Greve de garis deixa 70% do lixo sem coleta em BH pelo 3º dia
A greve dos garis terceirizados da Sistemma Serviços Urbanos chega ao terceiro dia seguido nesta quarta-feira (21/1/2026) em Belo Horizonte. A paralisação atinge as regionais Leste, Noroeste e Nordeste e deixa cerca de 70% do lixo domiciliar sem coleta nas áreas atendidas pela empresa.
Cidade convive com montanhas de lixo e risco sanitário
As pilhas de sacos se acumulam nas calçadas, avançam sobre o asfalto e já mudam a rotina de bairros inteiros. No cruzamento das ruas Teófilo Otoni e Prados, no Centro, o lixo cobre parte da esquina e exala mau cheiro constante. No bairro Caiçara, na região Noroeste, moradores relatam aumento de insetos e medo de doenças.
A paralisação começa na segunda-feira, 19 de janeiro, e rapidamente expõe a dependência da capital dos serviços terceirizados. Só no primeiro dia, a Prefeitura de Belo Horizonte estima que 602,75 toneladas de resíduos deixam de ser recolhidas nas três regionais afetadas. As cenas se repetem em diferentes bairros, com contêineres lotados, calçadas tomadas e comerciantes tentando improvisar soluções para não afastar clientes.
A Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) monta um plano de contingência na manhã de terça-feira (20/1) para reduzir o impacto da greve. A autarquia desloca 350 garis e 50 caminhões, sendo 41 basculantes e nove compactadores, vindos de outros contratos de limpeza urbana e de sua própria estrutura. O reforço, porém, só dá conta de 30% do volume normalmente coletado, segundo a prefeitura.
As equipes emergenciais priorizam vias com risco de alagamento e corredores de maior circulação nas regionais atingidas. A estratégia tenta evitar que o lixo acumulado obstrua bocas de lobo em caso de chuva forte. A SLU afirma que acompanha as negociações entre trabalhadores e empresa e que está “adimplente com todas as suas obrigações contratuais”, além de adotar medidas para manter o serviço essencial.
Reivindicações expõem disputa por condições dignas
Os garis da Sistemma suspendem a coleta domiciliar para pressionar a empresa por melhores condições de trabalho. Eles cobram a contratação de mais coletores e motoristas, aumento da frota de caminhões e manutenção dos veículos que circulam em situação precária. Reclamam também do atraso de cinco meses no depósito do FGTS e da ausência de plano de saúde, benefício que, segundo os trabalhadores, não é oferecido há 12 anos.
As queixas tocam em duas frentes sensíveis: a segurança de quem trabalha pendurado nos caminhões e a proteção social de uma categoria exposta diariamente a lixo doméstico, entulho e materiais cortantes. Sem assistência médica garantida e com recolhimento irregular de FGTS, os garis dizem sentir na prática o custo da terceirização em um serviço que a cidade considera essencial.
A paralisação reacende o debate sobre a dependência do poder público de empresas contratadas para funções estratégicas. Na prática, o impasse entre a Sistemma e seus funcionários atinge diretamente moradores que convivem com o lixo parado na porta de casa. Famílias mudam horários de descarte para tentar reduzir o mau cheiro, comerciantes reforçam a limpeza interna e síndicos orientam condôminos a segurar o lixo orgânico o máximo possível.
O impacto vai além do desconforto visual. Especialistas em saúde pública alertam que o acúmulo de resíduos por vários dias favorece a proliferação de moscas, baratas e ratos, vetores de doenças como diarreias, leptospirose e viroses respiratórias. Em períodos de chuva, o lixo espalhado nas ruas entope bueiros e aumenta o risco de alagamentos súbitos, sobretudo nas regiões Leste e Noroeste, que já registram historicamente pontos de inundação.
Pressão sobre prefeitura cresce a cada dia de paralisação
A administração municipal tenta se equilibrar entre a promessa de manter o serviço essencial e o limite dos contratos com a iniciativa privada. A PBH reforça que cumpre os pagamentos à Sistemma e procura uma solução rápida para o conflito trabalhista. A prefeitura, porém, evita se colocar diretamente na mesa de negociação, argumento comum em contratos de terceirização.
Moradores e comerciantes pouco se importam com a engenharia jurídica do contrato. O que pesa, no dia a dia, é o resíduo que se acumula em sacos rasgados na calçada, a dificuldade para circular em ruas estreitas e o medo de surto de doenças em bairros mais vulneráveis. A cada caminhão que deixa de passar, a pressão política sobre o Executivo municipal aumenta.
Se a greve se prolonga por mais dias, a capital pode enfrentar um quadro típico de crise de limpeza urbana, com danos ambientais e sanitários mais difíceis de reverter. A gestão municipal terá de decidir até onde consegue ampliar o plano de contingência e qual será seu papel nas conversas entre empresa e trabalhadores. A paralisação dos garis mostra, de maneira concreta, que a qualidade do serviço público começa nas condições de trabalho de quem recolhe, todos os dias, o lixo que a cidade prefere não ver.
