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NC Eleições 2026

Flávio pede investigação de Lula ao STF por uísque de R$ 500 mil ligado a Vorcaro

Petição apresentada nesta sexta-feira (23) cita mensagens sobre a compra de um Macallan 1945, uma reunião fora da agenda no Planalto e suspeitas de corrupção passiva e advocacia administrativa. Presidência nega recebimento do presente

Flávio pede investigação de Lula ao STF por uísque de R$ 500 mil ligado a Vorcaro

A defesa do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) apresentou nesta sexta-feira (23) uma petição complementar ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a investigação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por suspeitas de corrupção passiva e advocacia administrativa. O documento utiliza novas mensagens atribuídas ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, que teria encomendado uma garrafa de uísque The Macallan 1945, avaliada em aproximadamente R$ 500 mil, para presentear o petista.

A petição, encaminhada ao ministro André Mendonça no âmbito do Inquérito 5.026/DF, acrescenta informações a uma notícia-crime apresentada em 23 de setembro. Os advogados de Flávio argumentam que o valor da bebida, a aproximação do banqueiro com integrantes do governo e uma reunião realizada fora da agenda oficial no Palácio do Planalto justificam a abertura de uma investigação.

Leia também: Veritá: Flávio tem 51,3% e Lula 48,7% dos votos válidos na reta final da eleição

O pedido tem como base uma reportagem publicada pela revista Veja na quinta-feira (22), com mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal. Embora os diálogos indiquem que o empresário pretendia comprar a bebida para Lula, o recebimento do presente é contestado pela Presidência da República. Até o momento, não há comprovação pública de que o presidente tenha recebido vantagem indevida em troca de favorecimento ao Banco Master.

“Se me deu, já bebi”, diz Lula sobre suposto uísque de Vorcaro

Flávio Bolsonaro apresenta novas mensagens ao STF e pede investigação de Lula

A petição complementar foi assinada pelos advogados Tracy Reinaldet, Matteus Macedo e Leonardo Castegnaro, além de Lucas Grunvald, identificado no documento como acadêmico de Direito.

Na peça, a defesa afirma que as informações divulgadas pela Veja acrescentam elementos relevantes à notícia-crime protocolada em setembro.

Na primeira manifestação, os advogados já haviam citado mensagens nas quais Walfrido Warde, então advogado de Daniel Vorcaro, relatava que Lula teria agradecido por um uísque enviado pelo banqueiro.

Na ocasião, não havia informações públicas detalhadas sobre o tipo de bebida ou seu valor.

Agora, segundo a petição, as novas conversas identificam uma garrafa The Macallan 1945, safra correspondente ao ano de nascimento de Lula, com preço superior a 80 mil euros.

A defesa sustenta que a oferta de um presente desse valor, por um empresário que buscava interlocução com autoridades federais, precisa ser investigada para esclarecer se houve vantagem indevida.

O documento solicita que os autos sejam encaminhados à Procuradoria-Geral da República para análise e eventual instauração de inquérito.

A apresentação da petição, por si só, não significa que o STF tenha reconhecido a ocorrência de crime ou determinado a abertura de uma nova investigação contra Lula.

Vorcaro pediu garrafa rara e escreveu que precisava presentear Lula

As mensagens reproduzidas no documento mostram que, em 29 de outubro de 2024, dois dias após o aniversário de Lula, Daniel Vorcaro entrou em contato com um assistente identificado como Leo Serrano Giunchetti.

O banqueiro solicitou que fosse localizada uma garrafa da safra de 1945 da destilaria escocesa The Macallan.

Em uma das mensagens, enviadas às 8h59, Vorcaro identificou expressamente o destinatário pretendido.

“Preciso dar pro lula”.

Pouco depois, o empresário reforçou a finalidade da encomenda.

“É pra presente”.

O assistente passou a procurar a bebida com um fornecedor identificado nas conversas como Aurel.

Na tarde do mesmo dia, informou ter encontrado uma garrafa, mas alertou que o rótulo não estava em perfeito estado.

O preço estimado era superior a 80 mil euros, valor equivalente a aproximadamente R$ 500 mil na cotação utilizada pela reportagem.

Mesmo diante do preço e das condições do rótulo, Vorcaro aprovou a opção apresentada.

“Ta otimo”.

As mensagens indicam que a bebida seria transportada de Dubai para o Brasil, com chegada prevista para 31 de outubro de 2024.

Os registros mostram a negociação e a previsão de transporte, mas não incluem, por si só, comprovante de entrega da garrafa ao presidente.

Uísque de R$ 500 mil foi escolhido por causa do ano de nascimento de Lula

A escolha do The Macallan 1945 é destacada pela defesa de Flávio Bolsonaro como um elemento relevante da denúncia.

Lula nasceu em 27 de outubro de 1945, e a safra encomendada por Vorcaro corresponde exatamente ao ano de nascimento do presidente.

O produto pertence a uma categoria de bebidas raras, valorizadas por colecionadores devido à idade, à disponibilidade limitada e às características históricas de determinadas edições.

Segundo a reportagem da Veja, a destilaria escocesa já utilizou safras associadas a datas de nascimento em uma edição comemorativa do casamento do então príncipe Charles com Diana, em 1981.

Na petição, os advogados argumentam que a escolha de uma garrafa tão específica reforçaria a intenção de oferecer um presente personalizado e de alto valor econômico.

Para a defesa, a circunstância precisa ser examinada em conjunto com os interesses que o banqueiro mantinha perante órgãos federais.

Entretanto, a escolha de um presente caro, isoladamente, não comprova corrupção. A caracterização de eventual crime depende da apuração de elementos como recebimento, contexto, finalidade e relação com o exercício da função pública.

Mensagem sobre recado do presidente surgiu após chegada prevista da bebida

Outro ponto destacado pela defesa é a proximidade entre a data prevista para a chegada da garrafa ao Brasil e uma mensagem enviada pelo advogado Walfrido Warde a Daniel Vorcaro.

De acordo com a cronologia apresentada, o uísque deveria chegar ao país em 31 de outubro de 2024.

No dia seguinte, 1º de novembro, Warde procurou o banqueiro afirmando que precisava conversar sobre um recado atribuído a autoridades do governo.

“Bom dia. Preciso falar. Tenho um recado do MJ e do presidente. Quando nós nos vemos”.

A petição relaciona essa comunicação à aproximação de Vorcaro com o Palácio do Planalto.

Entretanto, as mensagens divulgadas não demonstram que o suposto recado tenha relação direta com a garrafa ou que Lula tenha autorizado seu envio.

A defesa considera a sequência temporal relevante e solicita que as circunstâncias sejam esclarecidas pelas autoridades responsáveis.

Reunião entre Lula e Vorcaro ocorreu fora da agenda oficial

A petição também recupera uma reunião realizada em 4 de dezembro de 2024, no Palácio do Planalto, entre Lula e Daniel Vorcaro.

O encontro não constava previamente da agenda oficial do presidente.

A reunião contou ainda com a participação do então ministro da Casa Civil, Rui Costa, e de Gabriel Galípolo, que havia sido indicado para assumir a presidência do Banco Central.

Segundo as informações divulgadas anteriormente, o ex-ministro Guido Mantega participou da articulação do encontro.

Mensagens de Walfrido Warde mostram que o advogado orientou Vorcaro sobre como deveria se apresentar diante de Lula.

Em uma delas, enviada no dia da reunião, Warde recomendou que o banqueiro fosse direto ao explicar suas demandas.

“Fale exatamente o que você quer. É bala de prata”.

Na mesma conversa, o advogado mencionou um assunto relacionado ao futuro presidente de uma autarquia.

A defesa de Flávio Bolsonaro interpreta a referência como uma possível menção ao Banco Central, cuja presidência seria assumida por Gabriel Galípolo em janeiro de 2025.

Essa interpretação, entretanto, é apresentada pelos advogados e não constitui uma conclusão judicial.

O Palácio do Planalto já confirmou a realização do encontro, mas afirma que Lula não ofereceu favorecimento ao banqueiro.

Segundo a versão do presidente, Vorcaro relatou que enfrentava dificuldades e se considerava alvo de perseguição no mercado financeiro.

Lula sustenta que respondeu que qualquer questão envolvendo o Banco Master deveria receber tratamento técnico dos órgãos competentes.

Advogado relatou que Lula agradeceu novamente pelo uísque

Um dos principais elementos utilizados pela defesa é uma mensagem de 22 de janeiro de 2025.

Na conversa, Walfrido Warde afirmou a Daniel Vorcaro que havia encontrado Lula e que o presidente teria perguntado sobre a situação do banqueiro.

O advogado também relatou um suposto agradecimento pela bebida.

“Ele agradeceu mais uma vez o whisky e mandou um abraço”.

A expressão utilizada por Warde já havia sido divulgada anteriormente e motivado questionamentos à Presidência da República.

Na interpretação da defesa de Flávio, o agradecimento reforçaria a hipótese de que o presente havia sido recebido.

Contudo, a mensagem comprova que o advogado fez essa afirmação ao banqueiro, não que Lula tenha efetivamente recebido a garrafa.

Também não há confirmação pública de quando, onde ou por quem a bebida teria sido entregue ao presidente.

Lula disse que não sabe se recebeu o presente e Planalto negou entrega

O presidente Lula já foi questionado publicamente sobre o suposto presente de Daniel Vorcaro.

Durante entrevista à Band, em setembro, afirmou não saber se havia recebido a bebida mencionada nas mensagens.

“Se me deu whisky, já bebi. Eu ganho muita coisa, lembrança, sabe? Não sei se me deu, mas se deu já bebi, pode ficar certo”.

A Secretaria de Comunicação Social da Presidência também negou anteriormente que Lula tenha recebido o uísque ou enviado recados ao ex-controlador do Banco Master.

O governo sustenta que houve apenas um encontro entre o presidente e Vorcaro, realizado em dezembro de 2024.

Segundo o Planalto, a reunião não resultou em tratamento privilegiado ao banco.

A defesa de Flávio Bolsonaro interpreta as mensagens de maneira diferente e afirma que a sequência de contatos precisa ser examinada pelas autoridades.

Até a publicação das informações consultadas, não havia confirmação de uma nova manifestação da Presidência especificamente sobre a petição complementar apresentada nesta sexta-feira.

Defesa aponta suspeitas de corrupção passiva e advocacia administrativa

A petição solicita a apuração de dois possíveis crimes previstos no Código Penal.

O primeiro é corrupção passiva, descrito no artigo 317, que envolve solicitar, receber ou aceitar promessa de vantagem indevida em razão do exercício de uma função pública.

A defesa argumenta que o valor da garrafa, combinado com os interesses empresariais de Vorcaro, justificaria investigar se houve recebimento de vantagem indevida.

O segundo crime citado é advocacia administrativa, previsto no artigo 321 do Código Penal, relacionado ao patrocínio de interesse privado perante a administração pública mediante o uso da condição de funcionário público.

Os advogados relacionam essa hipótese à reunião no Palácio do Planalto e às mensagens sobre assuntos que Vorcaro pretendia discutir com integrantes do governo.

Nenhuma dessas acusações foi demonstrada como fato consumado pela documentação apresentada.

A apuração precisa esclarecer se a bebida foi efetivamente entregue, se houve alguma contrapartida e se agentes públicos praticaram atos que possam caracterizar irregularidades.

Conversas também mencionam festa na Grécia

A petição reproduz ainda mensagens trocadas entre Vorcaro e Warde depois da reunião no Palácio do Planalto.

Nos diálogos, os dois comentaram o encontro e fizeram referências a uma possível festa na Grécia.

Em uma das mensagens, o advogado afirmou, em tom informal, que Lula teria demonstrado interesse em participar de uma celebração.

A defesa incluiu a conversa como parte dos elementos que, em sua avaliação, indicariam proximidade entre o banqueiro e pessoas ligadas ao governo.

O próprio documento, entretanto, reconhece que não há comprovação de que a festa tenha acontecido ou de que Lula tenha participado de qualquer evento desse tipo.

As mensagens também não demonstram que o presidente tenha feito pessoalmente as afirmações atribuídas a ele pelos interlocutores.

Flávio Bolsonaro também é investigado em caso ligado ao Banco Master

O novo pedido contra Lula ocorre em meio a investigações que também alcançam o próprio Flávio Bolsonaro.

O senador é investigado no STF por suspeitas relacionadas a negociações para o financiamento de Dark Horse, produção audiovisual sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Documentos da Polícia Federal apontaram contatos entre Flávio e Daniel Vorcaro envolvendo a captação de recursos para o projeto.

O senador nega irregularidades e afirma que as negociações ocorreram no âmbito de uma iniciativa privada.

As investigações envolvendo Flávio e o pedido apresentado contra Lula tratam de fatos distintos e não permitem presumir a responsabilidade criminal de nenhum dos envolvidos.

A controvérsia ganhou espaço na reta final da campanha presidencial de 2026, na qual Lula e Flávio Bolsonaro disputam o segundo turno, marcado para domingo (25).

O que a defesa de Flávio Bolsonaro pede ao STF?

No encerramento da petição, os advogados solicitam que o documento seja incorporado aos autos do Inquérito 5.026/DF.

Também requerem o encaminhamento das informações ao procurador-geral da República para avaliação da instauração de um inquérito destinado a apurar as suspeitas de corrupção passiva e advocacia administrativa.

A defesa considera que as novas mensagens, somadas aos registros anteriormente divulgados, justificam uma investigação formal.

A decisão sobre eventuais providências caberá às autoridades competentes, respeitadas as atribuições da Procuradoria-Geral da República e do Supremo Tribunal Federal.

Por enquanto, o que está documentado é a intenção de Vorcaro de comprar uma bebida rara para Lula, a articulação de uma reunião no Planalto e o relato de um advogado sobre um suposto agradecimento do presidente.

A confirmação de que o uísque foi entregue, a identificação de eventual contrapartida e a existência de algum crime continuam sendo questões que dependem de apuração.