Ciencia e Tecnologia

Fósseis em MS revelam megafauna tardia e oceano de 550 milhões de anos

Fósseis coletados em Mato Grosso do Sul por moradores e pesquisadores brasileiros revelam um passado que vai de antigos oceanos, com trilobitas e conchas marinhas de até 550 milhões de anos, a mamíferos gigantes que ainda circulam pela região há cerca de 4 mil anos. As análises, consolidadas em estudos publicados até 2026, indicam que a megafauna sobrevive por muito mais tempo do que se supunha e convive com humanos por milênios.

Do quintal ao laboratório

O primeiro capítulo dessa história começa de forma despretensiosa, em Rio Negro, na transição entre Cerrado e Pantanal. Há cerca de dez anos, o servidor público Irai Antunes caminha perto de casa quando repara em pedras “diferentes”, com desenhos de conchas e tons ferruginosos, espalhadas pelo chão. Ele já se interessa por fósseis, mas nunca tinha segurado um nas mãos.

Com o tempo, o hábito de juntar essas rochas vira rotina. A curiosidade aumenta durante as obras da BR-419, que liga Rio Negro a Rio Verde de Mato Grosso. Entre entulhos de escavação, Irai encontra novas pedras cinzas. Ao quebrá-las, surgem figuras mais nítidas: conchas e um animal segmentado, facilmente reconhecível em livros de divulgação científica.

“Encontrei algumas pedras cinzas cobrindo uma trilobita. Fui quebrando e apareciam outras com desenhos de conchas também”, lembra. A confirmação vem quase por acaso, quando ele cruza com uma equipe em uma trilha rupestre. “Achei uma turma na trilha rupestre, sem querer. Estavam fazendo escavações e cheguei com os materiais nas mãos. Perguntei: vocês estão procurando isso? Aí foi o primeiro contato com estudiosos.”

O grupo é do Museu de Arqueologia da UFMS, em Campo Grande. A professora Edna Maria Facincani, geóloga, fundadora e coordenadora do primeiro laboratório de análise de fósseis do Estado, não se surpreende com o tipo de peça, mas com o alcance que elas começam a ganhar. A abertura de estradas em áreas de rochas sedimentares, como as formações Furnas e Ponta Grossa, escancara camadas de um antigo fundo de oceano.

Ali, explica a pesquisadora, estão fósseis de animais marinhos microscópicos e milimétricos que povoam mares entre 400 milhões e 550 milhões de anos atrás, quando o planeta tem outra configuração de continentes. “O que ele encontrou, sobretudo, são seres que viviam no ambiente marinho há cerca de 400 a 550 milhões de anos. Eram muito pequenos. São braquiópodes, são as ‘pintinhas’, uma organização muito mais evoluída do que aquelas que a gente encontra em Corumbá”, detalha.

As trilobitas que aparecem nas pedras de Irai são invertebrados que surgem no período Cambriano, por volta de 550 milhões de anos atrás, em mares rasos que cobrem regiões que hoje estão em terra firme. Em Mato Grosso do Sul, esses restos se acumulam em antigas fossas oceânicas, que secam ao longo de milhões de anos e viram parte do solo atual.

Megafauna sobrevive além do previsto

Enquanto as rochas marinhas contam o início da vida complexa, outro conjunto de fósseis encontrados no Estado mexe com o capítulo final de uma era: a extinção da megafauna. Em artigo publicado em 2025 na revista Journal of South American Earth Sciences, Edna Facincani assina, ao lado de pesquisadores da UFRJ e do Museu de Pré-História de Itapipoca, no Ceará, um estudo que reposiciona no tempo os últimos gigantes da América do Sul.

A pesquisa nasce do pós-doutorado de Fábio Henrique Cortes Faria, professor da UFRJ, e parte de coletas realizadas há mais de dez anos às margens do Rio Miranda, em Mato Grosso do Sul. Entre blocos de sedimento, surgem ossos de uma preguiça-gigante e um dente de mastodonte, parente distante dos elefantes atuais. Datações indicam que esses animais vivem na região há cerca de 4 mil anos.

O número contrasta com estimativas tradicionais, que situam a extinção da maior parte da megafauna sul-americana por volta de 12 mil anos atrás, ao final da última era do gelo. “Os resultados obtidos nesse artigo revelaram que a megafauna, que ocupou tanto o estado de Mato Grosso do Sul quanto o estado do Ceará, representa um dos últimos indivíduos que circulavam pela América do Sul”, afirma Faria.

O pesquisador aponta ainda o papel de áreas como o Rio Miranda, em MS, e Itapipoca, no Ceará, como redutos resistentes em um continente em transformação. “Essas localidades serviram como refúgios ambientais para a megafauna que vinha em processo de extinção iniciado há 12 mil anos”, explica. Ali, condições de água, vegetação e clima teriam se mantido favoráveis por mais tempo, garantindo sobrevida a esses animais.

O estudo reforça a ideia de que a extinção não é um evento súbito, mas um processo longo, marcado por múltiplos fatores. Faria lembra que o contato com humanos se prolonga, o que contraria a hipótese de uma eliminação rápida provocada apenas pela caça. “Um longo período de interação, contrariando um pouco a teoria proposta por pesquisadores norte-americanos de os homens originários na América do Sul, através da caça predatória, extinguiram de forma rápida a megafauna no continente sul-americano”, diz.

Os autores defendem um cenário mais complexo, em que mudanças climáticas, transformações na paisagem, variações no nível de rios e disponibilidade de alimento pesam mais que a ação humana isolada. “É um tema que constantemente está em debate. Podemos até traçar um paralelo com o processo de extinção e de desaparecimento de faunas locais que ocorre em diversos biomas brasileiros”, conclui o pesquisador.

Patrimônio sob ameaça e novos caminhos

A proliferação de achados como os de Irai Antunes expõe um desafio imediato: o destino de fósseis que surgem em obras, fazendas e beiras de estrada. Sem museus em Rio Negro, o servidor público decide reunir o material e entregá-lo a instituições de Campo Grande. Edna vê na iniciativa um exemplo de como cidadãos podem colaborar com a ciência e com a preservação da memória geológica do país.

A legislação brasileira não deixa margem para dúvida. Desde o Decreto-Lei nº 4.146, de 1942, fósseis são bens da União. A extração depende de autorização prévia e fiscalização do poder público, voltada a fins científicos, técnicos ou didáticos. A venda é proibida. Na prática, porém, peças ainda circulam em mercados clandestinos e coleções particulares, o que dificulta o trabalho de pesquisadores e apaga partes da história antes mesmo de serem estudadas.

Em Mato Grosso do Sul, a combinação de um subsolo rico e poucos especialistas cria um vácuo. O Estado guarda registros que vão de mares do Cambriano a mamíferos gigantes no Holoceno recente, mas carece de estrutura para estudar tudo isso no próprio território. Hoje, muitas análises dependem de parcerias com instituições de outros estados, o que alonga prazos e deixa projetos em suspenso por anos, como ocorreu com os fósseis do Rio Miranda.

A UFMS tenta mudar esse quadro. No fim de 2025, a universidade autoriza a criação de um curso de Engenharia Geológica, previsto para abrir vagas a partir de 2027. A formação integra conteúdos de geologia, paleontologia e mineração e promete formar quadros capazes de mapear o patrimônio geológico do Estado com mais precisão. “Isso vai possibilitar um levantamento geológico e paleontológico e hidrogeológico mais detalhado do estado de Mato Grosso do Sul, visto que era um dos únicos que não tinha essa especialidade disponível”, diz Edna.

Os novos profissionais devem atuar em frentes que vão da pesquisa básica à gestão ambiental, passando por licenciamento de obras, turismo científico e políticas de preservação. Em um cenário de mudanças climáticas aceleradas, a leitura das rochas e dos fósseis ganha peso extra. A história de megafaunas que desaparecem após transformações ambientais fortes funciona como alerta sobre o efeito de alterações rápidas em ecossistemas frágeis.

As próximas escavações em estradas e margens de rios prometem ampliar esse mosaico. O que hoje surge em mãos de um morador curioso pode se tornar, em poucos anos, peça-chave em debates globais sobre extinção, clima e convivência entre humanos e grandes animais. A pergunta agora é quanto desse passado ainda está enterrado e se o país terá estrutura, fôlego e vontade política para revelá-lo antes que se perca.

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