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Formação médica em crise: um terço das faculdades tira nota baixa no MEC

A cardiologista e professora da USP Ludhmila Hajjar diz, em janeiro de 2026, que buscar atendimento médico no Brasil virou “uma loteria com chance maior de perder”. A fala ecoa os dados mais recentes do Ministério da Educação: um terço dos cursos de Medicina avaliados pelo Enade 2025 tem desempenho considerado insatisfatório.

Alerta de quem está na linha de frente

Ludhmila Hajjar vive a rotina de emergências e UTIs em grandes hospitais de São Paulo. Na entrevista à jornalista Natuza Nery, ela põe em palavras o que muitos pacientes percebem na prática: a qualidade do atendimento oscila demais, sem qualquer previsibilidade mínima. “Eu diria que é uma loteria com a chance maior de você perder”, afirma, ao comentar a formação dos novos médicos.

O diagnóstico não se apoia apenas em impressões pessoais. Em 19 de janeiro, o Ministério da Educação e o Ministério da Saúde divulgam a análise do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, prova específica para os cursos de medicina dentro do Enade. Dos 304 cursos pertencentes ao Sistema Federal de Ensino, que reúne universidades públicas federais e instituições privadas, 204 (67,1%) ficam nas faixas consideradas satisfatórias, conceitos 3 a 5. Outros 99 cursos, ou 32%, recebem nota 1 ou 2, o que significa que menos de 60% dos estudantes atingem desempenho adequado.

Esses números confirmam a percepção de que faculdades sem estrutura, professores suficientes ou campo de prática adequado continuam despejando no mercado profissionais que não dominam competências básicas. As instituições com notas baixas entram na mira da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior do MEC, que promete ações de supervisão. Enquanto os processos administrativos seguem seu ritmo, porém, as turmas seguem se formando e chegando ao consultório, ao pronto-socorro e às unidades de saúde da família.

Quando o erro de formação vira risco direto ao paciente

A consequência mais visível aparece na ponta, na conversa entre médico e paciente. Dúvida sobre condutas simples, dificuldade em interpretar exames rotineiros, demora para reconhecer sinais de gravidade. Cada falha desse tipo pode atrasar diagnósticos, piorar quadros clínicos e sobrecarregar ainda mais o Sistema Único de Saúde. Quando milhares de profissionais chegam ao mercado sem domínio do básico, o problema deixa de ser caso isolado e passa a ser estrutural.

O próprio Conselho Federal de Medicina, historicamente resistente a controles externos e que, durante a pandemia, defendeu a chamada “independência médica” para receitar remédios sem eficácia comprovada contra a Covid-19, hoje se vê obrigado a soar o alarme. O presidente da entidade, José Hiran Gallo, afirma que 13 mil alunos com desempenho insatisfatório no Enamed estão prestes a se formar. “Já encaminhamos para o jurídico uma proposta de resolução para que esses alunos prestes a se formarem e que tiveram o desempenho 1 e 2 não consigam o registro. Eu acho que é muito tenebroso colocar pessoas que não têm qualificação para atender”, diz.

O movimento expõe um paradoxo. Conselhos profissionais, em tese, existem para garantir a qualidade técnica de quem atende a população. No caso da medicina, porém, a lei atual determina que todo estudante que conclui o curso em instituição reconhecida pelo MEC tem direito automático ao registro profissional, sem exame adicional. É a porta de entrada obrigatória para o exercício da profissão. O CFM pede ainda ao MEC o acesso detalhado aos dados individuais dos alunos, para saber quem tirou quanto. No meio do caminho, esbarra em limites legais e em dúvidas sobre sigilo e finalidade desses dados.

Especialistas em direito médico lembram que não há atalho jurídico simples. A advogada Samantha Takahashi explica que o conselho não pode, por resolução própria, criar uma exigência que não existe na lei federal. Hoje, o único requisito formal é o diploma de medicina emitido por instituição de ensino superior com curso reconhecido. Qualquer nova condição, como nota mínima em exame nacional, exigiria mudança legislativa aprovada pelo Congresso.

Quem paga a conta da má formação

Enquanto MEC, CFM, faculdades e juristas discutem competências e limites, o cotidiano nos serviços de saúde continua a registrar o efeito silencioso dessa formação falha. Médicos inseguros tendem a pedir mais exames, muitas vezes desnecessários, o que aumenta custos para o SUS e para planos privados. Em paralelo, erros de diagnóstico ou atrasos no tratamento empurram pacientes para internações mais longas e complexas. O sistema inteiro fica mais caro e menos eficiente.

Em regiões onde a oferta de profissionais já é escassa, sobretudo no interior e na periferia das grandes cidades, a situação é ainda mais crítica. A população não escolhe o médico pelo currículo ou pelo desempenho no Enamed. Escolhe quem está disponível no posto de saúde ou no plantão do hospital. Diante desse cenário, a imagem da “loteria onde você perde” deixa de ser figura de linguagem e passa a descrever a experiência real de milhões de brasileiros que chegam ao consultório sem saber se estão diante de alguém preparado.

A crise atual também é resultado de uma década de expansão acelerada de vagas de medicina. Cursos se multiplicam, especialmente na rede privada, muitas vezes sem hospital universitário robusto, sem campo de prática suficiente e com corpo docente sobrecarregado. O selo formal de reconhecimento do MEC não garante, sozinho, que o estudante vá aprender a examinar, diagnosticar e tratar com segurança. O Enamed começa a revelar essa distância entre o papel e a prática.

Pressão por mudanças e a disputa no Congresso

A solução de fundo passa por decisões políticas. Se o país decidir que não basta ter diploma para atender pacientes, será preciso mexer na legislação que rege o exercício da medicina. Isso pode significar criar um exame de ordem obrigatório, atrelar o registro ao desempenho em provas nacionais ou endurecer a supervisão sobre cursos mal avaliados. Qualquer um desses caminhos depende do Congresso Nacional, hoje mais concentrado em disputas de alta voltagem política do que em debates técnicos sobre formação em saúde.

Enquanto a discussão não avança, o relógio corre contra os pacientes. A cada ano, novas turmas se formam em faculdades que o próprio MEC considera problemáticas. A supervisão prometida pela pasta pode levar anos até resultar em fechamento de cursos ou reestruturações profundas. Até lá, médicos formados em ambientes frágeis continuam a chegar aos ambulatórios, às UTIs e às salas de cirurgia.

O alerta de Ludhmila Hajjar e os números do Enamed colocam autoridades, faculdades e conselhos diante de uma escolha incômoda: seguir fingindo normalidade ou admitir que a medicina brasileira vive uma crise de qualidade que compromete diretamente a segurança do paciente. A resposta que sair do Congresso e das instâncias regulatórias nos próximos anos vai definir se a “loteria” do atendimento médico continuará favorecendo a perda ou se, enfim, começará a jogar a favor da vida.

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