Ciencia e Tecnologia

Futurista alerta: IA ameaça nossa capacidade de pensar, diz especialista

A futurista Monica Magalhaes defende, em entrevista publicada neste 7 de março de 2026, que líderes planejem a partir do futuro desejado e não do passado. Ela vê risco cognitivo no uso acrítico da inteligência artificial e cobra alfabetização em futuros como habilidade estratégica para empresas e profissionais.

Lideranças presas ao retrovisor em ciclos cada vez mais curtos

Em São Paulo, Monica observa um mundo “alucinado” por lançamentos tecnológicos e nota que inovação, para muita gente, ainda se resume a dominar novas ferramentas. Ela considera essa visão estreita diante de ciclos de inovação cada vez mais curtos, que deixam pouco tempo para implementar ações de impacto real. “A gente tem um grande desafio de conseguir pensar a longo prazo, fora da urgência do dia a dia”, afirma.

Monica, especialista em futurismo, foresight e computação quântica, trabalha com executivos que costumam olhar apenas o histórico da empresa para desenhar o próximo plano estratégico. Ela inverte a lógica. Propõe que líderes partam da imagem de futuro que desejam para a organização e só então tracem as decisões necessárias no presente. “Por que a gente não parte do futuro para o presente? Por que a gente não desenha aquilo que queremos ser e tomamos as decisões para traçar esse caminho até lá?”, provoca.

Essa abordagem ganha vitrine no São Paulo Innovation Week, evento que o Estadão realiza em maio e que deve atrair cerca de 90 mil visitantes com palestras, debates e experiências sobre tecnologia e negócios. Monica é um dos destaques da programação e pretende usar o palco para defender uma mudança de cultura nas empresas brasileiras, hoje mais focadas em resultado imediato do que em preparo para rupturas tecnológicas.

Na prática, ela leva para conselhos e diretórios conceitos da chamada alfabetização para futuros, adaptação em português de “futures literacy”, conceito difundido por redes ligadas à Unesco. A ideia é treinar líderes para imaginar diferentes cenários e usar essas imagens como ferramenta de decisão. “Os ciclos de inovação dentro da sociedade são cada vez mais curtos. Há cada vez menos tempo de implementar ações de impacto”, diz.

Alfabetização de futuros e o risco de terceirizar o pensamento

O trabalho de Monica combina pesquisa de tendências sociais, comportamentais e tecnológicas com métodos de construção de cenários. O futurismo, explica, atua em horizontes mais longos e ajuda a desenhar imagens de mudanças profundas. O foresight, termo em inglês para análise estruturada de cenários, opera em prazos mais curtos e dialoga diretamente com decisões estratégicas de três a dez anos. “Ambos trabalham a habilidade da liderança de pensamento de longo prazo”, resume.

Ela costuma iniciar workshops pedindo que executivos imaginem a empresa em 2035 ou 2040, sem as restrições de orçamento, equipe ou burocracia que hoje travam projetos internos. “Ali, nós estamos livres para sonhar. Existem muitas barreiras para a inovação no universo corporativo, como falta de recursos, de pessoas. Essas barreiras impedem que a gente imagine cenários melhores para a empresa”, diz. Ao suspender temporariamente esses limites, o exercício abre espaço para metas mais ambiciosas e expõe o descompasso entre a visão oficial e o futuro desejado por quem comanda.

Esse debate ganha outra camada quando entra em cena a inteligência artificial generativa, já presente em assistentes pessoais, plataformas de atendimento, ferramentas de escrita e softwares de análise de dados. Monica admite que não se imagina mais sem seus próprios assistentes de IA, mas faz um alerta duro. “Você delega ou terceiriza uma habilidade que antes era humana. Será que todo mundo está percebendo que está delegando sua capacidade cognitiva?”, questiona.

Para ela, a IA impacta diretamente a forma como o cérebro se exercita. Se antes profissionais precisavam estruturar um texto, organizar um raciocínio lógico ou testar hipóteses sozinhos, agora muitos terceirizam essas etapas para algoritmos treinados em grandes bases de dados. “O cérebro é um músculo, você pode treiná-lo para correr uma maratona ou 5 km. Não acredito que o caminho seja bloquear a tecnologia. É muito mais sobre aprender a usar a tecnologia a nosso favor”, afirma.

Monica evita falar em substituição generalizada de empregos pela IA e prefere o termo colaboração. Ela reconhece que tarefas isoladas já somem de rotinas de escritório, linhas de produção e serviços financeiros, mas insiste que a figura humana continua central. “Tarefas estão sendo substituídas, mas não o humano. Essa substituição coloca medo nas pessoas. Medo de perder o emprego, de ser substituído. A gente precisa começar a desconstruir essas barreiras”, diz.

Na avaliação dela, o maior risco profissional não está em ser trocado por uma máquina, e sim em ignorar a ferramenta. Conhecer, testar e entender limites e vieses dos sistemas se torna, segundo a futurista, uma habilidade mínima para se manter competitivo. Em um mercado em que grandes empresas já amarram bônus a ganhos de eficiência impulsionados por IA, a tendência é que esse conhecimento deixe de ser diferencial e passe a requisito básico.

Impacto no trabalho, inclusão digital e governança da inovação

Ao projetar os próximos anos, Monica vê a inteligência artificial saindo das telas e ocupando o espaço físico em humanoides, braços mecânicos, veículos autônomos e dispositivos domésticos. Ela lembra que muitas dessas imagens surgem primeiro em filmes de ficção científica de Hollywood e, anos depois, aparecem em linhas de produção e campanhas de marketing. “Muitos produtores de Hollywood são futuristas no sentido de imaginar cenários de futuro”, observa.

Se os robôs em formato humano ainda parecem distantes da rotina brasileira, outra forma de convívio com algoritmos já está consolidada. “Os companheiros de IA, não”, diz, ao comentar os chamados AI companions, assistentes digitais personalizados que respondem por texto, áudio ou avatar. “Com todos esses assistentes, todos nós já temos nosso companheiro de IA. Ele já está integrado ao nosso tecido social e nós nem percebemos.”

Essa integração levanta questões de inclusão e desigualdade. A história mostra que novas tecnologias tendem a baratear com o tempo, mas, para Monica, isso não garante acesso pleno no mercado de trabalho. Ela cita o jovem que conclui o ensino médio e tenta o primeiro emprego. Quanto mais empresas exigem domínio de ferramentas avançadas, maior a barreira para quem não teve formação técnica ou acesso a cursos especializados. “Quanto maior o gap tecnológico, mais difícil é arrumar o primeiro emprego. Isso me preocupa. Não o acesso aos dispositivos, mas ao espaço de trabalho”, afirma.

Ela também destaca diferenças regionais na forma de inovar. Os Estados Unidos, puxados pelo Vale do Silício, seguem como referência global em pesquisa, capital de risco e cultura de patentes dentro das universidades. A China, diz, deixa de ser vista apenas como país que copia tecnologias estrangeiras e passa a investir pesado em áreas como computação quântica e energia sustentável, com forte colaboração entre empresas e academia. A Europa aparece como polo regulatório, ao tentar impor limites ao uso de dados e da IA em setores sensíveis.

O Brasil, nesse cenário, continua majoritariamente como consumidor dessas inovações. Grandes empresas importam soluções prontas e adaptam processos internos, mas ainda são raros os projetos que nascem aqui e ganham escala global. Para reverter esse quadro, Monica defende que cada novo projeto em tecnologias emergentes tenha metas claras ligadas à agenda ESG, sigla para ambiental, social e governança. “A inclusão não vai acontecer organicamente. Cada líder tem de olhar para esses projetos com tecnologias emergentes e atuar de forma direcionada”, diz.

Futuros possíveis, liderança preparada e o desafio de não emburrecer

Ao falar sobre vocação profissional, Monica lembra que muitos futuristas vieram de áreas como antropologia, filosofia e ciências sociais. O ponto em comum, afirma, é tratar o futuro como objeto de pesquisa, não como adivinhação. As sociedades sempre se guiam por imagens de futuro, e ignorar essa dimensão deixa decisões estratégicas na mão do improviso. “Ao mesmo tempo que assusta, o futuro inspira”, resume.

Ela acredita que a tecnologia hoje ainda serve, em grande parte, para fazer pessoas consumirem mais, guiadas por algoritmos que prolongam o tempo de tela e personalizam ofertas. Mas projeta uma virada gradual para aplicações com impacto coletivo mais claro. Menciona, por exemplo, sistemas capazes de identificar risco de violência doméstica a partir de padrões de conversas e gestos, ou algoritmos que antecipem a probabilidade de uma doença crônica anos antes dos primeiros sintomas. “Em algum momento, essa tecnologia vai ser mais direcionada e a gente vai colher mais frutos de algo que seja para o lado humano, para a sociedade e menos em benefício dos negócios”, diz.

A fala de Monica ecoa alertas de outros pensadores. O físico brasileiro Marcelo Gleiser já afirmou que a sociedade corre o risco de “emburrecer” se aceitar sem questionamento as histórias produzidas por sistemas de IA. Na mesma direção, ela insiste em que delegar raciocínio, memória e criatividade aos algoritmos pode enfraquecer a capacidade crítica, justamente no momento em que decisões complexas se tornam rotina para governos e empresas.

Ao entrar no palco do São Paulo Innovation Week, em maio, Monica pretende tensionar a plateia de executivos, investidores e gestores públicos com uma pergunta simples: quem está, de fato, pensando o futuro das organizações? Para a futurista, preparar-se para ciclos de inovação cada vez mais rápidos não significa apenas adotar a ferramenta da moda, mas treinar pessoas para imaginar cenários, avaliar riscos e decidir com consciência. “Todas as sociedades são guiadas por imagens de futuro para se inspirar e caminhar naquela direção”, afirma.

O recado chega em um momento em que o Brasil discute marcos regulatórios para a IA, tenta atrair investimentos em pesquisa e busca reduzir desigualdades digitais. A forma como líderes usam hoje seus “companheiros de IA” e desenham estratégias para os próximos dez anos pode definir se o País apenas consome tecnologias importadas ou se ocupa papel mais ativo na criação desses futuros. A pergunta de Monica permanece em aberto: estamos mesmo preparados para usar a IA sem delegar demais nossa própria capacidade de pensar?

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