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Fortaleza tem maior chuva do ano com 125 mm e registra caos no trânsito

Fortaleza registra, entre 7h de segunda-feira, 26, e 7h desta terça, 27, o maior volume de chuva do ano, com 125 milímetros. O temporal fora da quadra chuvosa causa alagamentos, queda de energia e complica a vida de quem precisa circular pela capital cearense.

Temporal fora de época expõe fragilidades da cidade

As primeiras horas da manhã encontram motoristas presos em longos engarrafamentos, ônibus desviando trajetos e pedestres tentando driblar poças que transformam calçadas em armadilhas. Em vários cruzamentos, semáforos apagados somam risco ao transtorno. A chuva intensa, que se estende por 24 horas, derruba o que restava de previsibilidade na rotina da capital.

O acumulado de 125 milímetros, medido pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), supera com folga o maior registro anterior de janeiro, de 14 milímetros, anotado no dia 24. Em um intervalo curto, a cidade sai de uma pré-estação chuvosa discreta para um episódio atípico de temporal. O contraste expõe a dificuldade de planejamento diante de um clima mais irregular.

Moradores acordam no escuro em diferentes bairros, após falhas no fornecimento de energia. Comerciantes levantam portas mais tarde, à espera de água escoar nas principais vias. “Quando a gente vê a rua assim, já sabe que o dia está perdido”, desabafa uma vendedora ambulante na região central, que tenta proteger a mercadoria embaixo de um toldo improvisado.

O cenário ocorre poucos dias depois de a Funceme emitir, na segunda-feira, 26, um alerta de chuvas intensas para os 184 municípios cearenses. O aviso trazia gradações de risco entre potencial e médio, indicando a possibilidade de eventos mais fortes. O que se confirma em Fortaleza nas 24 horas seguintes, com uma pancada de chuva concentrada e persistente.

Impacto nas ruas contrasta com reservatórios ainda em alerta

No trânsito, o efeito é imediato. Pontos tradicionais de alagamento voltam a se repetir, com carros ilhados, motociclistas empurrando veículos e passageiros descendo de ônibus para seguir o caminho a pé. A enxurrada arrasta lixo acumulado e entope bueiros, o que amplia a sensação de vulnerabilidade urbana a cada nova nuvem carregada.

A tempestade também desorganiza a mobilidade em regiões de grande fluxo, como os corredores que ligam bairros da periferia ao Centro e à orla. Cruzamentos sem semáforo operando dependem de agentes de trânsito, que não conseguem atender a todos os pontos críticos ao mesmo tempo. “Uma hora dessas, qualquer descuido vira acidente”, comenta um motorista de aplicativo, que relata viagens canceladas e atrasos sucessivos.

O volume de água chama atenção por acontecer antes da quadra chuvosa, que oficialmente vai de fevereiro a maio no Ceará. Entre dezembro e janeiro, os meteorologistas classificam o período como pré-estação, em tese menos intenso. Mesmo assim, o prognóstico divulgado pela Funceme na quarta-feira, 21, projeta cenário diferente para os meses seguintes: probabilidade de 40% de chuvas abaixo da média entre fevereiro e abril.

Na prática, o episódio desta terça mostra que a capital pode enfrentar extremos de forma combinada. De um lado, downpours, como os técnicos chamam pancadas concentradas, desorganizam a cidade em poucas horas. De outro, a estação chuvosa tende a ser mais fraca no acumulado, o que pressiona o abastecimento de água em um Estado cujos reservatórios estão com apenas 38,6% da capacidade, algo em torno de 7 bilhões de metros cúbicos, segundo a Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh).

Especialistas em recursos hídricos alertam que esse descompasso já se torna rotina. A população sente o impacto imediato da enchente urbana, mas a preocupação estrutural segue sendo a segurança hídrica. “A chuva que alaga a cidade nem sempre é a mesma que enche os açudes”, resume um técnico da área de gestão de águas, ao lembrar que a recarga dos reservatórios depende de chuvas mais bem distribuídas nas bacias hidrográficas.

Cidade entre o alagamento e o risco de seca

Gestores municipais acompanham o episódio olhando em duas direções. No curto prazo, a prioridade está em restabelecer semáforos, energia e condições mínimas de circulação. No médio prazo, o desafio passa por adaptar a infraestrutura para eventos mais extremos, que tendem a se tornar mais frequentes com o aquecimento do planeta. A combinação de drenagem deficiente, ocupação irregular e aumento do volume de chuva em janelas curtas cria um quadro conhecido, mas ainda pouco enfrentado.

Moradores de áreas historicamente sujeitas a alagamentos convivem com a sensação de repetição anual. Em alguns bairros, famílias mantêm móveis suspensos o ano inteiro, à espera da próxima enxurrada. “A gente ouve que a chuva vai ser abaixo da média, mas aqui dentro de casa ela sempre passa do limite”, ironiza um morador de área baixa na Capital, que já calcula prejuízos com eletrodomésticos danificados.

O episódio desta terça também pressiona políticas de limpeza urbana e manejo de resíduos. Sacos de lixo rasgados, entulho acumulado em esquinas e bueiros obstruídos se transformam em canais improvisados de escoamento, que redirecionam a água para dentro de casas e comércios. Em cada tempestade, a cidade reaprende, à força, que drenagem não se resolve apenas com obras pontuais, mas com rotina de manutenção, fiscalização e planejamento urbano.

Os próximos dias serão decisivos para medir o saldo real da chuva recorde. Equipes técnicas avaliam danos à infraestrutura, riscos de novos alagamentos e impactos sobre serviços essenciais. A Funceme segue monitorando o avanço das áreas de instabilidade, enquanto a população acompanha previsões em aplicativos e redes sociais, na tentativa de se antecipar ao próximo susto.

Fortaleza entra na quadra chuvosa de 2026 com um recado claro: mesmo quando os modelos climáticos apontam para menos chuva, a cidade precisa estar preparada para episódios intensos e repentinos. A pergunta que fica é se a capital conseguirá transformar mais este alerta em mudança concreta na forma de planejar ruas, ocupação urbana e uso da água, ou se o cenário desta terça voltará a se repetir na próxima nuvem carregada.

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