Gaspari critica plano de Conselho da Paz que eterniza Trump no poder
Elio Gaspari vê no chamado Conselho da Paz de Donald Trump, proposto para 2026 nos EUA, um ensaio de presidência vitalícia com poderes ilimitados. O jornalista alerta para o risco de um poder concentrado, potencialmente hereditário, que escapa a qualquer freio institucional.
Poder sem limite e sem prazo
O projeto do Conselho da Paz prevê Trump como presidente do organismo por tempo indeterminado, com poderes que não se submetem a prazos de mandato nem a controle externo. O desenho foge do padrão de conselhos consultivos, que costumam ter direções rotativas, mandatos claros e instâncias de revisão. No papel, o ex-presidente assume o comando permanente de uma estrutura que se apresenta como voltada à paz, mas concentra autoridade política e simbólica em torno de seu nome.
Gaspari enxerga nesse arranjo a tentativa de construir um poder paralelo, menos sujeito às regras que regem a Presidência dos Estados Unidos desde 1789. Ao contrário de um cargo eleito, renovado a cada quatro anos e limitado a dois mandatos pela 22ª Emenda, o Conselho nasce sem relógio. Para o jornalista, essa ausência de limite de tempo transforma a promessa de estabilidade em ameaça de perpetuação. A figura do presidente vitalício deixa de ser metáfora e passa a constar de um regulamento.
Família no centro e ecos de dinastia
A presença de Jared Kushner, genro e conselheiro próximo de Trump, como membro do Conselho reforça o traço hereditário que Gaspari aponta. Kushner acumula influência em temas sensíveis desde o primeiro governo do republicano, da política para o Oriente Médio a negócios imobiliários que cruzam fronteiras. Em Gaza, lembra o autor, ele “tem os dois pés fincados”, numa referência à sua participação em iniciativas apresentadas como planos de paz, mas criticadas por ignorar assimetrias de poder na região.
O assento garantido a Kushner no Conselho sugere não apenas confiança pessoal, mas a formação de um núcleo familiar como eixo da autoridade. Em vez de um colegiado plural, com especialistas de perfis variados, a estrutura se fecha em torno de um sobrenome. A proximidade de laços de sangue e casamento cria a imagem de uma sucessão informal. Falta apenas, como ironiza Gaspari, carimbar a hereditariedade no estatuto. A lógica de clã entra, assim, numa instituição que se pretende instrumento de política global.
Diplomacia em zigue-zague e o recado de Talleyrand
O alerta de Gaspari ganha força quando deslocado para o terreno da diplomacia, onde gestos públicos costumam encobrir negociações longas e ambíguas. Ele recorre ao francês Charles-Maurice de Talleyrand, figura central da diplomacia europeia entre 1754 e 1838, para decifrar promessas rápidas. “Um diplomata que diz ‘sim’ quer dizer ‘talvez’. Um diplomata que diz ‘talvez’, quer dizer ‘não’. E um diplomata que diz ‘não’, diplomata não é”, cita o colunista, ao lembrar o acordo entre Mercosul e União Europeia.
O pacto, apressadamente festejado em Brasília, enfrenta desde então uma sucessão de “lombadas” políticas e ambientais. Líderes europeus vinculam a ratificação a metas climáticas, enquanto governos sul-americanos calculam ganhos e perdas para setores como o agronegócio e a indústria automotiva. No papel, o acordo promete ampliar mercados e reduzir tarifas ao longo de uma década. Na prática, permanece preso a condicionantes internas e externas, mostrando como o “sim” diplomático pode escorregar para o “talvez” e, por fim, para o “não”.
Da mesa de negociação ao corredor da imigração
O texto de Gaspari sai da sala de reuniões e entra em um corredor frio de Minnesota. É ali que a imagem de Liam Ramos, 5, detido por agentes da imigração americana ao sair da escola com o pai, expõe o outro lado do poder concentrado. O menino aparece de touca, protegendo-se do inverno do Meio-Oeste, enquanto é conduzido pela sigla que mete medo em imigrantes: ICE, a polícia de imigração e alfândega dos EUA.
Um vizinho tenta intervir e oferece abrigo para a criança. O apelo não sensibiliza os agentes. Liam é levado a horas de voo dali, para um centro no Texas, estado que se torna símbolo de políticas migratórias duras desde 2018. O trajeto físico, de norte a sul, traduz a distância entre as decisões tomadas em gabinetes em Washington e a experiência concreta de quem cruza fronteiras em busca de trabalho, segurança ou reunião familiar.
Imagens que atravessam décadas
A fotografia de Liam ecoa outra, registrada em 1943: o garoto de boné, braços erguidos, deixando um prédio do gueto de Varsóvia sob a mira de soldados nazistas. A criança polonesa, de idade semelhante, permanece sem identificação segura, apesar de diversas tentativas ao longo das décadas. A foto ocupa lugar central nos arquivos do Holocausto e sintetiza, em um quadro, a violência de um Estado que decidiu exterminar parte de sua população.
Gaspari se arrisca ao aproximar as duas cenas, mas deixa claro o ponto de contato: a desproteção absoluta da criança diante da autoridade armada. “Em tempo: os judeus do gueto de Varsóvia eram exterminados”, escreve, para lembrar o destino final dos retratados em 1943. No caso de Liam, não há câmaras de gás, mas há um aparato que trata um menino de cinco anos como peça de um sistema de deportações em massa. A comparação não mistura realidades históricas, e sim sublinha a responsabilidade de quem administra o presente sabendo o que o século 20 produziu.
Limites ao poder e a pergunta que sobra
A análise produzida em 24 de janeiro de 2026, quase oito décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, chega num momento em que democracias testam seus próprios freios. Nos Estados Unidos, cortes supremas, Congressos divididos e eleições disputadas convivem com tentativas de driblar regras por meio de conselhos, fundos e órgãos com nomes virtuosos. O Conselho da Paz se insere nessa zona cinzenta, entre o marketing político e o desenho institucional com efeitos duradouros.
Os desdobramentos ainda são abertos. Se o Conselho prosperar com Trump à frente por tempo indefinido e Kushner como herdeiro em potencial, a fronteira entre governo eleito e poder privado ficará mais borrada. A fotografia de Liam, que começa a circular em jornais e redes em 2026, tende a se somar ao arquivo de imagens que cobram, silenciosamente, responsabilidade de quem exerce autoridade hoje. A pergunta que fica, no texto de Gaspari, não é apenas quem manda, mas por quanto tempo e a que custo humano.
