Geração Z perde espaço na eleição mais decisiva de Bangladesh
Os jovens que derrubam Sheikh Hasina em 2024 chegam às vésperas da eleição de 12 de fevereiro de 2026 fragmentados e sob pressão. Em Bangladesh, a geração que incendiou as ruas perde protagonismo político justamente quando 127 milhões de eleitores se preparam para o voto mais decisivo em décadas.
Da revolta nas ruas à margem do poder
O país volta às urnas pela primeira vez desde o levante estudantil que derruba a primeira-ministra mais longeva de Bangladesh e deixa ao menos 1.400 mortos, segundo a ONU. O pleito testa se a maior revolta da geração Z no Sul da Ásia se converte em renovação política ou se abre caminho para o retorno de forças tradicionais e grupos islamistas organizados.
O contraste com o clima de euforia de 2024 é nítido em Daca. Naquele julho, estudantes lideram marchas contra o restabelecimento de cotas no serviço público que reservam um terço das vagas a parentes de veteranos da guerra de independência de 1971. A repressão transforma o protesto específico em movimento nacional contra o governo, com internet cortada, prisões em massa sob a Lei de Segurança Digital e tropas disparando munição real contra manifestantes desarmados.
Em 5 de agosto de 2024, a polícia mata pelo menos 52 pessoas em um único bairro da capital, no dia em que Sheikh Hasina foge de helicóptero para a Índia, horas antes de multidões invadirem sua residência oficial. Meses depois, um tribunal de crimes de guerra condena a ex-primeira-ministra à pena de morte à revelia. Nova Délhi se recusa a extraditá-la, e parte da antiga elite da Liga Awami se refugia com ela no país vizinho.
O vácuo de poder abre espaço para um governo interino comandado pelo Nobel da Paz Muhammad Yunus, que toma decisões drásticas. A Liga Awami, partido mais antigo de Bangladesh e dono de cerca de 30% do voto popular, é banida da política. A Comissão Eleitoral cancela seu registro, redesenha o tabuleiro e deixa o Partido Nacionalista de Bangladesh (PNB), liderado por Tarique Rahman, como principal força do establishment.
Parte dos líderes estudantis que comandam as ruas ocupa cargos-chave no governo provisório e funda o Partido Nacional dos Cidadãos (PNC), voltado aos jovens. A expectativa inicial é que essa sigla simbolize a transição geracional e chegue competitiva à eleição de 2026. Na prática, o que se impõe são divisões internas, disputa por direção e dificuldades para se organizar fora das universidades.
Alianças controversas e avanço islamista
O primeiro sinal público de desgaste aparece em setembro de 2025, quando o braço estudantil do Jamaat-e-Islami, partido islamista até então marginalizado da política oficial, vence com folga as eleições estudantis nas principais universidades, incluindo a prestigiosa Universidade de Daca. Pela primeira vez desde a independência, um grupo islamista assume o diretório estudantil da instituição que sempre funciona como termômetro político do país.
Sem base consolidada, o PNC decide se aliar justamente ao Jamaat. Em dezembro, anuncia uma frente multipartidária que garante visibilidade, mas limita sua capacidade de renovação. Pelo acordo, o PNC pode lançar apenas 30 candidatos ao Parlamento, em um universo de 300 cadeiras. Só duas dessas candidaturas são de mulheres. O Jamaat apresenta mais de 200 postulantes, todos homens, e assume o controle de fato da chapa conjunta.
O líder do Jamaat, Shafiqur Rahman, diz à BBC que sua legenda quer “combater a corrupção e restaurar a independência do Judiciário”. As promessas ecoam em um país em que a percepção de corrupção atinge níveis crônicos e a confiança nas instituições desaba após anos de repressão. O PNC também promete atacar o desvio de recursos públicos e defender oportunidades para jovens, mas entra na campanha politicamente subordinado e sob suspeita de ter diluído a agenda secular e plural que mobiliza as ruas em 2024.
O resultado é que, às vésperas da votação, a disputa central se desenha entre o Jamaat e o PNB, herdeiro de uma dinastia que atravessa golpes militares e exílios. Tarique Rahman, 60, volta ao país após 17 anos em Londres e tenta se apresentar como líder de uma nova direita liberal democrática. Ele carrega, porém, o peso do sobrenome: é filho de Khaleda Zia, primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra, e símbolo de uma política marcada por rivalidades familiares com a clã de Sheikh Hasina.
Enquanto o debate público se concentra nessas duas forças, os filhos da revolução de 2024 se veem encurralados entre repressão e cooptação. Integrantes do PNC relatam pressões crescentes de aliados mais velhos e hostilidade de quadros do PNB, que tentam usar a máquina partidária para absorver ou neutralizar lideranças emergentes. Ao mesmo tempo, sobreviventes da repressão de Hasina cobram responsabilização por prisões em massa, desaparecimentos forçados e mortes registradas pela ONU, sem encontrar uma voz clara no campo jovem.
Urna, violência e disputa pelo futuro
A eleição de quinta-feira define os 300 assentos do Parlamento em sistema majoritário simples, em que basta ter mais votos que os rivais no distrito para vencer, mesmo abaixo de 50% dos votos. A maioria dos parlamentares é suficiente para formar o governo. Pela primeira vez, bangladeshianos no exterior podem votar por correio: a Comissão Eleitoral emite mais de 800 mil cédulas, que precisam chegar às mesas receptoras até a tarde de 12 de fevereiro.
As autoridades prometem reconhecimento facial nas seções eleitorais e rastreamento por aplicativo para reduzir fraudes, depois de três eleições nacionais contestadas entre 2014 e 2024. O histórico, porém, alimenta desconfiança. O PNB já boicota pleitos anteriores, e agora a ausência da Liga Awami, banida, levanta dúvidas sobre pluralidade real. Ao mesmo tempo, a campanha mergulha nas redes sociais, com TikTok, Facebook e YouTube tomados por vídeos curtos, slogans e uma enxurrada de conteúdos gerados por inteligência artificial.
Organizações civis identificam narrativas fabricadas que tentam reescrever episódios centrais do levante de 2024 e inflar acusações de traição entre campos rivais. A desinformação circula com velocidade entre os mais jovens, que formam mais de 40% do eleitorado na faixa de 18 a 37 anos. Emprego, alta de preços, segurança nas ruas e proteção contra violência política aparecem como prioridades desse grupo. Um relatório do Banco Mundial, em novembro de 2025, registra aumento da pobreza e queda de empregos, especialmente para mulheres, o que aumenta a frustração com a lentidão das mudanças.
O clima nas ruas confirma o desgaste. Nos dias anteriores à votação, confrontos entre militantes, relatos de intimidação de eleitores e a morte de vários ativistas levam entidades de direitos humanos a emitir alertas públicos. Centenas de armas saqueadas durante o levante de 2024 continuam desaparecidas, o que eleva o risco de confrontos armados em um pleito já marcado por polarização ideológica e religiosa.
Além de escolher o novo Parlamento, os eleitores também decidem, em referendo, se a Declaração Nacional de Julho entra na Constituição. O texto prevê 84 mudanças, como a criação de um Parlamento bicameral e mecanismos mais rígidos de freios e contrapesos ao Executivo. Uma vitória do “Sim” obriga legalmente o próximo governo a reduzir a concentração de poder que domina a política bangladeshiana nas últimas décadas.
O resultado terá efeitos além das fronteiras. A política no Sul da Ásia se entrelaça com religião, migração e segurança de fronteiras. A queda de Hasina já tensiona os laços com a Índia, onde ela vive em exílio, e reabre debates sobre o papel de Bangladesh na disputa estratégica entre Estados Unidos e China. Pequim vê o país como peça-chave na Iniciativa Cinturão e Rota; Washington tenta conter essa influência em nome da “democracia e estabilidade regional”.
Em meio a pressões externas e rearranjos internos, a geração Z que derruba um governo observa de longe a consolidação de acordos entre veteranos e islamistas. A eleição desta quinta-feira indica se o levante de 2024 será lembrado como ponto de virada democrática ou como mais um capítulo em que jovens arriscam a vida nas ruas e veem outros colherem o poder. O veredito, desta vez, sai das urnas — e do silêncio ou não daqueles que se autoproclamam filhos da revolução.
