Governo Lula reage a plano dos EUA de rotular PCC e CV como terroristas
O governo Lula reage, em março de 2026, à possibilidade de os Estados Unidos classificarem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. O Palácio do Planalto aciona a diplomacia para tentar barrar a iniciativa da gestão Donald Trump, que pode abrir caminho para sanções mais duras e ações de segurança com envolvimento direto de Washington na América Latina.
Itamaraty entra em campo para conter avanço em Washington
A ofensiva brasileira ganha forma no domingo 8, em uma ligação entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. O telefonema, confirmado por auxiliares da chancelaria, tem um objetivo claro: evitar que o PCC e o Comando Vermelho entrem na lista oficial de organizações terroristas estrangeiras de Washington, que hoje reúne pouco mais de 70 grupos, a maioria com atuação política declarada.
No Itamaraty, a avaliação é que a iniciativa da Casa Branca rompe uma linha tradicional do direito internacional e da cooperação contra o crime. O Brasil reconhece o poder e a violência das facções, mas insiste que se trata de organizações criminosas comuns, voltadas ao lucro, sem programa político ou ideológico. A classificação como terroristas, argumenta o governo, não corresponde ao conceito jurídico que guia tratados firmados nas últimas três décadas.
Diplomatas que acompanham o tema afirmam, em reservado, que o risco não é apenas simbólico. A designação abre espaço para um pacote mais amplo de sanções econômicas e financeiras. Bancos, empresas e indivíduos que mantenham qualquer vínculo com suspeitos vinculados às facções poderiam ser alvo de bloqueio de ativos, multas e restrições de operação em solo americano.
A escalada preocupa ainda mais porque não se restringe ao Brasil. A gestão Trump vem testando, desde o fim de 2025, o uso da etiqueta de terrorismo contra cartéis e grupos criminosos da América Latina. Em documentos internos, o Departamento de Estado passa a tratar o conceito de “narcoterrorismo” como ferramenta de política externa, não apenas de segurança interna.
Por que o rótulo de terrorismo muda o jogo
Ao enquadrar o PCC e o Comando Vermelho como terroristas, os EUA ampliam o leque de instrumentos que podem ser acionados fora de seu território. Leis aprovadas após os atentados de 11 de Setembro de 2001 autorizam, em certas circunstâncias, operações militares, uso de forças especiais, cooperação de inteligência mais agressiva e ações unilaterais de perseguição a suspeitos no exterior.
É essa fronteira que o governo Lula tenta proteger. Assessores presidenciais falam em risco de “militarização” da agenda antidrogas na região, com impacto direto sobre países como Brasil, Colômbia, Peru, Bolívia e Paraguai. A preocupação é que a retórica do combate ao terrorismo sirva de justificativa para operações de segurança conduzidas ou lideradas por Washington, à revelia de decisões dos governos locais.
O debate resgata um conceito que ganha força nos anos 1980, o de narcoterrorismo. Na época, o termo descreve casos em que grupos armados com objetivo político usam o tráfico de drogas ou táticas de terror — como carros-bomba e sequestros em série — para pressionar o Estado. Foi a lógica aplicada à relação entre guerrilhas e a produção de coca no Peru e na Colômbia, e à campanha de atentados comandada por Pablo Escobar em Medellín.
No caso brasileiro, especialistas e o próprio governo sustentam que o cenário é distinto. PCC e Comando Vermelho se estruturam como redes de negócios ilegais, com faturamento bilionário, ramificações em pelo menos 20 estados e presença em países vizinhos. Cuidam de rotas de cocaína, armas e contrabando, mas não disputam eleições, não lançam manifestos políticos e não anunciam metas ideológicas para o Estado.
“Terrorismo, no direito internacional, envolve o uso sistemático da violência com motivação política ou ideológica clara”, resume um professor de relações internacionais ouvido pela reportagem. “É diferente de crime organizado cuja finalidade é lucro. Misturar essas categorias pode gerar confusão jurídica e abrir precedentes perigosos.”
Disputa jurídica, soberania e a agenda Lula-Trump
No Planalto, a leitura é que o rótulo de terrorismo desloca o debate das facções do campo policial para o tabuleiro da segurança internacional. Isso afeta não apenas o Brasil, mas toda a arquitetura de cooperação em torno do combate ao narcotráfico. A partir do momento em que um grupo é classificado como terrorista por Washington, parceiros são pressionados a alinhar legislações, compartilhar dados e até admitir operações conjuntas sob a bandeira antiterror.
O governo teme que a mudança sirva, na prática, para condicionar acordos bilaterais de segurança. Tratados de troca de informações, programas de treinamento e venda de equipamentos militares, estimados em dezenas de milhões de dólares por ano, podem passar a depender do grau de adesão dos países latino-americanos ao enquadramento desejado pelos EUA.
A reação brasileira também tem um componente político. Lula tenta reconstruir a imagem externa do país após anos de tensão diplomática com Washington e, ao mesmo tempo, preservar margem de manobra na região. A resistência ao rótulo de terrorismo sinaliza a outros governos sul-americanos que o Brasil não aceita impor, de fora, uma agenda de segurança que afete diretamente sua soberania.
A discussão deve ganhar peso nas próximas semanas. A Casa Branca e o Itamaraty negociam uma reunião entre Lula e Trump na Casa Branca ainda em março. O tema das facções deve ocupar espaço central na conversa, ao lado de comércio, meio ambiente e investimentos em energia. Nos bastidores, diplomatas brasileiros calculam que uma decisão formal de Washington sobre o PCC e o Comando Vermelho pode sair em questão de semanas, não de meses.
Até lá, a estratégia do governo é combinar pressão discreta e discurso público moderado. A chancelaria prepara argumentos técnicos para fóruns multilaterais, como a ONU e a Organização dos Estados Americanos, em defesa de uma distinção clara entre terrorismo e crime organizado. O desfecho do embate vai indicar até que ponto os EUA pretendem estender a lógica da “guerra ao terror” ao coração da política de drogas na América Latina — e quanto espaço resta para que países como o Brasil definam, por conta própria, como enfrentar suas facções criminosas.
