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Greve de professores paralisa aulas e pressiona governo de SP

Professores da rede estadual de São Paulo paralisam as aulas nesta quinta (9) e sexta (10) em todo o estado, incluindo Franca, para pressionar o governo por reajuste salarial e mudanças na política educacional. A categoria se reúne em assembleia no Masp, na capital, nesta sexta, às 16h, para decidir se a greve continua.

Pressão sobre o governo e salas de aula vazias

A mobilização atinge milhares de estudantes e famílias, que encontram portões fechados ou atendimento parcial em escolas de Franca e de diversas regiões do estado. A Apeoesp, sindicato que representa os docentes, orienta que os alunos não compareçam às unidades durante a paralisação, em um recado direto ao Palácio dos Bandeirantes.

O movimento tenta expor uma insatisfação acumulada. Professores afirmam que os salários já não acompanham o custo de vida e que as condições de trabalho se deterioram. A entidade fala em “autoritarismo” na condução da política educacional e critica o modelo de avaliação de desempenho, descrito como “injusto e punitivo”.

A greve foi convocada para os dias 9 e 10 de abril, com adesão em todo o estado. Em Franca, escolas de bairros centrais e periféricos registram paralisação ampla, segundo relatos de professores e de pais de alunos. Muitos estudantes voltam para casa no início da manhã, após confirmação de falta de professores suficientes para manter as aulas.

A deputada estadual e dirigente sindical Professora Bebel (PT), uma das principais vozes do movimento, reforça o chamado. Em comunicado, ela pede que “os docentes cruzem os braços e lotem a assembleia do dia 10”, que deve definir se a categoria entra em uma greve prolongada ou retoma as atividades na próxima semana.

Defasagem salarial e disputa por prioridade no orçamento

O coração da pauta é o salário. A Apeoesp aponta uma perda real expressiva ao comparar o piso da categoria com o salário mínimo ao longo de 20 anos. Em 2006, quando o mínimo era de R$ 300, um professor em início de carreira recebia R$ 1.500, o equivalente a cinco salários mínimos. Hoje, com o mínimo em R$ 1.582, o piso aproximado está em R$ 5.500, cerca de 3,4 salários mínimos.

Se a proporção de 2006 fosse mantida, argumenta o sindicato, o salário base deveria chegar a R$ 7.910. A diferença de R$ 2.410 por mês ilustra a sensação de perda. A entidade cobra um reajuste linear nos mesmos moldes concedidos às forças de segurança, o que, na avaliação dos professores, revelaria qual é a prioridade do governo dentro do orçamento estadual.

Os docentes também reivindicam o pagamento de retroativos do período da pandemia de Covid-19, quando benefícios foram congelados, e a efetiva aplicação do tempo de serviço descongelado, o que impacta progressões na carreira. A pauta inclui ainda a revisão da jornada de trabalho para se adequar ao piso nacional do magistério, com mais tempo para planejamento pedagógico e menos sobrecarga em sala de aula.

Outro eixo é estrutural. A categoria cobra garantia de professores em todas as turmas, inclusive em áreas específicas e no período noturno, além de melhorias na educação inclusiva para estudantes com deficiência ou necessidades específicas. Em muitas escolas, faltam profissionais de apoio, intérpretes e estrutura mínima para acolher esses alunos.

A discussão passa também pela reforma administrativa na educação, apontada por sindicatos como um risco de precarização de vínculos e ampliação de contratos temporários. Professores aposentados e pensionistas reclamam de descontos considerados indevidos e pedem a devolução imediata dos valores.

Impacto nas escolas e na comunidade

A paralisação mexe com a rotina de famílias que dependem da escola pública não apenas para o ensino, mas para alimentação e segurança das crianças. Em bairros de Franca, pais relatam dificuldade para reorganizar o dia de trabalho, sem ter com quem deixar os filhos. Em outras cidades, diretores improvisam plantões administrativos, mas não conseguem manter aulas regulares.

Professores argumentam que o prejuízo imediato aos estudantes precisa ser confrontado com um desgaste mais silencioso, acumulado ao longo de anos. A ausência de docentes estáveis em algumas disciplinas, a alta rotatividade e a falta de suporte para lidar com casos de violência e saúde mental são citadas como sintomas de uma rede sob pressão. A demanda por mais segurança dentro e no entorno das escolas faz parte do pacote de reivindicações.

No centro da disputa está o modelo de educação desejado para o estado. Ao cobrar valorização profissional, os docentes tentam vincular salário, carreira e qualidade de ensino. A Apeoesp sustenta que um professor com remuneração compatível, jornada equilibrada e formação contínua tende a permanecer na rede e criar vínculos com a comunidade, o que melhora indicadores de aprendizagem.

O governo estadual ainda não apresenta, até o momento, uma proposta ampla que contemple os principais pontos da pauta. Sem resposta clara, a greve ganha potencial para se prolongar e atingir períodos de avaliação escolar, o que pode pressionar ainda mais a gestão a negociar.

Assembleia no Masp define rumo da greve

A assembleia estadual desta sexta-feira, às 16h, em frente ao Masp, na avenida Paulista, se torna o palco central do conflito. Delegações de diversas regiões, inclusive de Franca, se organizam em caravanas para participar. A expectativa é de que o encontro avalie o nível de adesão à paralisação e a disposição da categoria para enfrentar uma greve por tempo indeterminado.

O desfecho imediato depende da sinalização do governo nas próximas horas. Um gesto concreto em relação ao reajuste e aos retroativos poderia levar a uma suspensão temporária do movimento, com manutenção do estado de greve. Caso contrário, a paralisação tende a se aprofundar e a ganhar novos aliados entre outras categorias do serviço público.

O impasse coloca a educação paulista diante de uma encruzilhada. Se a greve se estender, o ano letivo pode precisar de readequações, com reposição de aulas, revisão de calendários e pressão adicional sobre professores e estudantes. Se houver acordo, a discussão sobre carreira e financiamento da educação continuará no centro da agenda, alimentada pela pergunta que ecoa nos corredores das escolas: quanto vale, na prática, o trabalho de quem está na sala de aula?

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