Governo alemão admite Copa de 2026 sem seleção por tensão com Trump
O governo alemão abre espaço para um boicote à Copa do Mundo de 2026 e diz que respeitará a decisão da Federação Alemã de Futebol e da Fifa. O debate ganha força em janeiro de 2026, em meio a ameaças do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e aumenta a pressão sobre a participação da seleção tetracampeã no Mundial da América do Norte.
Crise política chega ao gramado
O sinal público de Berlim ocorre a menos de seis meses do início previsto do torneio, marcado para junho de 2026 em Estados Unidos, Canadá e México. A discussão, que começa restrita a gabinetes e federações, se espalha pela sociedade alemã, atinge clubes, torcedores e empresários e provoca reações imediatas em Washington.
As ameaças de Trump, que volta a dominar o debate político americano mesmo fora da Casa Branca, acendem um alerta no governo alemão. O ex-presidente usa com frequência a Alemanha como alvo em discursos sobre defesa, comércio e imigração. Integrantes da coalizão em Berlim relatam incômodo com declarações que associam aliados europeus a “aproveitadores” da estrutura militar e econômica dos Estados Unidos.
O futebol entra na linha de fogo quando aliados de Trump sugerem retaliações a governos que o criticam, inclusive com restrições a vistos e pressões econômicas. A Copa de 2026, com 48 seleções e jogos distribuídos por mais de dez cidades norte-americanas, passa a ser vista como um palco de teste de força política. Em reuniões internas, assessores da chancelaria admitem que a participação da Alemanha, um dos principais símbolos esportivos do país, ganha peso que vai além do campo.
Publicamente, Berlim tenta reduzir a temperatura. Em nota divulgada nesta semana, o governo afirma que “respeitará a decisão da Federação Alemã de Futebol e da Fifa quanto à participação na Copa do Mundo de 2026”. O texto evita falar em boicote, mas abre espaço para que a DFB, pressionada por torcedores e patrocinadores, avalie a ausência da seleção como forma de resposta política.
Dirigentes da DFB tratam o tema com cautela. Nos bastidores, a federação avalia cenários que vão desde a presença integral no torneio até uma retirada negociada com a Fifa, caso o ambiente político se deteriore. Pessoas próximas à entidade dizem que “nenhuma opção está descartada”, mas insistem que a prioridade é preservar atletas e torcedores em um contexto que consideram “altamente inflamável”.
Impacto esportivo e dano diplomático
A simples possibilidade de ver uma Copa sem a Alemanha, campeã em 1954, 1974, 1990 e 2014, preocupa organizadores e emissoras. A Fifa espera bater recordes de audiência e receita com a edição ampliada de 2026, projetada para movimentar bilhões de dólares em direitos de transmissão, publicidade e turismo. Uma ausência desse porte reduziria o apelo esportivo e comercial do torneio, principalmente na Europa.
Para a Alemanha, ficar fora do Mundial teria efeitos internos imediatos. Patrocinadores da seleção estimam que campanhas ligadas à Copa possam representar mais de 20% de sua exposição global em 2026. A liga local teme queda de interesse em um ano que já sofre com calendário apertado e risco de lesões em atletas que disputariam o torneio. Técnicos e jogadores, por sua vez, veem a chance de perder o maior palco do futebol em um ciclo de quatro anos, após a Eurocopa de 2024 em casa.
No campo diplomático, a hipótese de boicote representa uma escalada nas tensões bilaterais. Um gesto desse tamanho, tomado por um dos principais parceiros econômicos dos Estados Unidos, seria lido como sinal de afastamento em outras áreas, como defesa, comércio e meio ambiente. Especialistas em relações internacionais alertam para um efeito cascata. “Se a Alemanha decidir não ir, outros governos europeus vão se sentir autorizados a discutir medidas semelhantes”, avalia um diplomata ouvido sob reserva.
O histórico de boicotes olímpicos durante a Guerra Fria volta ao centro do debate. Parlamentares alemães lembram que ausências em grandes eventos esportivos costumam cristalizar rupturas políticas e deixar marcas por décadas. Ao mesmo tempo, movimentos de atletas insistem que o esporte não pode ser usado como arma de pressão. Grupos de jogadores pedem que qualquer decisão leve em conta a segurança, mas também a autonomia do ambiente esportivo.
Para a Fifa, o impasse é um teste de credibilidade. A entidade tenta se posicionar como organização capaz de “unir o mundo pelo futebol”, mas enfrenta críticas recorrentes sobre sua proximidade com governos e interesses econômicos. Um Mundial marcado por ameaças, boicotes e disputas diplomáticas aprofundaria a percepção de que a política captura o jogo em momentos de crise.
Pressão de torcedores e próximos movimentos
Torcedores alemães se dividem à medida que a discussão avança. Setores mais politizados defendem que a seleção não atue em um país onde veem hostilidade aberta de líderes como Trump. Outros consideram que o Mundial, com jogos também no Canadá e no México, não pode ser reduzido a um embate com a política dos Estados Unidos. Clubes da Bundesliga acompanham com atenção, cientes de que qualquer decisão terá reflexos diretos na relação com fãs e patrocinadores.
Nas próximas semanas, a DFB promete intensificar consultas com atletas, técnicos, emissoras e parceiros comerciais. A expectativa é que uma posição mais clara surja antes do fim do primeiro trimestre de 2026, prazo considerado mínimo para ajustar logística de viagens, hospedagem e centros de treinamento. A Fifa, por sua vez, monitora a escalada e tenta evitar que o caso alemão vire modelo para outras seleções insatisfeitas com o clima político nos países-sede.
O governo em Berlim tenta equilibrar a mensagem. De um lado, não quer alimentar o discurso de confronto direto com Washington, que poderia respingar em áreas sensíveis como energia e defesa. De outro, sente a pressão de um eleitorado que cobra respostas duras a ataques públicos e ameaças vindas de Trump e de seus aliados. A decisão final, ainda que formalmente entregue à DFB e à Fifa, terá peso político e será lida como recado ao mundo.
O caminho até junho de 2026 promete ser marcado por notas oficiais, conversas discretas e manifestações de rua. A Copa que a Fifa vende como a maior da história pode chegar ao pontapé inicial com um vazio simbólico no campo e uma pergunta em aberto nas arquibancadas: até onde a política vai decidir quem entra em jogo?
