Ciencia e Tecnologia

Fósseis revelam onças-pintadas caçando gigantes de até 1 tonelada

Onças-pintadas que vivem hoje nos biomas brasileiros já exibem seu poder há dezenas de milhares de anos. Um novo estudo de pesquisadores da UFBA, UFPE e PUC Minas mostra que o maior felino das Américas caçava megamamíferos de até quase 1 tonelada durante o Pleistoceno, a chamada Era do Gelo.

Marcas de dentes no passado remoto do Nordeste

A pesquisa, publicada neste mês na revista científica Ichnos, analisa fósseis encontrados no interior da Bahia e de Pernambuco. Ossos de duas espécies da antiga megafauna brasileira, estudados em detalhe, trazem perfurações compatíveis com a mordida de uma onça-pintada pré-histórica. As evidências reforçam a ideia de que o felino ocupava o topo da cadeia alimentar na região há dezenas de milhares de anos.

Os paleontólogos examinam restos da preguiça-gigante Ahytherium aureum, que podia chegar a cerca de 500 quilos em vida, e do enigmático Xenorhinotherium bahiense, um herbívoro de quase 1 tonelada. O segundo animal integra o grupo das macrauquênias, bichos muitas vezes descritos como lhamas com tromba ou com um calombo nasal pronunciado. Em ambos os casos, os ossos das patas dianteiras preservam furos arredondados e profundos, impossíveis de explicar apenas com desgaste natural ou ação de insetos.

No laboratório da UFBA, em Salvador, os pesquisadores comparam essas perfurações com arcadas dentárias de diferentes carnívoros fósseis e atuais. Levam em conta o espaçamento entre os caninos, o diâmetro dos dentes e a forma como penetram no osso. Ao final, as medidas convergem para um culpado quase óbvio para quem conhece a fauna brasileira: a onça-pintada. “Eu vejo que a onça continua basicamente com o mesmo tipo de nicho e não mudou tanto”, diz o paleontólogo Mário Dantas, do Laboratório de Ecologia e Geociências da UFBA.

Dantas afirma que a abundância de grandes herbívoros durante a Era do Gelo ampliava o cardápio do felino. “Ela tinha como opções outros tipos de recursos alimentares, que hoje não existem mais, e por isso podia chegar a tamanhos maiores”, afirma. A comparação com a onça atual, que raramente ultrapassa 120 quilos nos biomas brasileiros, sugere predadores do Pleistoceno mais robustos, adaptados a derrubar presas cinco, seis ou até oito vezes mais pesadas que eles.

Predadora de gigantes e sobrevivente de extinções

O trabalho ajuda a reposicionar a onça-pintada na história natural do continente. Em vez de uma espécie restrita a florestas densas, o felino aparece como caçador versátil, capaz de enfrentar preguiças-gigantes e macrauquênias em ambientes mais abertos, sob frio intenso e em meio a outros grandes predadores. No Pleistoceno sul-americano, ela convive com felinos dente-de-sabre e com grandes cachorros-do-mato que formam matilhas, competindo pelas mesmas carcaças.

Os fósseis analisados revelam que essa competição não se limita a presas. Dois crânios de onças pleistocênicas encontrados em cavernas baianas exibem perfurações muito semelhantes às vistas nos ossos de Ahytherium e Xenorhinotherium. A equipe interpreta os furos como resultado de mordidas de outras onças, provavelmente em disputas violentas por território, acesso a grandes herbívoros ou parceiros sexuais. Combates fatais deixam marcas permanentes, preservadas por dezenas de milhares de anos na rocha.

O contraste com o destino do dente-de-sabre é central para entender o impacto do estudo. Especialista em caçar apenas os maiores mamíferos, ele desaparece quando a megafauna entra em colapso, há cerca de 10 mil anos. A onça, mais flexível, reduz de tamanho, ajusta sua dieta e sobrevive à onda de extinções que apaga boa parte dos gigantes do continente. “Com a extinção da megafauna, o dente-de-sabre desapareceu, enquanto as onças diminuíram um pouco de tamanho e conseguiram sobreviver”, resume Dantas.

Essa trajetória ajuda a explicar por que o animal mantém hoje o papel de predador de topo em biomas tão distintos como Amazônia, Cerrado e Pantanal. Ao longo de dezenas de milhares de anos, o felino atravessa mudanças climáticas, alterações bruscas na fauna e, mais recentemente, a pressão humana sobre seu habitat. A nova pesquisa mostra que a resiliência atual tem raízes profundas, forjadas no convívio com presas descomunais e competidores perigosos.

História profunda e desafios do século 21

O estudo reforça um argumento que ganha espaço entre biólogos e conservacionistas: conhecer a história ecológica da onça é decisivo para planejar sua proteção no século 21. Se no Pleistoceno ela derruba presas de até 1.000 quilos, hoje depende de animais como capivaras, que raramente passam de 80 quilos, ou de antas, que chegam a cerca de 300 quilos. A perda de áreas naturais reduz a oferta dessas presas e empurra o felino para conflitos com rebanhos domésticos.

O Nordeste, palco dos fósseis analisados, ilustra esse paradoxo com clareza. A mesma região que abrigava macrauquênias e preguiças-gigantes agora registra alguns dos cenários mais críticos de desmatamento e fragmentação de habitats no país. Em estados como Bahia e Pernambuco, o avanço da agropecuária e de grandes obras de infraestrutura encurta corredores ecológicos e isola populações de onças em bolsões de mata. A espécie, que já atravessou a Era do Gelo, enfrenta hoje cercas, rodovias e armas.

A pesquisa abre caminho para novas frentes de investigação. Outros fósseis de megafauna armazenados em coleções brasileiras podem esconder marcas de predação ainda não reconhecidas. Técnicas de varredura digital em alta resolução e modelos em 3D da mordida de onças modernas tendem a refinar a identificação dessas interações. Ao mesmo tempo, dados sobre tamanho corporal e dieta no passado ajudam a calibrar modelos que projetam como a espécie responde a mudanças ambientais rápidas.

A narrativa que emerge dos ossos contrasta com a situação atual nas listas de conservação. A onça-pintada é hoje classificada como quase ameaçada em nível global e como vulnerável em várias regiões do Brasil. A destruição de florestas, a caça de presas e o abate ilegal em fazendas reduzem populações que levaram milênios para se adaptar a ambientes extremos. A diferença é que, desta vez, o principal fator de risco não é o clima ou a falta de gigantes, mas a pressão direta da nossa espécie.

Os fósseis descritos pelo grupo de Dantas condensam essa tensão numa imagem potente: um animal que derruba uma preguiça-gigante de meia tonelada e enfrenta concorrentes armados com presas de sabre agora depende da manutenção de fragmentos de mata para continuar existindo. A pergunta que ecoa nos bastidores da pesquisa é simples e incômoda. Depois de sobreviver à Era do Gelo e à queda da megafauna, a onça-pintada suportará também a velocidade da nossa transformação do território brasileiro?

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