Geógrafo brasileiro revela bastidores do tabuleiro em torno do estreito de Ormuz
Entre 2009 e 2012, o geógrafo brasileiro Jorge Mortean troca um emprego em banco em São Paulo por três anos de pesquisa no Irã. A decisão o leva ao coração do Golfo Pérsico, região que hoje concentra 20% do fluxo mundial de petróleo e está no centro das tensões entre Teerã e o Ocidente.
Da mesa do HSBC ao laboratório vivo do Golfo
Em maio de 2009, Mortean atende o telefone na área de responsabilidade socioambiental do HSBC, em São Paulo. Do outro lado da linha, em Brasília, a secretária da embaixada do Irã pergunta se ele viu o e-mail enviado minutos antes. Ele não viu. “No e-mail há três opções de data para sua passagem para Teerã. Escolha a que for de sua preferência e me avise”, ela informa. O geógrafo tem cerca de 15 dias para tirar passaporte, pedir demissão e se mudar para o país que estuda há seis anos.
Selecionado entre 75 brasileiros para uma bolsa integral de mestrado na Academia Diplomática Iraniana, que ele descreve como “uma espécie de Instituto Rio Branco deles”, Mortean desembarca em Teerã aos 27 anos, com apenas duas viagens internacionais no passaporte, ambas pela América do Sul. Carrega, porém, um acúmulo raro de pesquisa sobre o Irã, que já havia resultado na criação da área de Estudos Iranianos no Laboratório de Geografia Política da USP, onde se formara sete meses antes.
O que parecia uma aposta acadêmica passa a ser, mais de uma década depois, uma chave para entender o noticiário diário do Oriente Médio. Os nomes que hoje aparecem em mapas de ataques, bloqueios navais e ameaças de bombardeio não são abstrações para o pesquisador. “Esses lugares invocam paisagens, rostos e sensações que seguem vívidos na memória”, relata o professor, hoje vinculado ao Instituto de Estudos Contemporâneos da PUC Minas.
Ormuz, o ‘fim do mundo’ que segura o petróleo do planeta
Durante os três anos no Irã, Mortean percorre boa parte do litoral do Golfo Pérsico. Passa pelas províncias iranianas de Khuzestão, Bushehr e Ormuzgão, na margem norte, e cruza para a margem sul, em países como Catar, Emirados Árabes Unidos e Omã. No mapa, o trajeto parece curto; na prática, revela um país de contrastes climáticos e geopolíticos. De Teerã até Bandar-e-Abbas, cidade portuária no Golfo Pérsico, a viagem soma 1,1 mil quilômetros. “Os iranianos dizem que as quatro estações convivem ao mesmo tempo no país. Você pode ter neve em Teerã e 30 ºC no Golfo Pérsico”, conta.
O olhar de geógrafo ajuda a desmontar alguns clichês. O Golfo Pérsico, frequentemente descrito como mar profundo e insondável, é, segundo ele, um “grande piscinão”. A profundidade média é de cerca de 70 metros, próxima à dos mares Báltico e do Norte, e muito abaixo dos cerca de 1,5 mil metros do Mediterrâneo e dos até 2 mil metros do vizinho Golfo de Omã. Por razões morfológicas, explica, o estreito de Ormuz, gargalo que conecta esses dois corpos d’água, chega a 200 metros em alguns pontos. É por ali que escoam aproximadamente 20% da produção de petróleo do planeta, em navios que cruzam uma faixa de mar congestionada, sob o olhar atento de Teerã e dos rivais regionais.
Essa geografia compacta transforma cada ilha e cada porto em ativo estratégico. Bushehr, antiga porta de entrada marítima do Irã, já foi o principal porto persa até a descoberta de petróleo no vizinho Khuzestão, fronteira com o Iraque. Hoje, ostenta ruínas aquemênidas e sassânidas, vestígios de caravanserais e uma arquitetura marcada pela presença britânica no século 19. “Os iranianos têm grande orgulho de Bushehr, tanto pela posição central no Golfo quanto pelo patrimônio histórico”, afirma Mortean. A poucos quilômetros dali, a Ilha de Kharg concentra infraestrutura petrolífera sensível, o que a coloca repetidamente no centro de ameaças e discursos. Foi Kharg que o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, citou como alvo em potencial ao pressionar o Irã a manter Ormuz aberto a navios estrangeiros.
Fortalezas portuguesas, cavernas e a memória da colonização
Se para muitos iranianos Ormuz é “o fim do mundo”, para o pesquisador brasileiro a viagem ao estreito tem a dimensão de uma missão cultural. “Quando falei para meus colegas em Teerã que iria para Ormuz, me perguntaram: ‘O que você vai fazer lá?’”, lembra. O roteiro inclui uma sequência de deslocamentos: duas horas de voo até Bandar-e-Abbas, 45 minutos de barco até a Ilha de Ormuz, depois um trajeto de carro por um terreno seco, sem árvores nem água potável, até a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, erguida pelos portugueses no século 16.
A ilha tem apenas 42 quilômetros quadrados, menos da metade do tamanho da Ilha de Vitória, capital do Espírito Santo. Em meio ao calor e ao solo ferroso, Mortean encontra uma vila que, para ele, lembra Paraty: ruas estreitas, artesanato, festivais de pintura, mosaicos de areia colorida no chão. O solo arenoso e rico em ferro tinge a paisagem com tonalidades que variam do vermelho ao ocre. Não muito longe dali, Qeshm, a maior das sete ilhas do estreito, desenha no mapa a silhueta de um golfinho e guarda cavernas, gêiseres, manguezais e praias pouco conhecidas fora da região. “Golfinhos, aliás, são muito comuns no Golfo Pérsico”, comenta.
As fortalezas de Ormuz e Qeshm compartilham um traço que intriga o visitante. Do lado de fora, parecem estruturas convencionais, com muralhas espessas e pátios vazios. Do lado de dentro, revelam um mundo subterrâneo. “O guia então disse: ‘Dá uma olhada’”, conta o geógrafo. No piso de pedra, uma série de buracos leva, por escadas, a cômodos escavados na rocha. Em uma região que passa de 50 ºC no auge do verão, entre julho e agosto, a solução encontrada pelos portugueses é proteger soldados e moradores sob a terra. Quando visita o local, no inverno, a temperatura varia entre 25 ºC e 30 ºC, mas o calor ainda impõe respeito.
Em uma dessas passagens, Mortean alcança uma pequena capela talhada na rocha. Na parede, a Via Crúcis aparece escrita em português arcaico. De um lado do altar, a Ave Maria; do outro, o Pai Nosso. A cena o atinge com força inesperada. “Quando compreendi as inscrições, com certa dificuldade por causa da forma arcaica, pensei: ‘Agora entendi o que foram o imperialismo e a colonização portugueses’”, relata. A descoberta lança uma ponte direta entre o Brasil e um pedaço de pedra perdido no estreito que hoje domina manchetes sobre guerra e sanções.
Do campo à análise: o que essa vivência muda hoje
Quatorze anos depois do retorno ao Brasil, a experiência de campo no Irã se converte em ferramenta de interpretação de crise. Ao acompanhar mapas de ataques a navios cargueiros, ameaças de fechamento do estreito e discursos de líderes em Teerã e Washington, Mortean não vê apenas coordenadas. Reconhece portos, estradas, comunidades de pescadores e áreas industriais que visitou entre 2009 e 2012. Essa memória concreta alimenta suas aulas na pós-graduação da PUC Minas e orienta entrevistas e análises sobre o conflito no Golfo Pérsico.
Em um cenário em que cerca de um quinto do petróleo mundial depende da passagem por uma faixa de mar com poucas dezenas de quilômetros de largura, detalhes físicos ganham peso político. A relativa pouca profundidade do golfo, a organização dos portos, a posição das ilhas e a infraestrutura energética espalhada por locais como Kharg e Bushehr influenciam o cálculo de risco de investidores, governos e empresas de transporte. Decisões tomadas a milhares de quilômetros de distância, em Brasília, Washington ou Bruxelas, passam por avaliações baseadas em dados que pesquisadores como Mortean ajudam a decifrar.
O material acumulado naqueles anos no Irã tende a ganhar novas formas. A combinação de relatos pessoais, pesquisa acadêmica e observação direta do campo pode alimentar séries documentais, reportagens aprofundadas e conteúdo educativo em múltiplas plataformas. Em um país que importa a maior parte dos combustíveis fósseis que consome e acompanha de perto o preço internacional do barril, essa tradução do conflito em termos concretos tem potencial para qualificar o debate sobre política externa, transição energética e segurança internacional.
O professor mantém viva a memória das paisagens que percorreu, do frio de Teerã à umidade das margens do Golfo. Na medida em que a região volta a ocupar o centro das atenções globais, o percurso iniciado em uma ligação telefônica em maio de 2009, em um escritório na avenida Paulista, ganha novo sentido. A pergunta que o acompanha, agora, é como transformar essa vivência em ferramentas para que o público brasileiro compreenda que, entre um estreito do outro lado do mundo e o valor pago no posto de gasolina, a distância é bem menor do que o mapa sugere.
