Fuga em massa de 1,5 mil presos do Estado Islâmico acende alerta na Síria
Cerca de 1,5 mil integrantes do grupo terrorista Estado Islâmico fogem, nesta segunda-feira, 19 de janeiro de 2026, de uma prisão em Shaddadi, no leste da Síria. A evasão ocorre em meio a intensos confrontos entre forças ligadas ao governo de Damasco e as Forças Democráticas da Síria (FDS), grupo apoiado por curdos.
Confronto em área estratégica expõe fragilidade de acordo
A fuga em massa começa depois de um ataque de grupos armados próximos ao regime sírio nas imediações da prisão de al-Shaddadi, que abriga milhares de detentos do Estado Islâmico. Em meio ao tiroteio, parte dos presos rompe barreiras internas e deixa o complexo, segundo a agência Rudaw, ligada à cobertura das áreas curdas.
O comando das FDS confirma o episódio e fala em uma “situação de segurança extremamente perigosa”, com combates em andamento ao redor e dentro da unidade prisional. O Exército da Síria admite a fuga de “um número indeterminado de detentos”, mas acusa as forças curdas de terem “permitido” a saída dos integrantes do grupo terrorista, sem apresentar provas.
A troca de acusações ocorre menos de 24 horas depois do anúncio de um acordo de 14 pontos entre o presidente interino sírio, Ahmed al-Sharaa, e o comandante das FDS, Mazloum Abdi. O entendimento, divulgado no domingo, 18, promete interromper “imediatamente” a violência no nordeste do país e integrar as áreas administradas pelos curdos às instituições do Estado.
O texto prevê a incorporação das FDS e de sua força de segurança interna, a Asayish, ao Exército e ao Ministério do Interior sírio, além da devolução das províncias de Deir ez-Zor e Raqqa ao controle de Damasco. Uma das cláusulas mais sensíveis transfere justamente ao governo central a responsabilidade pelos milhares de presos do Estado Islâmico hoje mantidos em cadeias curdas.
A ofensiva em Shaddadi, nessa primeira segunda-feira após o anúncio, funciona na prática como um teste de fogo para o acordo ainda fresco. Em vez de esfriar o conflito, o avanço de grupos armados ligados ao regime sobre posições curdas reabre frentes de batalha e expõe o grau de desconfiança entre as partes.
Mortes, prisões vulneráveis e risco imediato de reorganização jihadista
As FDS relatam que “forças aliadas ao regime de Damasco” também atacam outra prisão sob controle curdo, em Al-Aqtan, na província de Raqqa. Nessa ação, nove combatentes curdos morrem e outros 20 ficam feridos, de acordo com o balanço inicial do comando da aliança.
As unidades prisionais administradas por curdos concentram milhares de integrantes do Estado Islâmico detidos desde a queda do chamado califado, entre 2017 e 2019. Muitos deles são veteranos de combate, com experiência em guerra irregular, redes de financiamento e contatos no exterior. A libertação repentina de cerca de 1,5 mil presos em Shaddadi representa, na avaliação de analistas de segurança, uma ameaça direta e imediata à região leste da Síria.
A possibilidade de rearticulação de células jihadistas amplia o temor de novos ataques em série contra alvos civis e militares. A fuga soma-se à persistente fragilidade das fronteiras com o Iraque e à presença de áreas de difícil acesso no deserto sírio, usadas historicamente por grupos armados como rota de evasão e esconderijo.
Os curdos, que somam mais de 35 milhões de pessoas dispersas entre Síria, Turquia, Iraque e Irã, sustentam há anos a linha de frente contra o Estado Islâmico com apoio dos Estados Unidos. Graças a essa cooperação, as FDS assumiram o controle de faixas importantes do território sírio, incluindo zonas petrolíferas e rotas estratégicas no nordeste do país.
A chegada de Ahmed al-Sharaa ao poder em janeiro de 2025 altera o equilíbrio dessa equação. O novo presidente tenta, ao mesmo tempo, reintegrar as áreas curdas à estrutura estatal, manter um canal com Washington e reafirmar a autoridade de Damasco sobre o conjunto do território sírio. A fuga em Shaddadi pressiona esse triplo movimento e coloca em xeque a capacidade do governo de garantir segurança justamente no momento em que assume formalmente a responsabilidade pelos detentos do Estado Islâmico.
Pressão internacional e futuro incerto do acordo entre Damasco e FDS
O gabinete de al-Sharaa informa que o presidente interino conversa por telefone, nesta segunda, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo comunicado oficial, os dois líderes reforçam “a importância de preservar a unidade e a independência do território sírio” e “a necessidade de garantir os direitos e a proteção do povo curdo”, além de concordarem em manter a cooperação contra o Estado Islâmico.
O aceno público a Washington tenta sinalizar que o governo sírio ainda aposta em coordenação internacional no combate ao terrorismo, apesar do clima de confronto com as FDS no terreno. Para os curdos, a fuga em Shaddadi e os ataques a outras prisões funcionam como alerta de que a transição do controle carcerário para o Estado pode significar, na prática, mais vulnerabilidade e menos garantias.
O comandante Mazloum Abdi, em vídeo divulgado no domingo, afirma que as FDS seguem determinadas a proteger as “conquistas” da região nordeste, mesmo diante da “guerra” imposta às suas forças. Nesta segunda, ele chega a Damasco para uma nova rodada de negociações com al-Sharaa, em meio ao barulho das armas e à urgência em localizar os fugitivos.
Governos da região acompanham com preocupação a possibilidade de os presos em fuga cruzarem fronteiras porosas e reacenderem focos de violência em países vizinhos. A tensão se reflete também em chancelerias europeias, que temem o retorno de combatentes estrangeiros às rotas clandestinas rumo ao continente.
As próximas horas tendem a ser decisivas para medir não apenas o alcance real da fuga, mas também a disposição de Damasco e das FDS em sustentar o acordo anunciado no fim de semana. A recaptura ou não dos fugitivos, o desenho de uma nova força conjunta de segurança e o grau de envolvimento dos Estados Unidos e de outros atores internacionais vão indicar se o episódio em Shaddadi é um ponto fora da curva ou o prenúncio de uma nova fase de descontrole na guerra síria.
