Governo Trump recua e inicia retirada do ICE de Minnesota
O governo Donald Trump começa a retirar gradualmente agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) de Minnesota após duas mortes em operações federais em Minneapolis. O anúncio é feito nesta quinta-feira (12) pelo chefe do órgão no estado, Tom Homan, em meio a protestos de moradores e pressão de autoridades locais.
Operação sob pressão após duas mortes em janeiro
A decisão encerra o período mais tenso da chamada Operação Metro Surge, reforço federal que transforma Minneapolis no principal palco da política migratória de Trump neste início de ano. Em menos de um mês, uma mulher e um homem, ambos de 37 anos, morrem baleados em ações do ICE na cidade, em janeiro de 2026. As mortes acendem um rastro de indignação em bairros residenciais, levam centenas de pessoas às ruas e colocam autoridades locais em rota de colisão com Washington.
No dia 7 de janeiro, uma mulher de 37 anos é baleada dentro de um veículo durante uma operação federal. Pouco mais de duas semanas depois, em 24 de janeiro, um homem da mesma idade é atingido por disparos no sul da cidade e não resiste. O Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) sustenta que a ação mira um imigrante em situação irregular com antecedentes criminais. Familiares, porém, afirmam que a vítima é Alex Pretti, enfermeiro nascido em Illinois, e contestam a versão oficial.
As duas mortes alimentam protestos diários diante de prédios públicos e delegacias federais. Cartazes pedem o fim da operação e investigam a conduta dos agentes. Vereadores, deputados estaduais e lideranças comunitárias passam a exigir que o reforço federal deixe o estado e cobram transparência sobre os protocolos usados nas abordagens que terminaram em morte.
Recuo parcial e disputa de narrativas
Tom Homan anuncia que parte das equipes já começa a deixar Minnesota e que o restante será realocado nos próximos dias. Um grupo reduzido permanece temporariamente para concluir investigações em andamento, acompanhar a transição e apoiar a Promotoria Federal em eventuais denúncias. Equipes de resposta rápida seguem de prontidão, caso ocorram novos confrontos ligados às manifestações.
Ao defender o balanço da Operação Metro Surge, Homan afirma que mais de 4 mil pessoas são presas no estado desde o início das ações intensificadas. Segundo ele, Minnesota está “mais seguro” após a presença ampliada de forças de imigração. “Se você está no país ilegalmente, não está isento das leis de imigração. Se o encontrarmos, tomaremos as medidas cabíveis”, declara.
O chefe do ICE em Minnesota tenta responder às denúncias que circulam entre moradores e ativistas. Ele afirma que agentes não realizaram prisões dentro de hospitais, escolas primárias ou igrejas durante a operação. “Essas histórias simplesmente não aconteceram”, diz, em referência a relatos de detenções em locais considerados de proteção especial por parte das comunidades.
As manifestações, que ganham força após as mortes de janeiro, também são alvo da coletiva. Homan diz haver queda nas ocorrências de confronto direto com agentes federais nas últimas semanas, mas faz um alerta em tom de endurecimento. “Agredir, resistir, intimidar ou interferir com um agente federal é crime, em violação da USC 111. Não é aceitável. Não será tolerado”, afirma. Segundo ele, mais de 200 pessoas são presas sob esse tipo de acusação, e parte dos casos já chega ao Ministério Público com denúncia formal.
Impacto local e sinal para outras cidades
A retirada gradual de parte do efetivo marca um raro recuo visível em uma política de deportações que o próprio presidente define como prioridade absoluta. Trump, até agora, evita comentar diretamente a desmobilização em Minnesota, mas mantém o discurso nacional de linha dura. “O presidente Trump prometeu deportações em massa, e é isso que este país vai ter”, reforça Homan, ao ser questionado sobre eventuais mudanças de rumo.
A combinação de mais de 4 mil prisões, duas mortes em menos de trinta dias e cerca de 200 detenções ligadas a confrontos projeta Minnesota para o centro do debate nacional sobre imigração. Para defensores da operação, o saldo comprova que o reforço federal remove do convívio pessoas consideradas ameaça à segurança pública e intimida redes de crime organizado. Para críticos, o mesmo balanço expõe o custo humano de uma política que, na prática, amplia o risco para moradores, inclusive cidadãos americanos, durante abordagens armadas.
Comunidades de imigrantes relatam medo renovado em tarefas cotidianas, como ir ao trabalho, levar filhos à escola ou buscar atendimento médico. Organizações de direitos civis veem na decisão de retirar parte dos agentes um reconhecimento tácito de que a presença maciça do ICE em Minnesota se torna politicamente insustentável após as mortes. Prefeitos e parlamentares estaduais avaliam que o recuo pode servir de modelo para outras cidades que convivem com operações federais ampliadas e forte contestação local.
O que permanece em aberto
Mesmo com a redução do efetivo, a aplicação das leis migratórias segue em todo o país, com prioridade declarada para pessoas classificadas como ameaça à segurança pública. Homan enfatiza, porém, que a priorização não exclui outros alvos. A mensagem é direta: ninguém em situação irregular está automaticamente fora do alcance das operações, em Minnesota ou em outros estados.
As duas mortes de janeiro ainda aguardam esclarecimento completo. Famílias, entidades e autoridades locais cobram investigações independentes, divulgação de imagens de câmeras corporais e revisão dos protocolos de uso da força. A forma como o governo Trump reage a essas cobranças, em paralelo à promessa de “deportações em massa”, deve indicar se a retirada em Minnesota é um ponto fora da curva ou o primeiro sinal de que o custo político das operações começa a superar seus ganhos declarados em segurança pública.
