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Goleada do Novorizontino expõe crise e pressiona Abel no Palmeiras

O Palmeiras sofre goleada do Novorizontino em Novo Horizonte, nesta terça-feira (20), pelo Paulistão 2026, e vive a pior derrota da era Abel Ferreira. O resultado, por 4 a 0, escancara falhas em todos os setores e amplia a pressão sobre o técnico às vésperas do clássico com o São Paulo.

Derrota histórica expõe um time em transição

A noite em Novo Horizonte começa com o roteiro conhecido de um início de estadual, mas termina com clima de crise. O Novorizontino domina as ações, aproveita cada erro alviverde e transforma um jogo de janeiro em ponto de inflexão para a temporada. A goleada não vale apenas três pontos na classificação: ela atinge a confiança de um elenco que acaba de sair de um ano sem títulos e ainda busca nova identidade.

O Palmeiras entra em campo com time misto, mas defesa titular. O plano é rodar o elenco, dar minutos a quem terminou 2025 desgastado e observar garotos promovidos da base. Em 90 minutos, o que se vê é um time espaçado, lento na recomposição e vulnerável em jogadas simples, pelo chão e pelo alto. Cada avanço do Novorizontino parece um teste que a defesa palmeirense não consegue responder.

Falhas em cadeia, do gol ao ataque

Marcelo Lomba estreia na temporada já sob holofotes. Aos 38 anos, ele assume a vaga de Weverton, negociado ao fim de 2025, e tenta ser o novo líder da defesa. A noite é cruel. Sofre quatro gols, falha na escolha de saídas de bola e participa diretamente do terceiro gol, quando arrisca passe curto com Luighi na intermediária defensiva. O erro vira símbolo de um time que parece tomar decisões erradas em sequência.

A linha defensiva, mesmo com nomes consolidados, não se encontra. Khellven, Murilo, Gómez e Piquerez formam a base que sustentou campanhas recentes, mas nenhum deles consegue controlar o ritmo do jogo. Murilo sai no intervalo, substituído por Benedetti, que entra frio e falha no quarto gol do Novorizontino. O desempenho reforça a leitura interna de que o clube precisa de um zagueiro pronto. O alvo é Nino, hoje no Zenit, tratado nos bastidores como peça capaz de reorganizar o sistema.

O problema não se limita à área. O meio-campo volta a ser zona de turbulência. Desde a venda de Aníbal Moreno, em dezembro, o Palmeiras escolhe apostar em soluções caseiras para a função de primeiro volante. Emiliano Martínez, que deveria dar equilíbrio, volta a ter atuação insegura. Deixa Robson livre na origem do primeiro gol e sofre para proteger a defesa. Ao lado dele, Luis Pacheco, de 17 anos, surge como promessa, mas ainda é visto pela comissão técnica como aposta de médio prazo, não como resposta imediata.

Raphael Veiga participa outra vez desde o início e também não engrena. Oscila entre tentativas de passe em profundidade e bolas perdidas no meio da marcação adiantada do adversário. A diretoria já conversa com Arias e Almada para reforçar a criação, sinal claro de que o clube não pretende atravessar 2026 dependendo apenas de Veiga em dias iluminados. Nos bastidores, a leitura é de que a concorrência interna pode tirar o meia da zona de conforto.

O ataque sente a ausência da dupla que termina 2025 como referência. Vitor Roque fica fora após dores no joelho direito contra o Mirassol, e Flaco López começa isolado na frente, ao lado de Allan e Riquelme Fillipi. O trio não se entende. As jogadas morrem em cruzamentos previsíveis ou em passes curtos interceptados. No segundo tempo, Bruno Rodrigues e Luighi entram para mudar o cenário, mas esbarram na mesma falta de conexão. Luighi ainda se complica no lance que origina o terceiro gol e pode ser negociado já nesta semana.

Pressão esportiva, política e de mercado

A derrota por quatro gols em 20 de janeiro pesa mais do que o calendário sugere. O Palmeiras vem de um 2025 sem taças e entra em 2026 sob cobrança explícita de conselheiros e de parte da torcida organizada. O placar em Novo Horizonte oferece munição a quem já defendia reformulação mais profunda no elenco e na comissão técnica. O próprio Abel, que acumula títulos e prestígio desde 2020, passa a ser questionado não só pelos resultados recentes, mas pelo modelo de jogo.

Abel tenta controlar a narrativa na coletiva pós-jogo. Lembra o número de desfalques, cita Andreas Pereira e Lucas Evangelista, ainda em transição física, e explica a opção por lançar garotos em janeiro. “Temos muitos jogadores importantes no departamento médico e precisamos testar alternativas agora”, afirma. A leitura externa, porém, é menos paciente. Cobradores internos pedem imediatismo, especialmente porque a principal janela europeia fecha em 2 de fevereiro, reduzindo o tempo para negociar reforços de peso.

A diretoria trabalha em duas frentes. No campo, a cobrança por resposta rápida chega à comissão técnica e ao elenco. Fora dele, o departamento de futebol tenta acelerar conversas por um zagueiro, um volante e um meia criativo. As negociações envolvem cifras na casa de milhões de euros, em um cenário de câmbio desfavorável e concorrência de clubes médios da Europa e do Oriente Médio. Cada dia de indefinição amplia o risco de o Palmeiras voltar a encerrar a temporada sem levantar troféus.

O impacto esportivo é imediato. O time perde pontos no Paulistão e vê adversários diretos, como São Paulo e Corinthians, ganharem terreno na tabela e tranquilidade para trabalhar. No vestiário, líderes do elenco tentam blindar o grupo de críticas públicas, mas admitem, em conversas reservadas, que a goleada funciona como alerta máximo. A margem de erro, repetem, encolhe cedo demais.

Clássico com o São Paulo vira termômetro da reação

O calendário não oferece respiro. No sábado, dia 24, às 18h30, o Palmeiras recebe o São Paulo na Arena Barueri. O jogo, que em outros anos poderia ser tratado como início de ajuste, ganha peso de teste de caráter. Uma nova atuação fraca pode empurrar o ambiente para uma crise aberta, com vaias, pressão organizada e aumento do ruído político no clube.

A comissão técnica trabalha para ter força máxima no clássico. A expectativa é contar novamente com peças importantes e reduzir o número de improvisos. A direção, por sua vez, tenta ao menos encaminhar uma contratação até o fim da próxima semana, gesto visto internamente como sinal de resposta à torcida. Entre campo e bastidores, a goleada em Novo Horizonte deixa uma pergunta em suspenso: o Palmeiras consegue se reinventar a tempo ou 2026 repetirá o vazio de títulos do ano passado?

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