Gonet rejeita pedidos de suspeição de Toffoli no caso Master
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, decide rejeitar os pedidos de suspeição do ministro Dias Toffoli no caso Master. A definição ocorre em janeiro de 2026 e mantém o ministro como relator do processo no Supremo Tribunal Federal.
Prazo esgotado e ausência de provas derrubam investida
Paulo Gonet chega à conclusão de que as representações apresentadas por quatro parlamentares não se sustentam em bases jurídicas sólidas. Pessoas próximas ao procurador-geral relatam que ele vê falta de provas concretas e ausência de elementos novos capazes de justificar o afastamento de Toffoli da relatoria. O parecer segue a linha de que suspeição de ministro não se decreta por pressão política ou repercussão de reportagens, mas por fatos objetivos.
O argumento central de Gonet se ancora no próprio regimento interno do STF. A norma estabelece que a suspeição do relator pode ser alegada em até cinco dias após a distribuição do processo. O prazo está esgotado desde o fim de novembro, quando Toffoli é sorteado relator do caso Master. Na prática, a tentativa de afastamento chega atrasada e sem o respaldo mínimo exigido pela Corte. O movimento reforça a leitura de que a ofensiva parlamentar tem mais força política que consistência técnica.
O histórico do Supremo pesa na decisão. Em 26 anos, segundo levantamento do Estadão, a Corte não afasta nenhum relator de processo por esse tipo de contestação. A manutenção de ministros em casos sensíveis virou uma espécie de tradição institucional, defendida como proteção contra tentativas de manobrar a composição de julgamentos. Gonet sinaliza que não pretende ser o primeiro procurador-geral a romper essa prática sem fundamentos muito claros.
O procurador-geral também leva em conta a falta de indícios materiais nas notícias que alimentam as suspeitas. Reportagens revelam negócios envolvendo irmãos de Toffoli, o resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR), e fundos ligados à Reag Investimentos, apontada em investigações sobre o Banco Master. Outro ponto que acende o debate público é o voo em jatinho particular com um advogado ligado ao caso, na véspera do sorteio da relatoria. Nada disso, por ora, se converte em prova formal de conflito de interesses.
Caso Master expõe tensão entre STF, política e mercado
O caso Master se transforma em um dos processos mais sensíveis da atual temporada no Supremo. O banco, ligado a uma teia de fundos e negócios no mercado financeiro, entra no radar da Polícia Federal e da Procuradoria em meio a suspeitas que alcançam figuras públicas. Em dezembro, os deputados Carolina de Toni (PL-SC), Carlos Jordy (PL-RJ) e Adriana Ventura (Novo-SP) pedem a Gonet a suspeição de Toffoli, após a revelação da viagem em jatinho. Em 14 de janeiro, o senador Eduardo Girão (Novo-CE) reforça a ofensiva e fala em “imparcialidade judicial e conflito de interesses”.
As reportagens mostram que irmãos de Toffoli cederam uma fatia milionária no resort Tayayá a um fundo da Reag, investigada por abrigar fundos ligados ao Master. Em outra frente, o pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro e investigado pela PF, aparece como dono dos fundos que compram parte da participação dos irmãos do ministro. O valor estimado da fatia chega a R$ 6,6 milhões. São números que alimentam a narrativa de suspeição, mas ainda não se traduzem em evidências capazes de sustentar uma acusação formal.
O ambiente de desconfiança não se limita a Toffoli. Em 29 de dezembro, Gonet arquiva pedido para investigar o ministro Alexandre de Moraes por suposta pressão sobre o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em questões de supervisão do Master. O requerimento, apresentado por um advogado, cita a contratação da esposa de Moraes pelo banco. Outra vez, o procurador-geral aponta a falta de “elementos concretos ou indícios materiais” para abrir apuração. A postura reforça a ideia de que, na visão de Gonet, a PGR não deve se mover apenas por narrativas políticas ou disputas públicas.
A condução do procurador-geral provoca reações divergentes. Críticos o acusam de blindar o Supremo, mantendo a Corte em uma “redoma”, como descreve a jornalista Roseann Kennedy ao analisar o caso Master. Aliados do STF, por outro lado, veem na decisão uma defesa da estabilidade institucional em meio a um cenário de ataques frequentes ao tribunal e a seus integrantes. Entre Brasília e o mercado financeiro, a leitura predominante é de que qualquer mudança repentina de relatoria poderia aprofundar a percepção de ingerência política sobre processos econômicos de alto impacto.
Decisão destrava processo e testa limites da política
A rejeição dos pedidos de suspeição tende a acelerar o andamento do caso Master no STF. Com Toffoli mantido como relator, o Supremo evita uma disputa interna sobre substituições e preserva a rotina processual em torno de um caso que envolve grandes volumes financeiros e agentes influentes. A mensagem aos investigados, ao mercado e aos próprios parlamentares é de que o rito judicial segue independente do barulho político. Em meio a juros altos, pressão sobre o crédito e desconfiança em relação a instituições financeiras, qualquer sinal de previsibilidade na Justiça pesa.
O movimento também fortalece a autoridade da Procuradoria-Geral da República. Ao negar os pedidos, Gonet indica que não pretende transformar a PGR em correia de transmissão de disputas parlamentares com o STF. A recusa em acionar o Supremo contra seus próprios ministros, sem provas robustas, delimita o alcance de iniciativas políticas que buscam redesenhar a composição de julgamentos estratégicos. Para parte dos congressistas, a porta se fecha; para a cúpula do Judiciário, abre-se uma janela de estabilidade.
Os parlamentares que assinam as representações tendem a buscar outros caminhos. Podem insistir em CPIs, propor mudanças legislativas nos critérios de suspeição ou intensificar o desgaste público de ministros específicos. A base mais radicalizada nas redes sociais, que já mira o STF como alvo constante, deve usar a decisão de Gonet como novo combustível. Na outra ponta, entidades jurídicas e setores do mercado acompanham de perto o desfecho, atentos a sinais de insegurança ou de reforço da previsibilidade regulatória.
Gonet carrega ainda a expectativa gerada por seu silêncio em temas anteriores. Em 2024, o STF pede à PGR um parecer sobre a aplicação da chamada Lei Magnitsky, usada pelos Estados Unidos para sancionar autoridades brasileiras, entre elas Alexandre de Moraes. O procurador-geral não se manifesta e, nesse intervalo, Washington revê a posição e retira as sanções. No caso Master, a postura muda: ele assume uma decisão clara e de curto prazo. A forma como o STF reage, e como o Congresso digere essa resposta, define até onde vai o espaço da política para interferir nos bastidores do tribunal mais poderoso do país.
