres, abrindo mais um teatro de guerra em uma fronteira já marcada por anos de tensão. Para o Soufan Center, think tank de segurança com sede em Nova York, a movimentação coordenada entre Irã e Hezbollah “sugere uma vontade de ampliar o campo de batalha e aumentar a pressão sobre Israel”. A descrição ecoa entre diplomatas ocidentais, que veem uma estratégia calculada de Teerã para tirar a guerra do eixo clássico Irã-Israel e espalhá-la por múltiplas frentes.
Especialistas em segurança descrevem esse movimento como “escalada horizontal”: em vez de apenas intensificar o poder de fogo, o Irã abre novas frentes geográficas e testa diferentes tipos de ação, do emprego de drones ao possível bloqueio de rotas marítimas vitais, como o Estreito de Ormuz. A “escalada vertical”, o aprofundamento do conflito por meio de armas mais letais ou de uso massivo, por ora permanece em segundo plano, mas não sai do horizonte de risco.
Risco de efeito dominó e impacto econômico global
A multiplicação de frentes tem um denominador comum: boa parte das iniciativas parte de Teerã. Fontes militares europeias veem lógica nessa aposta. “É curioso que o Irã esteja atacando vários alvos, visando possíveis aliados ou países potencialmente neutros. Talvez o cálculo seja adotar uma estratégia indireta para paralisar a economia mundial e elevar o custo da guerra para os Estados Unidos”, afirma um oficial europeu sob condição de anonimato. O raciocínio é simples: quanto mais instáveis forem as rotas de energia e comércio, maior a pressão política e financeira sobre Washington, Tel Aviv e seus parceiros.
Esse tipo de pressão tem endereço certo. Cerca de 20% do petróleo mundial passa hoje pelo Estreito de Ormuz, controlado em parte pelo Irã, e outro corredor vital, Bab al-Mandeb, entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden, concentra mais de 10% do comércio marítimo global. Uma interrupção prolongada nessas passagens pode disparar o preço do barril, derrubar cadeias de suprimentos e empurrar economias frágeis de volta à recessão. A simples perspectiva de novos ataques já provoca repique nos mercados de energia e frete, que monitoram minuto a minuto a situação no Golfo Pérsico e no Índico.
O avanço europeu em direção ao Chipre revela outro temor: o risco de efeito dominó por mecanismos de aliança. “Podem haver mecanismos de alianças que façam novos países entrarem na guerra por efeito dominó, um pouco como ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial”, alerta uma segunda fonte militar europeia. A presença da Otan em uma zona de conflito que se expande, somada ao envolvimento de atores não estatais como o Hezbollah, torna a crise menos previsível e aumenta a chance de erros de cálculo com consequências desproporcionais.
Entre os possíveis novos focos, o Iêmen aparece no radar. Os rebeldes houthis, próximos ao Irã, já demonstram em anos recentes capacidade de atingir navios comerciais e instalações de petróleo na região. Um engajamento mais direto do grupo, com ataques a embarcações no Estreito de Bab al-Mandeb ou a portos estratégicos do Mar Vermelho, poderia abrir outro flanco e estrangular ainda mais o comércio global. “Por enquanto não há expansão no setor, é algo que precisa ser monitorado”, avalia uma fonte militar europeia. Para Ibrahim Jalal, pesquisador do Stimson Center, “os próximos dias indicarão se os houthis permanecerão fiéis à sua ideologia ou se recolherão sobre si mesmos”.
Um conflito aberto, muitas perguntas em suspenso
Em menos de uma semana, a ofensiva lançada por Estados Unidos e Israel contra o Irã deixa de ser um confronto concentrado em bases militares e instalações nucleares iranianas e passa a redesenhar o mapa de segurança de pelo menos três regiões: Oriente Médio, Europa oriental e Oceano Índico. A entrada gradual de navios europeus no Mediterrâneo oriental, o teste dos sistemas de defesa da Otan na Turquia e o uso de drones em território azerbaijano indicam que o conflito se transforma em um quebra-cabeça multirregional, no qual cada reação pode abrir uma frente inesperada.
Diplomatas em Bruxelas, Washington e Teerã admitem em privado que o espaço para recuo se estreita a cada novo ataque fora do eixo original. A pressão interna sobre governos aumenta na mesma velocidade que sobem o risco geopolítico e a volatilidade econômica. Enquanto chancelerias buscam, em canais discretos, algum tipo de contenção, o campo de batalha segue se alargando, numa disputa em que ninguém parece disposto a ceder primeiro. As próximas semanas dirão se essa escalada horizontal será contida por negociações de bastidor ou se o mundo caminha para uma nova fase do conflito, mais cara, mais imprevisível e ainda mais difícil de administrar.
