Guarda Costeira de Cuba mata quatro em lancha dos EUA e tensão aumenta
Agentes da Guarda Costeira de Cuba matam quatro tripulantes e ferem seis em uma lancha com matrícula da Flórida nesta quarta-feira (25), perto de Cayo Falcones. O governo cubano afirma que frustra uma infiltração terrorista, enquanto Washington cobra esclarecimentos e evita endossar a versão de Havana.
Confronto em águas cubanas e versões em disputa
O choque ocorre na costa norte da ilha, a cerca de uma milha náutica do canal marítimo El Pino, na província de Villa Clara. A lancha, registrada na Flórida sob a matrícula FL7726SH, leva dez pessoas armadas quando é interceptada por uma embarcação da Guarda Costeira cubana.
Segundo o Ministério do Interior de Cuba (Minint), os agentes se aproximam para identificar o barco quando os tripulantes abrem fogo e ferem o comandante cubano. A troca de tiros termina com quatro mortos a bordo da lancha e seis feridos, que são socorridos e levados sob custódia para atendimento médico em território cubano.
Em nota oficial, o Minint afirma que todos os ocupantes são cubanos residentes nos Estados Unidos e que a embarcação “transportava 10 pessoas armadas, que, segundo declarações preliminares dos detidos, tinham a intenção de realizar uma infiltração com fins terroristas”. O ministério diz ainda que apreende fuzis, pistolas, explosivos caseiros como coquetéis molotov, coletes à prova de balas, miras telescópicas e uniformes de camuflagem.
A pasta identifica seis sobreviventes: Amijail Sánchez González, Leordan Enrique Cruz Gómez, Conrado Galindo Sariol, José Manuel Rodríguez Castelló, Cristian Ernesto Acosta Guevara e Roberto Azcorra Consuegra. Entre os mortos, apenas Michel Ortega Casanova é nomeado; os outros três seguem em processo de identificação, segundo o comunicado oficial. “As investigações continuam para o total esclarecimento dos fatos”, afirma o Minint.
O governo cubano trata o episódio como uma ação para proteger a soberania da ilha em meio a um clima de crescente hostilidade com Washington. “Diante dos desafios atuais, Cuba reafirma sua determinação em proteger suas águas territoriais” e a estabilidade regional, escreve a Presidência no X, antiga Twitter.
Tensões bilaterais e disputa política na Flórida
O tiroteio em alto-mar adiciona combustível a uma relação já tensa entre Cuba e Estados Unidos, marcada por sanções econômicas, crise de combustíveis na ilha e pressão política em ano eleitoral americano. Havana enfrenta dificuldades crescentes para garantir o abastecimento de energia, em parte devido a restrições impostas por Washington ao envio de petróleo venezuelano, vital para o funcionamento da economia cubana desde o início dos anos 2000.
Em um gesto visto como tentativa de calibrar essa pressão, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anuncia, no mesmo dia do incidente, que permitirá a exportação de petróleo venezuelano ao setor privado cubano para uso comercial e humanitário. O secretário de Estado, Marco Rubio, alerta que as sanções voltam a valer se o combustível acabar nas mãos do governo ou das Forças Armadas de Cuba, o que expõe a desconfiança estrutural entre os dois países.
Rubio, influente senador republicano pela Flórida e figura central na política americana para Cuba, confirma que Washington é informado do confronto por Havana. Ele diz a repórteres em São Cristóvão e Névis que o episódio é “extremamente incomum”. “Não se tratava de uma operação dos EUA” e a lancha “não carregava funcionários do governo americano”, afirma.
O secretário de Estado avisa que os Estados Unidos não vão basear suas conclusões “no que os cubanos nos disseram” e promete uma apuração própria. “Vamos descobrir exatamente o que aconteceu, quem esteve envolvido, e tomaremos uma decisão com base no que apurarmos”, diz. Segundo ele, a Guarda Costeira americana já se desloca para a região do ataque para coletar informações.
O incidente rapidamente entra no centro da disputa política na Flórida, Estado com forte presença de eleitores cubano-americanos e sensível a qualquer escalada envolvendo o regime de Havana. O congressista Carlos Gimenez, ex-prefeito de Miami, chama o episódio de “massacre” e promete exigir uma investigação ampla. O procurador-geral do Estado, James Uthmeier, afirma que orientará as autoridades locais a apurar o caso. “O governo cubano não é confiável e faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para responsabilizar esses comunistas”, declara.
No Senado, o republicano Rick Scott também pede uma “investigação completa desta situação profundamente preocupante”. Ele afirma que “o regime comunista cubano precisa ser responsabilizado” e pressiona o governo federal por uma postura mais dura. As reações expõem o risco de que o tiroteio em águas cubanas seja usado como mais um teste de força entre Havana e o establishment político da Flórida.
Segurança, soberania e o que está em jogo
A versão de Cuba, que fala em infiltração terrorista, sustenta o discurso histórico do governo de que a ilha enfrenta ameaças externas permanentes e precisa vigiar com rigor suas fronteiras marítimas. A presença de armas de guerra, explosivos improvisados, coletes e uniformes de camuflagem, segundo o próprio Minint, reforça essa narrativa e projeta a imagem de um plano organizado para ações violentas em solo cubano.
Do outro lado, autoridades americanas evitam validar de imediato a acusação de terrorismo e pedem acesso aos sobreviventes, que seriam residentes nos Estados Unidos. A disputa sobre quem controla a embarcação, quem financiou a operação e qual era o objetivo exato da viagem deve dominar as próximas etapas da investigação. O acesso a depoimentos independentes e a perícias técnicas será decisivo para definir se o confronto se encaixa em uma tentativa de ataque, em tráfico de armas ou em outra ação clandestina.
O episódio ocorre em um momento em que milhares de cubanos tentam deixar a ilha rumo aos Estados Unidos, por mar e por via terrestre, pressionados por inflação alta, desabastecimento e apagões frequentes. A morte de quatro pessoas em um confronto direto com agentes cubanos, somada à prisão de seis sobreviventes, tende a alimentar ainda mais a retórica de confronto entre o governo comunista e parte da diáspora radicada na Flórida.
Cuba sinaliza que não recuará na proteção de suas águas territoriais e repete que a defesa nacional é “pilar fundamental” do Estado. Nos Estados Unidos, congressistas e autoridades estaduais insistem em responsabilizar Havana, enquanto o governo federal mantém tom mais cauteloso e aguarda relatórios detalhados da Guarda Costeira e das agências de inteligência.
As próximas semanas devem ser marcadas por troca de notas diplomáticas, pedidos formais de esclarecimento e disputas por narrativa em Washington e Havana. A forma como os dois governos tratam os detidos, a divulgação de provas sobre o arsenal apreendido e a transparência das investigações vão indicar se o caso abre espaço para algum tipo de cooperação pontual em segurança ou se se converte em mais um ponto de ruptura em uma relação historicamente marcada por desconfiança.
