General russo é baleado em Moscou em novo ataque a alto comando
O tenente-general Vladimir Alexeyev é baleado várias vezes na manhã desta sexta-feira (6) em Moscou, dentro do prédio onde mora. O oficial de alta patente das Forças Armadas russas é levado às pressas para um hospital da capital. As autoridades abrem inquérito por tentativa de homicídio, mas ainda não informam seu estado de saúde.
Alvo no coração do aparato militar russo
O ataque acontece em um prédio residencial na periferia noroeste de Moscou, às margens da rodovia Volokolamskoye, área distante do centro político da capital, mas próxima de bairros onde vivem militares e funcionários do Estado. Alexeyev, figura de destaque no Estado-Maior das Forças Armadas, torna-se o mais recente nome da cúpula militar russa a ser atingido em atentados desde o início da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022.
Investigadores russos tratam o caso como tentativa de homicídio. “A vítima foi hospitalizada em um dos hospitais da cidade”, afirma Svetlana Petrenko, porta-voz do Comitê de Investigações da Rússia, órgão equivalente a uma polícia federal com poderes ampliados. O comunicado oficial confirma a gravidade do episódio, mas evita detalhes sobre ferimentos, prognóstico médico ou suspeitos.
Alexeyev ocupa posto estratégico na diretoria principal do Estado-Maior, estrutura que coordena operações de inteligência e planejamento militar. Seu nome ganha projeção internacional em 2018, quando é incluído em sanções da União Europeia após as acusações de que o Estado-Maior está por trás do envenenamento do ex-espião russo Sergei Skripal em Salisbury, no Reino Unido. O governo russo nega, mas as restrições financeiras e de viagem colocam o general sob o radar do Ocidente.
O tiroteio desta sexta-feira ocorre em um momento em que a guerra na Ucrânia se aproxima do quarto ano, sem perspectiva clara de encerramento. A violência atinge agora, com frequência maior, a esfera doméstica russa. Ataques contra militares de alta patente passam a fazer parte do cotidiano de uma guerra que, oficialmente, Moscou ainda chama de “operação militar especial”.
Guerra prolongada, atentados em série
A trajetória recente de Alexeyev ajuda a dimensionar o impacto político e militar do atentado. Durante o cerco russo a Mariupol, em 2022, ele participa de negociações com representantes ucranianos sobre corredores humanitários e rendição de tropas. Em 2023, volta a atuar nos bastidores ao ser enviado para negociar pessoalmente com Yevgeny Prigozhin, chefe do grupo mercenário Wagner, durante o motim que expõe fissuras graves no comando russo. O acordo improvisado evita confronto direto em Moscou, mas deixa clara a dependência do Kremlin de figuras como Alexeyev para administrar crises internas.
Os últimos dois anos consolidam um padrão de ataques contra oficiais de alto escalão. Em dezembro de 2025, o tenente-general Fanil Sarvarov morre quando um explosivo detona sob seu carro em Moscou. Ele chefiava o departamento de treinamento operacional das Forças Armadas. O Comitê de Investigação aponta suspeitas sobre os serviços de inteligência da Ucrânia, que não confirma responsabilidade.
Em 2024, uma explosão em frente a um prédio residencial em Moscou mata o general Igor Kirillov, comandante das tropas de Defesa Nuclear, Biológica e Química. A Ucrânia reivindica o ataque. No início de 2025, um cidadão uzbeque é preso sob acusação de envolvimento no assassinato, numa tentativa de mostrar que as redes por trás desses atentados passam por intermediários e cúmplices estrangeiros. No fim de janeiro deste ano, a inteligência russa anuncia ter frustrado um plano de ataque contra outro militar em São Petersburgo.
A sequência de episódios reforça a percepção de que a guerra se desloca, ainda que parcialmente, para dentro do território russo. A fronteira entre frente de batalha e retaguarda se torna mais porosa. A mensagem, para a elite fardada, é clara: postos altos não garantem segurança, nem em Moscou. Em silêncio, oficiais reavaliam rotinas, escoltas, endereços e deslocamentos diários.
Especialistas em segurança ouvidos por veículos locais apontam duas pistas principais para o atentado contra Alexeyev. Uma linha vê o ataque como parte de uma campanha externa, articulada por serviços de inteligência ligados à Ucrânia ou a aliados, com o objetivo de desorganizar a cadeia de comando russa e aumentar o custo político da guerra. Outra linha considera disputas internas, rivalidades em setores militares e de segurança e a crescente pressão por resultados no campo de batalha. Nenhuma dessas hipóteses é confirmada oficialmente.
Pressão sobre o alto comando e incerteza adiante
O ataque dentro de um prédio residencial aumenta a sensação de vulnerabilidade em Moscou. Se um tenente-general ligado ao núcleo duro do Estado-Maior pode ser atingido em casa, a mensagem se estende a outros oficiais, juízes militares e autoridades de segurança. A proteção de figuras-chave do aparato de guerra, já reforçada após o motim do grupo Wagner, deve passar por nova revisão, com ampliação de escoltas, mudança de rotas e possível realocação de famílias para áreas consideradas mais seguras.
No plano político, o episódio tende a alimentar discursos de endurecimento. Autoridades de segurança podem usar o atentado como argumento para ampliar poderes de vigilância interna, intensificar a caça a supostos sabotadores e acelerar processos contra suspeitos de colaboração com a Ucrânia. Qualquer vínculo do ataque com grupos estrangeiros, se comprovado, serve de combustível para a narrativa de cerco externo que o Kremlin mantém desde 2022.
Para a Ucrânia, a sucessão de ataques contra generais em Moscou tem efeito simbólico e operacional. O simples fato de o alto comando russo se sentir sob ameaça dificulta viagens, reuniões e inspeções em campo. Generais passam mais tempo protegidos em escritórios e bunkers, menos tempo em frentes de combate e zonas cinzentas. Essa mudança altera a forma como a guerra é comandada, mesmo sem grandes anúncios públicos.
A ausência de informações sobre o estado de saúde de Alexeyev abre espaço para especulações. Se sobreviver, o general pode voltar à linha de frente política e militar, embora possivelmente com rotina mais restrita. Se morrer, o vácuo em um cargo sensível reabre a disputa por influência entre diferentes alas das Forças Armadas e dos serviços de segurança. Em ambos os cenários, o atentado adiciona mais uma camada de incerteza a uma guerra que já ultrapassa 1.400 dias.
O inquérito por tentativa de homicídio segue sob sigilo em Moscou. Investigadores vasculham imagens de câmeras, rastreiam ligações telefônicas e movimentos no entorno do prédio na rodovia Volokolamskoye. Enquanto o Kremlin decide o que divulgar e o que reter, uma pergunta guia diplomatas, militares e analistas: o tiro contra Vladimir Alexeyev é mais um episódio isolado ou o sinal de que a disputa pelo rumo da guerra na Ucrânia está entrando em uma fase ainda mais perigosa dentro da própria Rússia?
