Ciencia e Tecnologia

Fóssil de minidinossauro na Espanha reescreve evolução dos herbívoros

Um dinossauro bípede do tamanho de um cachorro pequeno, descrito agora por pesquisadores internacionais, preenche uma lacuna de 70 milhões de anos na evolução dos herbívoros. A espécie Foskeia pelendonum vive há cerca de 120 milhões de anos e surge como peça-chave para entender a origem de um importante grupo de dinossauros europeus.

Um gigante científico em corpo minúsculo

O paleontólogo Paul-Emile Dieudonné, da Universidade Nacional de Río Negro, na Argentina, lidera o estudo que apresenta o novo dinossauro na revista científica Papers in Palaeontology. A equipe analisa fósseis encontrados em Vegagete, na província de Burgos, no norte da Espanha, atribuídos a pelo menos cinco indivíduos de Foskeia, todos com pouco mais de meio metro de comprimento.

A cena, reconstituída a partir de ossos delicados, contrasta com a imagem clássica de dinossauros gigantes. Foskeia é um ornithopoda, grupo de dinossauros bípedes que se alimentam de plantas, mas cabe com folga em uma mesa de laboratório. O corpo é diminuto, mas o crânio surpreende: a anatomia mostra estruturas altamente modificadas, com detalhes que não aparecem em parentes maiores e mais tardios.

Essas inovações anatômicas colocam a espécie perto da raiz dos Rhabdodontidae, grupo de herbívoros que domina parte dos ecossistemas europeus em fases posteriores do período Cretáceo. O novo fóssil ajuda a preencher o intervalo entre os primeiros ornithopoda conhecidos, ainda no Jurássico, e as formas robustas e musculosas que surgem milhões de anos depois. Na prática, o animal funciona como uma ponte evolutiva em um registro fóssil até agora fragmentado.

Os restos achados em Vegagete incluem um crânio preservado em detalhes, além de ossos dos membros e da cintura pélvica. A equipe compara digitalmente essas peças com dezenas de outras espécies já descritas, em uma árvore evolutiva com centenas de características anatômicas codificadas. É nesse cruzamento minucioso de dados que Foskeia ganha lugar próprio e se distancia da ideia simplista de ser apenas um “minidinossauro” exótico.

Por que um fóssil de 120 milhões de anos importa agora

A descoberta mexe com um dos pilares da paleontologia de vertebrados: a noção de que a evolução dos ornithopoda na Europa é relativamente bem conhecida. O registro mostra animais de médio e grande porte, muitos deles com cabeças altas e dentição adaptada para triturar vegetação resistente. Foskeia, com seu meio metro de comprimento e crânio sofisticado, obriga especialistas a rever a sequência dessa história.

Segundo os autores, o novo dinossauro mostra que linhagens pequenas já exibem, cedo, combinações complexas de formas ósseas e adaptações na mordida. Em vez de uma evolução lenta e previsível, em que os herbívoros se tornam gradualmente maiores e mais especializados, o cenário passa a incluir experimentos anatômicos em escala reduzida. A diversidade de corpos e crânios entre 120 e 50 milhões de anos atrás pode ser muito maior do que o registro conhecido até aqui.

A lacuna de cerca de 70 milhões de anos na árvore dos ornithopoda europeus sempre intriga os pesquisadores. Partes desse período são ricas em fósseis de grandes predadores e de plantas, mas discretas em pequenos herbívoros. Isso alimenta a suspeita de que a ciência olha pouco para ossos minúsculos, mais fáceis de se perder no campo e no laboratório. Foskeia reforça essa hipótese e se torna argumento concreto para escavações e revisões focadas em materiais de pequeno porte.

O impacto não fica restrito à Europa. A nova espécie entra em bancos de dados globais que alimentam modelos de evolução e dispersão de dinossauros entre continentes no início do Cretáceo. Cada ponto nessa malha de informações influencia reconstruções de clima, vegetação e cadeias alimentares. Ao abrir uma janela para um herbívoro de meio metro, o estudo também ajuda a recalibrar estimativas de como energia e nutrientes circulam em ecossistemas de 120 milhões de anos atrás.

O que muda para a ciência e os próximos passos

A descrição de Foskeia pelendonum tende a redefinir prioridades em pesquisas de campo e de museu. Coleções que guardam fragmentos de ossos pequenos, catalogados de forma genérica como “dinossauro indeterminado”, ganham novo interesse imediato. Curadores e paleontólogos passam a ter em mente um modelo concreto de ornithopoda diminuto e altamente especializado ao reexaminar gavetas e depósitos.

O estudo também reforça o papel de áreas menos conhecidas, como Vegagete, no mapa global da paleontologia. A província de Burgos concorre com regiões clássicas da Espanha e de outros países europeus, e a presença de pelo menos cinco indivíduos do novo dinossauro indica que a espécie não é um acaso isolado. Isso sugere populações estáveis em ambientes específicos e abre espaço para investigações sobre como esses pequenos herbívoros convivem com predadores e outros animais da época.

A partir da publicação em Papers in Palaeontology, outros grupos devem testar a posição de Foskeia em novas análises filogenéticas, que simulam a árvore da vida dos dinossauros com métodos atualizados. Esses estudos podem deslocar a espécie alguns galhos para cima ou para baixo na árvore, mas dificilmente vão apagar o recado central: a evolução dos ornithopoda europeus é mais antiga, fragmentada e diversa do que se imaginava.

A principal pergunta que surge agora é quantos outros dinossauros pequenos ainda passam despercebidos em rochas já exploradas. A resposta depende de tempo de campo, investimento em novas escavações e disposição para encarar fósseis discretos com a mesma seriedade dedicada aos gigantes de museu. Se Foskeia é um indício do que falta descobrir, a história dos herbívoros mesozoicos na Europa ainda está longe de um capítulo final.

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