Funcionária da Vivara é morta a facadas em shopping de São Bernardo
Uma funcionária da joalheria Vivara é morta a facadas pelo ex-companheiro dentro do Golden Square Shopping, em São Bernardo do Campo, nesta quinta-feira (26). O homem invade a loja, faz a mulher refém e acaba baleado por policiais. O caso é tratado como feminicídio e expõe falhas na proteção a vítimas de violência doméstica.
Feminicídio em plena tarde em shopping lotado
O ataque acontece em plena tarde, em um dos principais centros comerciais do ABC Paulista. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública (SSP), o agressor entra na joalheria Vivara armado com uma faca e uma arma de airsoft, semelhante a uma pistola. Ele rende a ex-companheira diante de colegas de trabalho e clientes.
A mulher já tinha registrado episódios anteriores de violência e possuía medida protetiva contra o ex-companheiro, segundo a pasta. A medida, prevista na Lei Maria da Penha, deveria impedir a aproximação do agressor, mas não evita a nova investida. Dentro da loja, ele a faz refém e desfere golpes de faca, incluindo um no pescoço, que se revela fatal.
Equipes da Polícia Militar e da Polícia Civil são acionadas e chegam ao shopping enquanto o homem ainda mantém a funcionária sob seu controle. Agentes tentam negociar a rendição. A SSP afirma que, em determinado momento, o agressor aponta a arma em direção aos policiais. Diante da ameaça, os agentes atiram e o alvejam.
Nenhum policial se fere. A vítima e o autor são socorridos em estado grave por equipes de resgate e pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). A funcionária não resiste. O homem é levado sob custódia para o Hospital Estadual Mário Covas, em Santo André, onde permanece internado, segundo informações preliminares da polícia.
Medida protetiva falha e violência de gênero se repete
O crime reforça um enredo recorrente na violência de gênero no país: mulheres que denunciam, conseguem medida protetiva, mas continuam em risco. A funcionária da Vivara formaliza os episódios de agressão e, ainda assim, volta a ser alvo do ex-companheiro, agora em um ambiente público e teoricamente seguro, dentro de um shopping center com câmeras, seguranças privados e grande circulação de pessoas.
Especialistas em violência doméstica ouvidos rotineiramente por órgãos de imprensa apontam que a medida protetiva, por si só, não basta. O instrumento judicial exige monitoramento constante do agressor, resposta rápida a qualquer descumprimento e rede de apoio para a vítima. Quando uma mulher é morta sob proteção formal do Estado, o caso passa a ser também um retrato de falha sistêmica.
A SSP registra a ocorrência como feminicídio, crime incluído no Código Penal em 2015 para diferenciar homicídios motivados por ódio, menosprezo ou discriminação contra a condição de mulher. Em 2024, o Brasil supera a marca de mais de 1.400 feminicídios, segundo dados de secretarias estaduais compilados por organizações de pesquisa, o que representa em média uma mulher morta a cada seis horas.
Em nota, o Golden Square Shopping lamenta o caso, classifica o episódio como feminicídio e afirma que presta apoio ao lojista e à família da vítima, além de colaborar com as autoridades. “Estamos comprometidos em oferecer todo suporte necessário aos envolvidos e em auxiliar integralmente nas investigações”, informa o centro de compras.
A Vivara também se manifesta. Em nota enviada à CNN Brasil, a rede de joalherias confirma o episódio e lamenta a morte da funcionária: “Neste momento de dor imensurável, nossa prioridade absoluta é prestar todo o apoio e solidariedade à família, aos amigos e aos colegas de equipe que compartilhavam o dia a dia com ela. Estamos oferecendo suporte psicológico e assistência integral a todos os envolvidos diretamente”.
Pressão por respostas e revisão de políticas de proteção
O caso provoca reação imediata de clientes, moradores do ABC e grupos de defesa dos direitos das mulheres. Nas redes sociais, relatos de quem estava no shopping descrevem correria, lojas fechando às pressas e pessoas se abrigando nos corredores. A notícia da morte reforça a sensação de vulnerabilidade de mulheres que, mesmo após procurar a polícia e obter medida protetiva, seguem expostas aos agressores.
A Delegacia Especializada em Investigações Criminais (Deic) de São Bernardo do Campo assume o inquérito. Investigadores vão analisar imagens de câmeras de segurança, histórico de boletins de ocorrência e eventuais pedidos anteriores da vítima por ajuda. A apuração mira não só a responsabilização criminal do agressor, mas também possíveis falhas na rede de proteção, do Judiciário aos órgãos de segurança.
Organizações feministas e coletivos locais já cobram respostas. A demanda inclui maior rigor no acompanhamento de homens que descumprem medidas protetivas, ampliação do monitoramento eletrônico, ampliação de equipes especializadas e oferta de atendimento psicológico e jurídico contínuo às vítimas. A morte em um shopping movimentado, diante de testemunhas, funciona como um alerta de que a violência doméstica transborda os limites da casa e invade espaços públicos.
O shopping e a joalheria anunciam apoio psicológico a funcionários e familiares, em uma tentativa de conter o abalo interno e responder à comoção pública. A médio prazo, a pressão recai sobre o poder público, que volta a ser cobrado a transformar estatísticas e discursos em proteção concreta. O inquérito da Deic deve apontar, nas próximas semanas, se houve omissões no acompanhamento do caso e quais medidas poderiam ter evitado mais uma morte anunciada.
Enquanto a investigação avança, permanece a pergunta que perpassa outros feminicídios recentes em São Paulo: o que falta para que uma medida protetiva deixe de ser apenas um papel e se torne, de fato, uma garantia mínima de vida?
