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Groenlândia traça linhas vermelhas a Trump e pede mais segurança no Ártico

O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, afirma nesta quarta-feira (28), em Paris, que há “linhas vermelhas” nas negociações com os Estados Unidos sobre o futuro da ilha. Sob pressão da Rússia no Ártico e da ofensiva política de Donald Trump, ele defende mais segurança na região sem abrir mão da soberania groenlandesa e dinamarquesa.

Paris vira palco da disputa pelo Ártico

O alerta de Nielsen ocorre após uma série de encontros com líderes europeus e americanos na capital francesa. Ao lado da primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, ele se reúne com o presidente Emmanuel Macron em meio à mais tensa crise transatlântica desde 2016, quando Trump assume a Casa Branca e começa a contestar antigos arranjos estratégicos no Norte do Atlântico.

Na prática, Groenlândia e Dinamarca chegam a Paris espremidas entre duas pressões. De um lado, a Rússia amplia a presença militar no Ártico, testa mísseis na região e intensifica sobrevoos próximos a rotas estratégicas. De outro, os Estados Unidos insistem em ampliar seu controle político e militar sobre a maior ilha do planeta, território dinamarquês há séculos e peça central nas rotas aéreas e marítimas do Hemisfério Norte.

“Estamos sob pressão, uma pressão séria. Estamos tentando nos defender do exterior. Estamos tentando lidar com nosso povo que está com medo, assustado”, diz Nielsen, em debate na Universidade Sciences Po ao lado de Frederiksen. O encontro acadêmico, a poucos quilômetros do Palácio do Eliseu, expõe o grau de ansiedade em Nuuk, capital groenlandesa, onde vivem pouco mais de 56 mil habitantes em uma área três vezes maior que a França.

Desde que Trump recoloca a ideia de controlar a Groenlândia no centro de sua diplomacia, a relação entre Washington e as capitais europeias entra em turbulência. Em 2019, o então presidente já cogita “comprar” a ilha, provocando reação indignada em Copenhague. Em 2025, as pressões ressurgem, agora com a proposta de um acordo de segurança ampliado e maior presença militar americana, em troca de investimentos bilionários em infraestrutura e defesa.

Linhas vermelhas, medo interno e cálculo de poder

As conversas entre Groenlândia, Dinamarca e Estados Unidos avançam em sigilo desde o fim de 2025. Em público, Nielsen evita detalhes, mas traça limites. “Temos algumas linhas vermelhas que não podem ser ultrapassadas”, afirma. Ele não explicita quais seriam esses pontos, mas interlocutores em Copenhague e Bruxelas citam três temas sensíveis: controle de bases militares, decisão sobre rotas aéreas estratégicas e eventual direito de consulta dos EUA sobre acordos com outros parceiros.

Enquanto os negociadores buscam um texto aceitável para todas as partes, o clima político dentro da Groenlândia se torna mais tenso. Partidos pró-independência acusam Copenhague de negociar sem transparência. Lideranças ligadas ao setor pesqueiro, responsável por mais de 90% das exportações locais, temem sanções ou retaliações se o país rejeitar abertamente exigências de Washington. A população, que já convive com temperaturas extremas e serviços públicos frágeis, assiste a um novo capítulo da disputa entre potências sobre seu território.

O pano de fundo é a mudança acelerada no Ártico. O derretimento de gelo abre, ano a ano, novas rotas marítimas e facilita o acesso a reservas de petróleo, gás e minerais críticos. Estudos citados por governos da região estimam que até 13% das reservas não descobertas de petróleo e 30% das de gás natural do mundo podem estar acima do Círculo Polar Ártico. Esse potencial leva Rússia, Estados Unidos, Canadá, Noruega e a própria Dinamarca a fortalecerem bases, radares e portos militares na área.

Nielsen reconhece essa realidade. “Precisamos ter mais vigilância e segurança em nossa região por causa da maneira como a Rússia age agora”, afirma. Moscou, desde 2022, dobra o número de exercícios militares no Ártico e reabre instalações da época soviética na costa norte. Para Copenhague, a proximidade dessa infraestrutura militar da Groenlândia eleva o risco de incidentes, sobretudo em caso de escalada da guerra na Ucrânia.

Racha transatlântico, unidade europeia e pressão sobre Trump

A ofensiva de Trump sobre a Groenlândia abala, de forma direta, a confiança entre Estados Unidos e aliados europeus. A ideia de ampliar o controle americano sobre a ilha, inclusive com menções públicas à possibilidade de “tomá-la à força” — depois descartada pelo próprio presidente — acelera o debate sobre autonomia estratégica na União Europeia. Em Bruxelas, diplomatas falam em um ponto de inflexão parecido com o de 2003, quando a invasão do Iraque divide o bloco.

Mette Frederiksen tenta usar a crise para aproximar capitais europeias em defesa de uma linha comum. “A maioria dos europeus está na mesma página”, afirma, ao comentar a reação às ameaças de tarifas adicionais contra produtos europeus, feitas por Trump nas últimas semanas. Segundo ela, o episódio da Groenlândia funciona como catalisador para que países da União Europeia, além de Reino Unido e Noruega, revejam a dependência quase automática da proteção militar americana.

Frederiksen, no entanto, evita um rompimento aberto com Washington. Ela insiste na necessidade de preservar a parceria histórica com os EUA em defesa, serviços de inteligência e economia. “Se permitirmos que a Rússia vença na Ucrânia, eles continuarão”, diz. “O melhor caminho para os Estados Unidos e a Europa é permanecerem unidos.” O recado mira tanto a ala isolacionista da política americana quanto governos europeus tentados a buscar acordos bilaterais com Moscou.

A combinação de pressão russa, assertividade americana e fragilidade institucional na Groenlândia produz um tabuleiro mais complexo. Países como França e Alemanha defendem um reforço da presença europeia no Ártico, inclusive com mais exercícios da Otan e investimentos em monitoramento por satélites e drones. Nos bastidores, diplomatas discutem a criação de um fundo específico para infraestrutura na região, com horizonte de dez anos e cifras que podem superar € 10 bilhões.

Destino da Groenlândia testa futuro da ordem global

O desfecho das conversas em Paris pode definir o rumo das negociações nos próximos meses. A expectativa é de que, até o fim do primeiro semestre de 2026, Groenlândia, Dinamarca e Estados Unidos apresentem um documento conjunto sobre defesa e cooperação econômica. Qualquer acerto, porém, terá de ser aprovado pelos Parlamentos em Nuuk e Copenhague, sob forte escrutínio público.

A tensão atual tende a acelerar debates internos na Groenlândia sobre independência plena, hoje vista por parte da elite local como objetivo possível em uma década. Um acordo que pareça ceder demais a Washington poderia alimentar essa agenda. Por outro lado, um rompimento abrupto com os EUA deixaria a ilha mais exposta à pressão russa e a interesses de outras potências, como a China, que acompanha de perto cada movimento no Ártico.

Em Paris, a mensagem combinada de Nielsen e Frederiksen busca equilibrar medo e afirmação política. Eles rejeitam a ideia de que a Groenlândia se torne moeda de troca, mas reconhecem a necessidade de reforçar radares, portos, pistas de pouso e presença naval. O desafio é fazer isso sem entregar o comando da região a uma única potência, em um momento em que a guerra na Ucrânia, as ameaças energéticas e as disputas comerciais reconfiguram a ordem mundial.

Ao deixar a Sciences Po, na noite desta quarta-feira, Jens-Frederik Nielsen volta a repetir, em tom firme, que “existem linhas vermelhas”. A frase ecoa além de Paris. Nos próximos meses, o mundo deve descobrir se essas linhas bastam para conter o avanço simultâneo de Washington e Moscou sobre o gelo cada vez mais fino do Ártico.

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