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Fluminense erra na comunicação e perde milhões com venda de Jhon Arias

A forma como o Fluminense comunica a venda de Jhon Arias em julho de 2025 volta ao centro da bronca tricolor em fevereiro de 2026. O clube diz ter mantido 10% dos direitos econômicos do jogador, mas fica só com 10% do lucro de uma revenda. A diferença, agora exposta, vira caso de transparência e de gestão financeira no futebol.

Negócio bilionário, informação nebulosa

Quando Jhon Arias acerta a transferência para o Wolverhampton, por 17 milhões de euros, o discurso oficial do Fluminense aponta que o clube preserva 10% dos direitos econômicos do meia-atacante. Em linguagem simples, o torcedor entende que o Tricolor ainda teria direito a 10% de qualquer futura venda do jogador. Meses depois, a passagem do colombiano pelo futebol inglês e a ida ao Palmeiras, por 25 milhões de euros, revelam outro cenário.

O que o Fluminense mantém, na prática, não é uma fatia do jogador, mas uma fatia do lucro. O clube possui 10% da chamada mais-valia, o ganho entre o valor pago e o valor da revenda. No caso de Arias, o Wolverhampton lucra 8 milhões de euros na operação com o Palmeiras. Sobre esse montante, o Fluminense tem direito a cerca de 800 mil euros, algo em torno de 5 milhões de reais na cotação atual. A torcida, que durante meses acredita em um percentual direto sobre qualquer negociação, descobre que a conta poderia ser bem maior.

Se o clube de Laranjeiras de fato mantivesse 10% dos direitos econômicos de Arias, receberia 2,5 milhões de euros na transferência para o Palmeiras, valor próximo de 15,6 milhões de reais. A diferença de mais de 10 milhões de reais se transforma em combustível para críticas à diretoria, sobretudo em um cenário de finanças pressionadas, folha salarial em alta e disputas esportivas que exigem elenco competitivo em 2026.

Críticas à transparência e à estratégia financeira

A primeira reação acontece nas redes sociais, assim que os detalhes da ida de Arias ao Palmeiras se tornam públicos. Perfis de torcedores resgatam o comunicado oficial de julho de 2025 e acusam o clube de ter “vendido” uma versão otimista do negócio. O jornalista Gabriel Amaral, do canal Raiz Tricolor, vocaliza o incômodo com a forma como a nota é redigida.

“O comunicado do Fluminense foi escrito de maneira completamente errada à época. Induziu o torcedor a achar que o Fluminense ficaria com 10% do valor da venda. Se era mais-valia, deveriam ter sido claros. O ideal era fazer uma representação”, afirma Amaral, ecoando o sentimento de parte expressiva da arquibancada. O questionamento deixa de ser apenas sobre números e passa a mirar a cultura de comunicação do clube em negociações internacionais.

Os valores exatos são detalhados pelo jornalista Venê Casagrande, especializado na cobertura do mercado da bola. Ele confirma que o Fluminense recebe somente 800 mil euros na esteira da negociação entre Wolverhampton e Palmeiras. O contraste com o valor que o torcedor esperava ver entrar nos cofres do clube alimenta a percepção de que, em um ambiente de crescimento das receitas com premiações, apostas esportivas e direitos de transmissão, o clube ainda patina ao estruturar operações com ativos valiosos do elenco.

O debate também reacende uma discussão mais ampla sobre a sofisticação financeira dos clubes brasileiros nas relações com o mercado europeu. Cláusulas de mais-valia, comuns nas últimas temporadas, funcionam como bônus sobre lucros futuros, mas são bem diferentes de manter uma parcela real dos direitos do atleta. Sem explicação clara, o torcedor mistura conceitos, cria expectativas irreais e, ao final, se sente enganado, mesmo quando o contrato está juridicamente correto.

Quanto custa um erro de comunicação

A diferença entre 800 mil e 2,5 milhões de euros não é apenas uma linha contábil distante da arquibancada. Em um clube do porte do Fluminense, 10 milhões de reais a mais podem significar a contratação de um titular, a manutenção de um destaque em fim de contrato ou o abatimento de dívidas bancárias com juros altos. O episódio com Arias expõe como a forma de negociar e, sobretudo, de explicar a negociação influencia diretamente a capacidade de investimento no futebol.

Do ponto de vista político, a polêmica fortalece grupos internos que já criticam a gestão por decisões consideradas arriscadas no mercado. Conselheiros e torcedores organizados cobram respostas sobre quem decidiu pela estrutura do negócio, por que se optou pela mais-valia em vez da manutenção de um percentual maior de direitos econômicos e de que forma esse modelo será usado em futuras transações. A repercussão também empurra outros clubes a revisarem a forma como comunicam cláusulas semelhantes em vendas para o exterior.

Entre executivos de futebol e advogados que atuam em transferências internacionais, o caso Arias ganha contornos de estudo de caso. A conclusão é recorrente: contratos complexos exigem comunicação simples. A diretoria tricolor, pressionada por críticas públicas e pela comparação com clubes que anunciam de forma minuciosa cada detalhe da operação, tende a adotar notas mais detalhadas, com separação clara entre direitos econômicos, bônus por desempenho, metas esportivas e mais-valia.

O torcedor, por sua vez, passa a acompanhar com mais desconfiança cada anúncio de venda. A tensão entre expectativa de ganho futuro e frustração com o valor efetivamente recebido vira parte do debate cotidiano nas redes, em programas de TV e nos canais independentes de YouTube dedicados ao clube, como o próprio Raiz Tricolor. A pressão pública se converte em um freio a operações que, antes, passariam sem maior escrutínio.

Próximos passos e lições para o mercado

Dentro do Fluminense, dirigentes sinalizam que futuras negociações internacionais devem trazer explicações mais didáticas nos comunicados oficiais. A tendência é detalhar por escrito o que é percentual de direitos econômicos, o que é bônus condicionado ao desempenho e o que se refere à mais-valia em revendas. A clareza, neste caso, não é apenas uma gentileza com o torcedor, mas um mecanismo de proteção política e reputacional.

O episódio também respinga em outros clubes brasileiros, hoje mais presentes em mercados como a Premier League, La Liga e Serie A italiana. Em um ambiente em que casas de apostas, direitos de TV e competições como Libertadores, Copa do Brasil e Brasileirão movimentam receitas cada vez maiores, a forma de gerir e comunicar transferências de jogadores passa a ser parte central da gestão. O caso Arias deixa uma pergunta incômoda no ar: em meio a contratos cada vez mais sofisticados, quem dentro dos clubes está preparado para explicar, com todas as letras, quanto entra, quanto sai e por quê?

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