Fóssil gigante revela ramo extinto de vida que não é planta nem fungo
Um fóssil gigante encontrado na Escócia muda a história da vida na Terra. Pesquisadores mostram que o enigmático Prototaxites pertence a um ramo evolutivo extinto, que não é nem planta nem fungo. O estudo sai nesta quarta-feira (21) na revista Science Advances.
Um gigante esquecido no início da vida terrestre
O Prototaxites intriga cientistas há pelo menos 165 anos. Desde o século 19, paleontólogos discutem se aquelas estruturas cilíndricas fossilizadas, que podiam chegar a oito metros de altura, seriam árvores primitivas, fungos colossais ou algo ainda sem nome. A nova análise, liderada por pesquisadores da Universidade de Edimburgo e dos Museus Nacionais da Escócia, redefine o enigma.
O fóssil estudado vem do sílex de Rhynie, um depósito de rocha sedimentar excepcionalmente preservado no nordeste da Escócia, próximo à aldeia de Rhynie. Ali, há mais de 400 milhões de anos, um ambiente pantanoso e vulcânico registrou em detalhes algumas das primeiras comunidades de vida em terra firme. Entre plantas baixas e pequenos animais, o Prototaxites se ergue como um monólito estranho, o maior organismo terrestre conhecido daquele período.
As rochas datam de cerca de 410 milhões de anos, quando continentes ainda formavam um mosaico diferente do atual e os primeiros ecossistemas terrestres engatinhavam. Naquele cenário, um organismo com até oito metros de altura domina a paisagem, sem raízes, folhas ou galhos como os de uma árvore moderna, e sem a organização típica de um fungo. A dúvida sobre sua identidade acompanha gerações de pesquisadores.
A equipe escocesa combina agora técnicas de análise química e anatômica de alta resolução para rever o caso. Microscópios revelam a arquitetura interna do fóssil, enquanto instrumentos de geoquímica rastreiam a composição de moléculas preservadas na rocha. O cruzamento desses dados leva a uma conclusão incômoda para as antigas classificações: o Prototaxites não cabe em nenhum grupo conhecido de plantas ou fungos.
“É realmente empolgante dar um grande passo adiante no debate sobre os Prototaxites, que já dura cerca de 165 anos”, afirma a paleobotânica Sandra Sandy Hetherington, coautora principal do estudo, pesquisadora associada dos Museus Nacionais da Escócia e professora sênior da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Edimburgo. Para ela, o organismo representa “vida, mas não como a conhecemos hoje”.
Um ramo da árvore da vida que não chega até hoje
As evidências apontam que o Prototaxites pertence a uma linhagem eucariótica completamente extinta. Em termos simples, trata-se de um tipo de ser vivo com células complexas, dotadas de núcleo, mas sem parentes vivos hoje. Não há equivalente moderno em florestas, fungos ou algas. É como encontrar um ramo inteiro da árvore da vida que foi cortado há centenas de milhões de anos.
Segundo o estudo, essa linhagem desaparece há cerca de 360 milhões de anos, depois de ter dominado paisagens terrestres por dezenas de milhões de anos. Nesse intervalo, o planeta passa por mudanças profundas: plantas vasculares ganham porte, raízes se aprofundam no solo, animais começam a explorar a terra firme com mais regularidade. O Prototaxites, que já foi o maior organismo em terra, perde espaço e some dos registros.
“Nosso estudo, que combina a análise da química e da anatomia deste fóssil, demonstra que Prototaxites não pode ser classificado dentro do grupo dos fungos”, reforça o curador de Ciências Naturais dos Museus Nacionais da Escócia, Nick Fraser. Para ele, o organismo representa “um experimento independente que a vida realizou na construção de organismos grandes e complexos, do qual só podemos ter conhecimento por meio de fósseis excepcionalmente preservados”.
A conclusão desafia livros de biologia que, por décadas, repetem a hipótese do “fungo gigante”. A nova interpretação obriga cientistas a redesenhar diagramas de evolução de plantas e fungos do período Devoniano, entre 419 milhões e 359 milhões de anos atrás. O Prototaxites não é um elo entre grupos atuais, e sim a prova de que outras rotas de complexidade existiram e desapareceram sem deixar descendentes.
O fóssil analisado agora é incorporado à coleção do Museu Nacional da Escócia, em Edimburgo, como peça-chave para pesquisas futuras. Ao lado de outros exemplares do sílex de Rhynie, ele ajuda a reconstruir em três dimensões um ecossistema quase intocado pelo tempo. Cada corte de rocha, cada fatia de milímetros, revela detalhes microscópicos de tecidos e estruturas internas que sustentam a nova leitura.
Como a descoberta mexe com a ciência e o ensino
A identificação de um ramo de vida complexo sem representantes atuais muda a forma como a ciência entende a diversidade do passado. A ideia de que plantas e fungos seriam os únicos protagonistas da colonização da terra firme perde força. O Prototaxites passa a ocupar um papel próprio, como ator principal de uma história que termina antes do surgimento das grandes florestas modernas.
Na prática, a descoberta abre uma frente de revisão em livros didáticos e materiais de divulgação científica. Diagramas que mostram a transição da vida da água para a terra terão de considerar que existiram gigantes sem herdeiros, invisíveis nos ecossistemas atuais. Para professores, o achado oferece um exemplo concreto de como a ciência muda com novas evidências, mesmo em temas que parecem consolidados há mais de um século.
Laboratórios de paleontologia e biologia evolutiva ganham também um novo foco de investigação. Se um ramo inteiro de organismos eucarióticos de grande porte desaparece sem deixar descendentes, outros podem ter existido em ambientes menos preservados. Depósitos como o sílex de Rhynie, com fósseis tridimensionais preservados em detalhes, tornam-se ainda mais valiosos em campanhas de campo e projetos de financiamento.
O impacto alcança discussões mais amplas sobre a própria definição de grandes grupos de seres vivos. Classificações tradicionais, baseadas em características anatômicas e químicas, precisam acomodar organismos que escapam aos rótulos clássicos. A fronteira entre o que se chama de planta, fungo ou protista fica mais difusa quando entra em cena uma linhagem inteira que não se encaixa em nenhuma dessas categorias.
Para o público em geral, a imagem de um “tronco” solitário de até oito metros, erguido há 410 milhões de anos em uma paisagem de plantas rasteiras e pequenos invertebrados, ajuda a dimensionar o que está em jogo. A Terra já abriga formas de vida que não têm paralelo hoje, e que podem ter desempenhado papel central na formação de solos, ciclos de nutrientes e clima locais.
As próximas perguntas sobre um gigante sem herdeiros
A publicação na Science Advances, em 21 de janeiro de 2026, não encerra o debate sobre o Prototaxites. Ela abre novas frentes. Uma delas busca entender como esse organismo se alimenta, cresce e se reproduz. Outra tenta medir o impacto ecológico desses gigantes em ecossistemas que ainda engatinham na terra firme.
Novas coletas no sílex de Rhynie e em depósitos semelhantes ao redor do mundo devem testar se outras espécies aparentadas existiram e se espalharam por diferentes continentes. Equipamentos de imagem mais precisos podem revelar detalhes hoje invisíveis, como padrões de crescimento e possíveis interações com raízes de plantas ou colônias de microrganismos.
O ramo extinto que abriga o Prototaxites ainda é um contorno em construção na árvore da vida. A cada nova amostra, a linha se torna mais nítida, mas lacunas permanecem. A principal pergunta agora é quantos outros ramos como esse existiram e desapareceram sem deixar herdeiros, escondidos em rochas que a ciência ainda não aprendeu a ler por completo.
