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Governo Delcy Rodríguez anuncia quatro mudanças após captura de Maduro

O governo de Delcy Rodríguez anuncia nesta semana quatro mudanças estruturais na Venezuela, as primeiras após a captura de Nicolás Maduro em 2026. As decisões, comunicadas em cadeia nacional e antecipadas em parte por autoridades dos Estados Unidos, marcam a tentativa de inaugurar uma nova fase política em meio à crise prolongada do país.

Nova correlação de forças em Caracas

Delcy Rodríguez ocupa o vácuo deixado por Maduro com uma agenda que combina gesto de ruptura e reafirmação de poder. O pacote de decisões redesenha o eixo internacional de alianças, altera o controle interno sobre instituições estratégicas, mexe com regras da economia e redefine o discurso oficial sobre a transição política. A tomada de posição ocorre menos de três meses após a operação que levou à captura de Maduro, em março de 2026, e tenta transformar um episódio traumático em ponto de virada.

Em pronunciamento de pouco mais de 25 minutos, transmitido em rede nacional de rádio e TV, Rodríguez fala em “reconstrução institucional” e “soberania negociada”, expressão que indica abertura limitada a acordos externos. Autoridades americanas já vinham sinalizando parte do roteiro desde o fim de abril, quando o Departamento de Estado mencionou “ajustes de alinhamento” em Caracas. A antecipação irrita setores do novo governo, mas revela a disputa pela narrativa sobre quem conduz, de fato, a guinada venezuelana.

As mudanças ganham peso porque acontecem depois de quase dez anos em que o país se move em rota de isolamento, hiperinflação e colapso de serviços básicos. Entre 2016 e 2025, a economia encolhe mais de 70%, segundo estimativas de organismos multilaterais, e mais de 7 milhões de venezuelanos deixam o país. O governo de Rodríguez tenta se apresentar como administrador de uma “segunda fundação” da República após a era Maduro, sem romper completamente com o chavismo que ainda ocupa cargos-chave no Estado.

Quatro frentes de mudança e impacto direto na população

O primeiro movimento é político e externo. A nova administração comunica a suspensão gradual, em um prazo de 180 dias, de parte dos acordos militares firmados com Rússia e Irã entre 2018 e 2024, especialmente os que envolvem presença permanente de consultores estrangeiros em bases estratégicas. Em paralelo, Rodríguez autoriza a retomada formal de negociações com os Estados Unidos e a União Europeia sobre alívio de sanções econômicas, condicionando o avanço a garantias de investimento em infraestrutura energética. O recado é que a Venezuela busca novos termos de inserção internacional, sem abdicar da retórica de independência.

O segundo eixo é o controle interno. O governo anuncia a reestruturação completa do serviço de inteligência, com a fusão de órgãos criados na gestão Maduro e a promessa de revisão, em até 90 dias, de pelo menos 1.200 processos abertos por motivos políticos, número citado por entidades de direitos humanos locais. Assessores de Rodríguez falam em “correção de excessos” e em criação de uma comissão mista, com participação limitada de observadores internacionais. Críticos veem continuidade da lógica de vigilância, apenas com novos comandos e novos alvos.

No campo econômico, a mudança mira a sobrevivência diária da população. O Palácio de Miraflores confirma um novo regime de concessões para exploração de petróleo e gás, com contratos de até 25 anos para empresas estrangeiras, desde que aceitem repassar ao Estado pelo menos 60% da receita líquida. A medida pretende elevar rapidamente a produção, hoje estimada em cerca de 800 mil barris por dia, para 1,5 milhão em dois anos. O governo promete destinar 30% da arrecadação adicional a programas de alimentação e remédios, mas não detalha mecanismos de controle ou prazos para início efetivo dos repasses.

A quarta frente mexe com o cotidiano urbano e o clima político. Rodríguez determina a revisão das chamadas “zonas de segurança” criadas por Maduro, áreas extensas em cidades como Caracas e Maracaibo onde manifestações eram proibidas e a presença militar era permanente. O decreto, divulgado no Diário Oficial com vigência imediata, reduz em cerca de 40% o território sob esse tipo de restrição, segundo mapa anexado ao texto. Grupos da sociedade civil veem, nesse gesto, uma abertura parcial do espaço público, embora temam novas formas de controle por meio de autorizações administrativas e monitoramento digital.

Diplomatas de países vizinhos acompanham os anúncios com cautela. Um embaixador de um governo sul-americano, que pede anonimato, avalia que “Delcy tenta se afastar da imagem de Maduro sem romper com a estrutura que a sustenta”. Para ele, o cálculo é preservar a base de apoio militar e partidário, ao mesmo tempo em que sinaliza disposição para negociar com potências que controlam o acesso a crédito e tecnologia. O tabuleiro regional se movimenta na mesma velocidade: Brasil, Colômbia e México articulam uma reunião de chanceleres em até 60 dias para discutir os efeitos da guinada em Caracas.

Pressão interna, xadrez externo e as interrogações adiante

A população sente os efeitos das decisões de forma desigual. Trabalhadores do setor de óleo e gás esperam novas vagas e salários em moeda forte, enquanto funcionários públicos temem mais austeridade em um Estado já fragilizado. A diáspora venezuelana acompanha o noticiário de longe e calcula se as mudanças bastam para um retorno seguro. Organismos internacionais projetam que, mesmo com melhora gradual, pelo menos 4 milhões de venezuelanos continuarão vivendo fora do país até 2030.

O governo aposta que a combinação de reaproximação controlada com o Ocidente, revisão seletiva de abusos internos e promessa de algum alívio econômico será suficiente para consolidar a liderança de Delcy Rodríguez. A aposta é arriscada. O fracasso em transformar decretos em resultados concretos, nos próximos 12 a 18 meses, pode ampliar desgaste e acentuar divisões dentro do próprio campo governista. A pergunta que permanece, em Caracas e nas capitais estrangeiras, é se as quatro mudanças anunciadas inauguram, de fato, uma nova fase ou apenas reorganizam o mesmo poder em torno de novos protagonistas.

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