Google libera vídeo selfie para recuperar contas a partir de hoje
O Google passa a oferecer, a partir desta segunda-feira (9), recuperação de contas por vídeo selfie gravado previamente. O recurso vale para usuários de contas pessoais em todo o mundo e amplia o pacote de ferramentas de segurança do serviço.
Nova camada de proteção para a vida digital
A empresa incorpora o vídeo selfie ao processo de resgate de perfis esquecidos ou comprometidos em um momento em que golpes digitais crescem e o celular concentra dados bancários, fotos e histórico de navegação. A ideia é reduzir o risco de invasões e, ao mesmo tempo, evitar que o usuário fique trancado para fora da própria conta.
O mecanismo funciona em duas etapas distintas. Em um primeiro momento, o titular da conta grava um vídeo de referência, em um cadastro voluntário. Quando perde o acesso, pode ser convidado a repetir o procedimento em um novo dispositivo. O sistema compara as duas gravações e decide se libera ou não a recuperação.
O processo de registro leva poucos segundos. O usuário precisa se posicionar no centro da câmera frontal e mover a cabeça de forma sutil, girando levemente para os lados. A gravação captura múltiplos ângulos do rosto, o que dificulta o uso de uma única foto impressa ou exibida na tela de outro aparelho para tentar enganar o sistema.
O Google não divulga quais algoritmos usa nem entra em detalhes sobre o treinamento dos modelos. A companhia descreve apenas uma “tecnologia avançada” capaz de diferenciar um rosto real, em vídeo, de imagens estáticas ou montagens sintéticas, como deepfakes. Em um cenário de popularização dessas fraudes, qualquer nuance técnica vira informação sensível para criminosos.
A verificação por vídeo selfie se soma a recursos como chaves de acesso, senhas de uso único enviadas por SMS ou app e contatos de recuperação. O conjunto forma uma espécie de rede de segurança em camadas, que tenta equilibrar conveniência e proteção em um serviço com bilhões de contas ativas.
Impacto para usuários e limites do recurso
O novo método não chega para todos. A verificação por vídeo vale apenas para Contas do Google pessoais e fica de fora de três grupos considerados mais sensíveis ou regulados: contas supervisionadas de crianças, clientes do Google Workspace e participantes do Programa de Proteção Avançada, voltado a alvos frequentes de ataques, como políticos, jornalistas e defensores de direitos humanos.
Na prática, o público-alvo é o usuário comum, que depende do Gmail, do YouTube e do Drive para tarefas cotidianas e não costuma administrar políticas complexas de autenticação. Esse público sente com força o impacto de um bloqueio repentino, seja após a perda do celular, seja depois de um golpe envolvendo troca de chip ou roubo físico do aparelho.
Para usar a novidade, é obrigatório configurar tudo antes de qualquer problema. O cadastro do vídeo de referência acontece dentro das configurações de segurança da conta, em um fluxo guiado. Sem esse passo inicial, o vídeo não entra como opção quando o usuário tenta recuperar o acesso em um momento de crise.
A empresa destaca que a verificação por imagem não substitui as chaves de acesso ou a autenticação em duas etapas, e sim funciona como alternativa adicional. Usuários que preferem não compartilhar a própria imagem com o serviço podem continuar usando apenas os mecanismos tradicionais, como códigos enviados para e-mail secundário ou número de telefone de confiança.
Em nota, o Google insiste no discurso de privacidade. Segundo a companhia, “o vídeo selfie é protegido por protocolos de segurança rigorosos e só é usado com o consentimento explícito do usuário”. O material, afirma a empresa, tem uso restrito à verificação de identidade, em processos de segurança da conta, e não entra em bases de dados de anúncios ou recursos sociais.
Alex Freire, diretor sênior de engenharia e líder do centro de engenharia de São Paulo do Google Brasil, resume a aposta. “Estamos inovando constantemente para garantir que os usuários tenham sempre acesso à sua vida digital, mesmo quando imprevistos acontecem”, diz. “Este recurso oferece uma maneira única e conveniente de verificar que é realmente você, sem precisar carregar um dispositivo específico.”
Pressão por mais segurança e próximos passos
A chegada do vídeo selfie ocorre em meio à corrida das grandes empresas de tecnologia por novos padrões de autenticação, em especial depois que senhas tradicionais se mostram frágeis diante de vazamentos e reutilização em massa. A adoção de biometria, hoje comum em bancos e carteiras digitais, migra de forma acelerada para serviços de e-mail, armazenamento em nuvem e redes sociais.
Especialistas apontam um efeito dominó provável. A estratégia do Google tende a pressionar concorrentes diretos, como Microsoft e Apple, a oferecer métodos de recuperação igualmente robustos, com uso de dados biométricos e vídeo. Ao mesmo tempo, a novidade deve alimentar o debate regulatório sobre o limite do uso de imagens faciais, em especial na Europa e em países com leis de proteção de dados mais rígidas.
Para o usuário final, o ganho é imediato: mais uma rota para recuperar uma conta perdida sem depender do número de telefone antigo ou de um contato de confiança que não atende mais. A possibilidade de fazer a verificação em outro dispositivo reduz o impacto financeiro e emocional de perder o aparelho principal, hoje muitas vezes usado como carteira, chave do banco e álbum de família.
A movimentação também deixa perguntas abertas. Consumidores ainda buscam clareza sobre prazos de armazenamento desses vídeos, sobre a possibilidade de exclusão definitiva do material e sobre como o sistema lida com mudanças físicas ao longo do tempo, como envelhecimento, cirurgias ou deficiência adquirida. A forma como o Google responder a essas dúvidas, nos próximos meses, ajuda a definir se o vídeo selfie vira padrão de mercado ou permanece como ferramenta opcional em um cenário cada vez mais disputado pela confiança do usuário.
