Focus reduz inflação de 2026 e reforça juros altos até 2029
As projeções do mercado para a inflação de 2026 voltam a cair e os juros de longo prazo sobem, segundo o Relatório Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira (19). As estimativas atualizadas indicam inflação mais comportada, mas mantêm um cenário de juros elevados até 2029, com impacto direto sobre crédito, consumo e investimentos.
Mercado ajusta inflação, mas preserva cenário de juros altos
O Focus, que compila semanalmente as expectativas de dezenas de instituições financeiras, mostra novo recuo nas projeções para o IPCA de 2026. A mediana passa de 4,05% para 4,02%, segunda queda seguida, e se afasta lentamente do teto da meta, fixada em 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual. A mudança é discreta, mas reforça a leitura de que a alta de preços perde força, ainda que em ritmo gradual.
Enquanto a inflação de 2026 cede, a trajetória da taxa Selic segue pressionada nos anos seguintes. A projeção para 2028 sobe de 9,88% para 10,00% ao ano, acumulando duas semanas de alta. A estimativa para 2029 permanece em 9,50%, estável há 12 semanas, em linha com a visão de que o país convive com juros reais altos por mais tempo. Para 2026, a Selic projetada segue em 12,25% ao ano há quatro semanas, bem acima do patamar considerado neutro por boa parte dos economistas.
As expectativas para 2027 permanecem ancoradas. O mercado vê inflação de 3,80% há 11 semanas seguidas e Selic em 10,50% há 49 semanas. Em 2028, a projeção para o IPCA fica em 3,50%, estável há 11 semanas, mesmo patamar observado para 2029, ancorado há 20 semanas. Esse conjunto de números indica um cenário em que a inflação converge para algo próximo da meta, mas à custa de taxas de juros persistentemente elevadas.
Crescimento fraco, câmbio pressionado e impacto no dia a dia
As estimativas para o crescimento da economia reforçam a leitura de um país que avança pouco. O mercado mantém o PIB de 2026 em alta de 1,80%, número que se repete para 2027. Para 2028 e 2029, a projeção é de expansão de 2,00% ao ano, estável há 97 e 44 semanas, respectivamente. Trata-se de um ritmo considerado modesto para um país emergente, com pouco espaço para ganhos rápidos de renda e de emprego.
No câmbio, o foco se volta ao dólar mais caro. A projeção para 2026 continua em R$ 5,50 há 14 semanas, mesmo valor esperado para 2027. Para 2028, a mediana sobe a R$ 5,52, nível mantido há três semanas, e a 2029 o mercado estima o dólar em R$ 5,57. Esse comportamento reflete um ambiente externo mais instável, com investidores atentos a ameaças tarifárias de Donald Trump nos Estados Unidos e a possíveis mudanças na política comercial global.
Os índices de preços ao produtor e ao atacado, que influenciam contratos de aluguel e reajustes no setor de serviços, também apontam para um quadro de inflação controlada, mas longe de ser irrelevante. A projeção para o IGP-M em 2026 está em 3,92%, estável há duas semanas após ajuste recente. Para 2027, a expectativa é de 4,00% há 53 semanas, enquanto 2028 segue em 3,85% e 2029 em 3,70%. Esses percentuais servem de referência para milhares de contratos, do comércio aos condomínios.
Os chamados preços administrados, como tarifas de energia, combustíveis e transporte público, mostram inflação projetada de 3,75% em 2026. Para 2027, a mediana fica em 3,71%, estável há duas semanas. Em 2028 e 2029, as projeções são de 3,50%, ancoradas há oito e 27 semanas. A dinâmica desses itens, muitas vezes definidos por decisões de governo ou agências reguladoras, é crucial para a percepção de inflação da população, já que pesa diretamente nas contas mensais.
O que o novo Focus sinaliza para a política monetária
As curvas de inflação e juros descritas pelo Focus funcionam como um mapa para o Banco Central e para o mercado financeiro. Ao apontar inflação um pouco menor em 2026 e juros mais altos em 2028, o relatório sugere um cuidado maior com pressões de preços no médio prazo. Investidores leem esse movimento como sinal de que o ciclo de cortes da Selic, iniciado em 2023, encontra limites e pode terminar em um patamar ainda elevado.
Na prática, a combinação de inflação próxima da meta, PIB fraco e juros altos atinge diretamente famílias e empresas. O crédito continua caro, tanto para quem financia a casa própria quanto para negócios que precisam investir. O consumo cresce devagar, e empresas mais alavancadas enfrentam dificuldade para rolar dívidas. Ao mesmo tempo, quem aplica em renda fixa segue encontrando retornos atrativos em títulos públicos e CDBs, o que reforça a preferência por investimentos conservadores.
A leitura do Focus também alimenta o debate político em Brasília. Um cenário de juros altos por mais tempo aumenta a pressão sobre o governo para mostrar compromisso fiscal e reduzir incertezas. Cada nova frustração de receita ou aumento de gasto tende a se refletir nas expectativas futuras de inflação e na própria curva de juros. A relação entre política fiscal e política monetária volta ao centro do debate, com o mercado cobrando maior previsibilidade.
As próximas semanas devem ser marcadas por uma atenção maior a dados de inflação corrente, atividade e arrecadação, além do ambiente externo. A permanência de expectativas de IPCA ao redor de 4% em 2026 e de Selic em dois dígitos até 2029 indica que o equilíbrio entre crescimento e controle de preços segue delicado. O Focus desta segunda-feira ajuda a traçar o contorno desse cenário, mas deixa em aberto a principal pergunta para os próximos meses: até onde o Banco Central está disposto a ir na tentativa de segurar a inflação sem paralisar a economia.
