Flávio Bolsonaro usa linguagem neutra para pedir união da direita em 2026
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) usa linguagem neutra em uma publicação no X, em fevereiro de 2026, para pedir união total da direita contra Lula. A frase, carregada de ironia, provoca reação imediata no bolsonarismo e expõe fissuras na pré-campanha presidencial.
Post irônico acende disputa na família Bolsonaro
O movimento parte de um dos protagonistas da eleição de 2026. Pré-candidato ao Palácio do Planalto pelo PL, Flávio tenta falar ao mesmo tempo com a base conservadora e com segmentos mais amplos do eleitorado. Ele escreve: “Tá todo mundo querendo vencer a discussão. Mas o que precisamos é ganhar a eleição! Gostaria de contar com todas, todos, todes, todys e todxs!”.
A escolha das palavras quebra um padrão do campo em que ele se move há pelo menos seis anos. A linguagem neutra, identificada com movimentos progressistas e com parte da militância LGBTQIA+, costuma ser tratada como alvo de piada ou de repúdio pela direita. Em 2021, o então presidente Jair Bolsonaro, do mesmo PL, chama o recurso de “linguagem neutra dos gays” e afirma que isso “estraga a garotada”.
O filho mais velho agora se vale desse repertório para tentar conter um incêndio doméstico. Desde o início de fevereiro, os irmãos Carlos Bolsonaro (PL) e Eduardo Bolsonaro (PL) ampliam o tom das cobranças públicas a aliados que, na avaliação deles, dão apoio tímido à pré-campanha de Flávio. Nas redes, os dois apontam nominalmente figuras que cresceram à sombra do bolsonarismo e, na visão do clã, demonstram hesitação em se comprometer com o novo projeto presidencial.
Eduardo mira o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL). Em postagens sucessivas, acusa os dois de “amnésia” e de falta de lealdade política. O recado atinge dois dos principais puxadores de voto do campo conservador em 2022. Nikolas se elege com mais de 1,4 milhão de votos por Minas Gerais; Michelle comanda atos de rua e lidera, desde 2023, o núcleo feminino do partido.
O apelo de Flávio surge nesse ambiente de cobrança pública e desgaste interno. Ao recorrer a “todas, todos, todes, todys e todxs”, o senador, de 44 anos, tenta uma saída pela ironia: adota o vocabulário que o bolsonarismo combate para sugerir que qualquer divisão agora serve apenas ao adversário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca um novo mandato em outubro de 2026.
Estratégia eleitoral rara no campo conservador
A aposta em linguagem neutra dentro de um discurso conservador chama atenção entre analistas políticos e marqueteiros que acompanham o processo. Nas últimas três eleições presidenciais, de 2014, 2018 e 2022, candidatos de direita preferem reforçar uma identidade cultural rígida, com ênfase em família tradicional, religião e combate ao “politicamente correto”. A postagem de Flávio rompe essa linha ao menos no plano simbólico.
O gesto não significa adesão às pautas progressistas na área de costumes, mas indica um cálculo pragmático. Com o eleitorado polarizado desde 2018 e o país dividido em dois blocos de cerca de 49% e 51% nas urnas presidenciais de 2022, qualquer campanha viável precisa reduzir rejeições e ampliar a margem de diálogo. Ao ironizar a linguagem neutra sem atacá-la frontalmente, o senador tenta se aproximar de eleitores que rejeitam o PT, mas também se incomodam com discursos considerados hostis a minorias.
O movimento, porém, encontra resistência dentro do próprio bolsonarismo. Nas horas seguintes à publicação, perfis influentes associados à família ironizam o uso de “todes” e afirmam que a direita não precisa recorrer a “pautas identitárias” para vencer Lula. A reação reforça a imagem de um campo fragmentado, no qual parte dos aliados vê na moderação de tom um risco de “traição” ao bolsonarismo raiz.
O histórico ajuda a explicar a temperatura. Desde a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, definida pelo Tribunal Superior Eleitoral em 2023, o grupo tenta reorganizar sua liderança nacional. Flávio surge como opção natural por ocupar mandato no Senado até 2030 e manter diálogo com empresários, militares e caciques do Centrão. A escalada de críticas de Eduardo e Carlos, no entanto, mostra que a sucessão dentro da própria família está longe de ser consensual.
A postagem com linguagem neutra vira, assim, mais do que uma peça de redes sociais. Ela funciona como sinal público de qual aposta política o pré-candidato está disposto a fazer: uma campanha menos marcada por confrontos culturais e mais centrada na viabilidade eleitoral, ainda que isso custe atritos com a base mais radicalizada.
Impacto na campanha e debates sobre linguagem
A mensagem de Flávio repercute em dois planos simultâneos. No curto prazo, intensifica o debate sobre quem de fato comanda o campo bolsonarista na eleição de 2026 e como essa candidatura vai se posicionar. No médio prazo, pode funcionar como teste de recepção para um discurso que busca desarmar parte da guerra cultural que marcou o período entre 2018 e 2022.
Especialistas em comunicação política ouvidos nos bastidores avaliam que a escolha de vocabulário tem peso concreto na formação de imagem. Ao usar, ainda que em tom de sátira, termos como “todes” e “todxs”, o senador se afasta do estilo de Jair Bolsonaro, que em 2021 associa a linguagem neutra à “ideologia de gênero” e promete vetar qualquer menção ao tema em materiais oficiais do governo federal. O contraste pode atrair setores de centro-direita incomodados com ataques a professores, artistas e ativistas.
O PL acompanha de perto as reações, principalmente em praças eleitorais decisivas como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, que somam mais de 40% do eleitorado brasileiro. Em 2022, Lula vence por uma diferença de 2,1 milhões de votos no segundo turno, o equivalente a 1,8% dos votos válidos. Numa disputa tão apertada, assessores avaliam que pequenos gestos simbólicos podem deslocar segmentos específicos, especialmente entre jovens e mulheres urbanas.
O gesto de Flávio também recoloca a discussão sobre a própria linguagem política. A disputa em torno do uso de pronomes e flexões sem marca de gênero ganha força em escolas, universidades, igrejas e redes sociais desde pelo menos 2019. Diversos estados e câmaras municipais tentam aprovar leis que proíbem a linguagem neutra em materiais didáticos, o que gera ações judiciais e questionamentos de constitucionalidade. Ao se apropriar dessa pauta para falar em unidade eleitoral, o senador adiciona um novo capítulo ao embate cultural.
Desafios para unificar a direita até outubro
A frase publicada no X não encerra o conflito no entorno da família Bolsonaro. Eduardo e Carlos seguem ativos nas redes, repetem críticas veladas a aliados considerados “ingratos” e insistem em vincular qualquer movimento político ao legado direto do pai. A disposição de Flávio em testar novas linguagens e calibrar o discurso indica que a disputa por protagonismo deve acompanhar toda a pré-campanha.
Os próximos meses serão decisivos para medir se a estratégia rende dividendos eleitorais ou amplia a fissura interna. A direita chega a 2026 forte em número de votos, mas mais dividida em lideranças, partidos e agendas do que em 2018. A capacidade de Flávio de manter o apoio do núcleo duro bolsonarista enquanto tenta furar o bloqueio de rejeição fora da bolha vai determinar se o apelo a “todas, todos, todes, todys e todxs” vira um marco de virada ou apenas um gesto isolado em uma campanha ainda em busca de forma.
