Esportes

Gallardo anuncia saída do River Plate e encerra segunda era sem títulos

Marcelo Gallardo anuncia nesta segunda-feira (24) que deixa o comando técnico do River Plate. O último jogo da segunda passagem pelo clube ocorre na quinta-feira.

Um adeus em tom de gratidão e frustração

O treinador escolhe as redes sociais do River para comunicar a decisão. Em um vídeo de pouco mais de dois minutos, fala em dor, gratidão e amor recíproco ao clube. O anúncio encerra um retorno iniciado em 2024, que termina sem títulos e distante do padrão que ele próprio criou entre 2014 e 2022.

Gallardo dirige a mensagem diretamente aos torcedores. Diz que tenta ser breve para não ser tomado pela emoção e pela dor de anunciar o adeus. “Quinta-feira será a minha última partida”, afirma, ainda sem citar o sucessor. Ele admite que o plano traçado para essa nova etapa não se cumpre. “Claramente as coisas não saíram como havíamos projetado”, reconhece.

O treinador também assume o peso esportivo do fracasso recente. “Sinto dor na alma por não conseguir cumprir os objetivos”, diz. Em seguida, volta à gratidão, tema que repete mais de uma vez. “Apenas palavras de agradecimento, principalmente a este enorme clube e à sua torcida, pelo amor incondicional durante todos esses anos”, afirma, lembrando que o apoio se mantém até mesmo nos momentos mais delicados.

No vídeo, Gallardo faz questão de citar a comissão técnica. “Quero simplesmente agradecer também àqueles que realmente acreditaram em mim, a toda a minha comissão técnica, por representar esta enorme instituição, com tudo o que isso envolve”, prossegue. Ele evita apontar culpados específicos ou comentar decisões da diretoria, num recado que preserva o ambiente às vésperas da despedida.

Do auge continental ao retorno sem troféus

A saída marca o fim de um ciclo que começa há mais de uma década e muda o patamar recente do River Plate. Entre 2014 e 2022, Gallardo transforma o time em protagonista da América do Sul. Em oito anos, empilha conquistas: duas Libertadores, uma Copa Sul-Americana, três Recopas, um Campeonato Argentino, duas Supercopas Argentinas, três Copas da Argentina e o Trofeo de Campeones.

O período vitorioso consolida o treinador como um dos principais nomes da história do clube. As campanhas continentais contra rivais tradicionais, como Boca Juniors e brasileiros de ponta, colocam o River entre as referências técnicas do continente. Em 2018, por exemplo, o título da Libertadores em final superclássica em Madrid projeta Gallardo mundialmente e reforça a imagem de treinador capaz de remodelar elencos sem perder competitividade.

O retorno em 2024 vem carregado por essa memória. A expectativa é de continuidade, com a manutenção de um modelo de jogo agressivo, posse de bola alta e protagonismo em mata-matas. A realidade é mais dura. Em duas temporadas completas, o River não levanta taças e vê rivais tomarem espaço no cenário local e continental. Eliminações precoces em torneios internacionais e oscilações no campeonato argentino minam a confiança em campo e nas arquibancadas.

Os números da segunda passagem não dialogam com a primeira era. O River de Gallardo volta a ter dificuldades em decisões, falha em transformar posse em vitória e não encontra respostas rápidas para a queda de rendimento de peças-chave. Por trás das derrotas, pesam também mudanças de elenco, saídas de lideranças e desafios financeiros, comuns ao futebol argentino nos últimos anos.

Gallardo não entra em detalhes sobre esses bastidores no anúncio. Prefere olhar para o tamanho do clube. “Apenas meu amor recíproco a todos os torcedores”, declara. Em seguida, projeta o futuro sem ele no banco. “Espero que, de todo o coração, esta instituição, que cresceu enormemente nos últimos anos, em breve possa alcançar bons resultados futebolísticos para engrandecer ainda mais o que o River representa como instituição no mundo”, afirma.

Impacto no vestiário, na arquibancada e no mercado

A despedida mexe com a estrutura esportiva do River em um intervalo de poucos dias. A quinta-feira deixa de ser apenas data de jogo e vira marco de transição. Jogadores que cresceram sob o comando de Gallardo precisam se adaptar a novas ideias táticas e a uma rotina diferente no dia a dia do clube. A mudança chega em meio a negociações abertas, decisões sobre renovações e planejamento de janela de transferências.

Para a diretoria, a saída força uma aceleração nos planos. A escolha do novo técnico não é apenas uma questão de estilo, mas de identidade. O River busca alguém capaz de administrar a herança de um treinador que, em sua primeira era, empilhou mais de dez títulos e redefiniu parâmetros internos de desempenho. Torcedores e imprensa local já especulam nomes, de apostas jovens a técnicos com histórico em seleções e em clubes europeus.

No curto prazo, o clube precisa conter o impacto emocional. Gallardo é mais do que um treinador para uma parte da arquibancada. É símbolo de um dos períodos mais vencedores desde a virada do século. A saída sem troféus recentes não apaga esse histórico, mas abre espaço para leituras divergentes. Uma ala vê o adeus como passo necessário para renovar ideias. Outra teme que o River volte a oscilar em busca de um novo projeto sólido.

O efeito ultrapassa o Monumental de Núñez. No futebol sul-americano, Gallardo se torna imediatamente um dos nomes mais cobiçados do mercado. Seleções em processo de reconstrução e clubes com ambição continental observam de perto os próximos movimentos. Em um cenário em que treinadores de ponta costumam ser disputados por ligas da Europa, a presença de um técnico argentino disponível, com histórico de títulos e experiência de pressão extrema, chama atenção.

Transição no River e futuro de Gallardo

O River entra na semana com duas frentes urgentes. De um lado, precisa preparar o jogo de despedida, que tende a transformar o Monumental em palco de tributo a Gallardo. De outro, acelera a busca por um novo comandante capaz de assumir um elenco que já conhece o peso de disputar títulos sul-americanos com regularidade.

Gallardo encerra o vídeo sem pistas claras sobre o próximo passo. Fala em amor, dor e gratidão, mas evita comentários sobre propostas ou planos imediatos. A partir de sexta-feira, estará oficialmente livre no mercado, após quase uma década e meia somada de vínculo com o River como jogador e treinador. O clube, por sua vez, terá de provar que o crescimento institucional destacado pelo técnico pode se sustentar em campo sem a figura que personificou a era recente mais vitoriosa. A resposta virá na escolha do sucessor e na capacidade de transformar essa ruptura em novo ponto de partida.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *