Gilmar diz que até 34 deputados da Alerj recebem mesada do jogo do bicho
O ministro Gilmar Mendes afirma, em sessão do Supremo nesta quinta-feira (9), que entre 32 e 34 deputados estaduais do Rio recebem mesada do jogo do bicho. A declaração ocorre durante o julgamento que define se a eleição para o mandato-tampão no governo fluminense será direta ou indireta.
Denúncia explode em plenário e atinge Alerj em momento decisivo
O plenário do Supremo Tribunal Federal acompanha em silêncio quando Gilmar interrompe o voto para relatar uma conversa recente com um diretor da Polícia Federal. Ele diz ter ouvido do delegado que dezenas de parlamentares da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, a Alerj, recebem pagamentos mensais de banqueiros do jogo do bicho, uma rede ilegal que movimenta milhões de reais por fora do sistema financeiro.
A revelação surge no ponto mais tenso do julgamento que vai definir o modelo de eleição para o mandato-tampão no governo do Rio, após a cassação do chefe do Executivo estadual. Ao vincular o Legislativo fluminense ao crime organizado, o ministro coloca em xeque a legitimidade de uma eleição indireta, na qual exatamente esses deputados teriam o poder de escolher o próximo governador até o fim do mandato, previsto para 31 de dezembro de 2026.
Gilmar não cita nomes, não informa o valor da mesada e não apresenta documentos durante a sessão. Mas deixa claro que a informação parte da cúpula da PF, órgão responsável por investigações de grande porte sobre lavagem de dinheiro e crime organizado. “Segundo me relatou um diretor da Polícia Federal, entre 32 e 34 deputados da Alerj recebem mesada do jogo do bicho”, afirma, olhando para os colegas de toga.
A declaração circula imediatamente pelos celulares de assessores e políticos no Rio e em Brasília. Em poucos minutos, líderes partidários já comentam o caso em conversas reservadas e cobram explicações de seus deputados estaduais. O clima, que já era de disputa acirrada em torno do formato da eleição, ganha contornos de crise institucional.
Jogo do bicho volta ao centro da política fluminense
A fala de Gilmar resgata uma relação antiga entre o jogo do bicho e a política no Rio de Janeiro. Desde os anos 1980, investigações apontam que contraventores financiam campanhas, sustentam estruturas partidárias e influenciam votações estratégicas na Alerj. Relatórios da Polícia Federal e da antiga Polícia Civil fluminense já estimaram que o esquema das apostas ilegais movimenta centenas de milhões de reais por ano, sem pagamento de impostos e com forte suspeita de lavagem de dinheiro.
Em 1993, a CPI do Jogo do Bicho no Congresso já apontava o elo entre bicheiros, policiais e autoridades políticas. Nos anos seguintes, operações como a Furacão, em 2007, e outras ações da PF voltaram a expor a força dessa rede nos bastidores do Estado. Agora, o tema retorna ao plenário do Supremo pela voz de um ministro que costuma atuar em casos de alta complexidade política.
Ao trazer o assunto durante o julgamento, Gilmar sugere que permitir uma eleição indireta sob esse contexto pode agravar a desconfiança da população nas instituições fluminenses. Se a escolha do mandato-tampão ficar nas mãos de 70 deputados estaduais, dos quais entre 32 e 34 estariam, segundo o ministro, sob influência do jogo do bicho, o resultado tende a ser questionado nas ruas e nas redes sociais desde o primeiro dia.
A repercussão chega com força à própria Alerj. Parlamentares de oposição exigem uma investigação imediata, com a identificação nominal dos suspeitos e o envio das informações à Procuradoria-Geral da República e ao Ministério Público do Rio. Aliados do governo estadual tentam minimizar o impacto, afirmam que generalizações não podem manchar a imagem de toda a Casa e pedem que Gilmar detalhe a conversa com a PF.
O episódio pressiona também a Polícia Federal, que passa a ser cobrada a esclarecer em que contexto o diretor falou com o ministro, qual a base das informações e em que estágio estão eventuais inquéritos sobre o envolvimento de deputados com o jogo do bicho. Até o fim da sessão, não há manifestação oficial da corporação.
Pressão por investigação e incerteza sobre eleição no Rio
A acusação pública coloca órgãos de controle em movimento. Integrantes do Conselho Nacional do Ministério Público defendem que a PGR abra um procedimento preliminar ainda em abril para ouvir o ministro, requisitar relatórios da Polícia Federal e avaliar a abertura de investigações formais contra parlamentares fluminenses. No Rio, promotores da área criminal e de improbidade avaliam pedir o compartilhamento das informações para possíveis ações locais.
No plano político, a bomba estoura em meio à disputa sobre o mandato-tampão. Governistas e parte do centrão na Alerj defendem a eleição indireta, com escolha pelo plenário da Assembleia em até 30 dias após a decisão do Supremo. Setores da oposição e movimentos civis exigem votação direta, com a participação de quase 13 milhões de eleitores fluminenses, sob o argumento de que só o voto popular pode devolver alguma legitimidade ao governo do Estado.
A fala de Gilmar reforça o discurso de quem defende a eleição direta. Integrantes de partidos de esquerda e de centro apontam que, diante da suspeita de que quase metade da Casa recebe dinheiro do jogo do bicho, a eleição indireta equivaleria a terceirizar a escolha do governador para uma base contaminada por interesses criminais. Dirigentes de siglas governistas lembram que, até agora, não há nomes nem provas apresentados, e acusam a oposição de tentar deslegitimar a Alerj em bloco.
Enquanto a pressão cresce, gabinetes de deputados estaduais passam a revisar doações de campanha, contratos de assessores e relações com líderes comunitários, em busca de blindagem política e jurídica. Assessores jurídicos alertam que, se a PF já tiver inquéritos em curso e a investigação avançar, parlamentares podem enfrentar pedidos de quebra de sigilo bancário e fiscal, afastamento do mandato e até prisões preventivas em casos mais graves.
O Supremo deve concluir o julgamento sobre o modelo de eleição para o mandato-tampão ainda neste mês. A depender do resultado, a crise desencadeada pela fala de Gilmar pode redefinir o mapa de alianças no Rio, influenciar as eleições municipais de 2026 e reacender a discussão sobre financiamento político ilegal no país. A pergunta que permanece em aberto, após a sessão de hoje, é se o sistema de Justiça terá fôlego e independência para ir além da denúncia e alcançar, de fato, quem paga e quem recebe a mesada do bicho.
