Gravidez em meio a apagões: o cotidiano extremo de mães em Cuba
Duas gestantes em Havana tentam levar a gravidez adiante em meio a apagões diários, escassez de alimentos e remédios e um bloqueio quase total de combustível. Em 2026, a crise econômica cubana atravessa o cotidiano de cerca de 32,8 mil mulheres grávidas e coloca em risco mães e bebês.
Gestar na escuridão
Mauren Echevarría Peña, 26, espera o primeiro filho em uma ala especializada da maternidade Ramón González Coro, na capital cubana. Está internada há semanas, em repouso, por causa de uma gravidez complicada e de um país que não consegue manter as luzes acesas por um dia inteiro.
“Fui diagnosticada com diabetes gestacional e hipertensão crônica”, conta, sentada na cama do hospital, com o parto programado para o fim do mês. A cada novo apagão, cresce o medo de entrar em trabalho de parto com a sala operando à base de lanternas de celular e geradores com combustível contado em litros.
No fim de semana de 21 e 22 de março, o sistema elétrico nacional volta a entrar em colapso e deixa bairros inteiros no escuro por horas seguidas. Os hospitais acionam geradores, mas o próprio governo admite que o combustível é insuficiente para garantir estabilidade. O risco de uma falha durante uma cesárea ou um parto de emergência é hoje parte do cálculo diário de médicos e pacientes.
A BBC acompanha uma das manhãs de Mauren quando uma coalizão internacional de movimentos de solidariedade chega ao hospital com caixas de doações. São remédios, insulina, leite em pó. “Eles fizeram todo o possível por mim no hospital”, diz ela. “Deram os remédios e a insulina necessária para a saúde do meu bebê e da placenta.”
Mauren tenta se agarrar à resiliência que aprendeu a cultivar na ilha desde criança. “Meu país sempre vai encontrar uma forma de seguir adiante”, afirma, antes de admitir o temor que não consegue esconder. O que a assusta não é apenas o parto em si, mas a sensação de que, do lado de fora dos muros do hospital, a vida diária oferece pouco abrigo.
A cozinha vazia e o futuro em suspenso
Longe dos corredores brancos da maternidade, em um subúrbio de Havana, Indira Martínez, grávida de sete meses, tenta preparar o café da manhã. Falha de novo. Não há eletricidade desde a tarde anterior, a geladeira está vazia e o forno elétrico virou peça decorativa em uma sala que se acostuma à penumbra.
A única saída é um pequeno forno a lenha improvisado pelo marido, ferreiro, no quintal. O fogo consome tábuas velhas, o tempo consome a paciência. “Você precisa se levantar de madrugada, quando a energia volta, para cozinhar o que tiver”, explica. “E, muitas vezes, isso não tem as vitaminas e proteínas de que preciso e certamente não mata minha fome maior por causa da gravidez.”
Indira mantém o sorriso, mas o corpo entrega os limites. Ela contrai chikungunya no primeiro trimestre, durante uma epidemia que atinge vários bairros da capital. Desde então, sente fraqueza, mal consegue caminhar até o banheiro. Os médicos dizem que a bebê vai bem. Ela mesma não tem a mesma certeza sobre o país que espera a filha.
Antes de engravidar, Indira trabalhava como cabeleireira. Larga o salão para evitar a exposição diária aos produtos químicos. Hoje, depende dos ganhos modestos do marido na ferraria. A mãe, enfermeira aposentada, acompanha preocupada a queda de peso da filha e os sinais de estresse que se acumulam a cada novo dia de desabastecimento.
“Não vi nada da ajuda humanitária enviada para Cuba”, diz, ao comentar o envio de toneladas de leite em pó e mantimentos pelo México, que decide despachar alimentos em vez de petróleo. “Meu marido e eu sabíamos muito bem o que estávamos fazendo quando decidimos ter um bebê em meio a esta situação. Sabíamos que não poderíamos contar com a ajuda do governo. Somos nós contra o mundo.”
O bloqueio quase total de combustível imposto pelos Estados Unidos três meses antes atinge em cheio a rotina de famílias como a dela. Depois da saída forçada de Nicolás Maduro do poder na Venezuela, em 3 de janeiro, Washington segura praticamente todos os navios petroleiros rumo a Cuba e ameaça parceiros regionais com tarifas de importação. Em uma economia já enfraquecida, a ilha perde sua principal válvula de escape energética.
Crise demográfica em um país que envelhece
A soma de apagões prolongados, falta de remédios e comida escassa coloca pressão inédita sobre o sistema de saúde cubano. O país conta hoje cerca de 32,8 mil grávidas e tenta preservar um dos indicadores que por décadas foram motivo de orgulho oficial: a baixa mortalidade materna e infantil em comparação com vizinhos latino-americanos.
Especialistas alertam que a combinação de má nutrição, doenças infecciosas e estresse constante aumenta o risco de complicações no parto, baixo peso ao nascer e problemas de desenvolvimento nos primeiros anos de vida. Em um cenário de hospitais com geradores à beira do racionamento, cada cirurgia obstétrica passa a disputar diesel com ambulâncias e unidades de terapia intensiva.
A crise também se mistura a uma tendência demográfica mais longa. Cuba envelhece rápido, tem uma das menores taxas de natalidade da região e vê jovens qualificados partir em números crescentes. Mesmo antes do bloqueio de combustível, muitos adiam ou abandonam o plano de ter filhos no país. O bebê de Mauren e a filha de Indira, Ainoa, que deve nascer em cerca de dois meses, chegam a um dos momentos mais difíceis da história recente da ilha.
Por muito tempo, a educação gratuita e universal funciona como vitrine da revolução. Hoje, Indira descreve escolas sucateadas, professores que abandonam a carreira por salários baixos e adolescentes que largam os estudos para completar a renda familiar. “Como mãe, quero oferecer uma vida plena à minha filha”, diz. “Mas não tenho motivos para dizer que ela tem um futuro promissor pela frente ou que pode desenvolver ao máximo seu potencial intelectual.”
Ela faz uma pausa antes de concluir, em tom resignado: “Se dissesse isso, estaria mentindo. Ela não terá nenhuma oportunidade de crescimento aqui, nenhuma.” A frase ecoa em um país que precisa de mais nascimentos para sustentar a própria estrutura social, mas oferece cada vez menos garantias a quem decide ter filhos.
Solidariedade, incerteza e o que vem depois
Nos corredores da maternidade em Havana, caixas de doações internacionais empilhadas ao lado de macas revelam uma rede de solidariedade que tenta cobrir os buracos deixados pelo Estado e pelo bloqueio. Movimentos estrangeiros arrecadam insumos básicos, de seringas a fórmulas infantis, enquanto o governo negocia carregamentos de combustível em condições cada vez mais adversas.
A ajuda, porém, chega de forma desigual. Famílias como a de Indira afirmam nunca ter recebido um pacote sequer. A discrepância alimenta desconfiança sobre distribuição interna, critérios de prioridade e transparência. Ao mesmo tempo, organizações internacionais de direitos humanos cobram mecanismos para garantir que futuras remessas humanitárias cheguem diretamente aos grupos mais vulneráveis, entre eles gestantes e recém-nascidos.
A médio prazo, economistas preveem um quadro delicado: se a combinação de bloqueio, crise interna e emigração persistir, Cuba corre o risco de ver cair ainda mais o número de nascimentos, ao mesmo tempo em que aumenta a dependência de remessas de cubanos no exterior. O impacto sobre a força de trabalho, o financiamento da saúde pública e a previdência pode se estender por décadas.
Enquanto governos trocam acusações e negociam navios-tanque, a contagem de dias é outra para Mauren e Indira. Elas não fazem projeções macroeconômicas, calculam apenas quantas horas de eletricidade terão até a próxima contração. Em silêncio, tentam responder à pergunta que atravessa corredores de hospitais e casas sem luz: que futuro um país exausto consegue oferecer a quem está prestes a nascer?
