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Flávio Bolsonaro exalta Trump 2.0 e se lança como opção moderada em 2026

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) elogia o segundo mandato de Donald Trump e promete, neste sábado (28), um “Bolsonaro 2.0” melhor que o governo do pai, em discurso na CPAC, no Texas. Diante de uma plateia conservadora, o senador se apresenta como alternativa mais moderada na disputa presidencial de outubro de 2026 contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Trump como espelho e a aposta em um “Bolsonaro 2.0”

No palco principal da conferência anual de conservadores americanos, Flávio busca arrancar do público mais do que aplausos. Ele tenta construir ali, diante de líderes da direita internacional, um enredo para sua própria campanha ao Planalto. Ao citar o aliado republicano, ele afirma que a nova gestão da Casa Branca é um modelo para o que pretende fazer no Brasil.

“Trump 2.0 é muito melhor que Trump 1.0, não é? Pois Bolsonaro 2.0 também será muito melhor”, diz o senador de 44 anos, ovacionado no Texas. A mensagem condensa duas frentes: reverência ao ex-presidente americano e promessa de superar o legado do pai, Jair Bolsonaro, hoje condenado por tentativa de golpe de Estado e em prisão domiciliar em Brasília.

O discurso ocorre a sete meses do primeiro turno, previsto para outubro de 2026, em meio a um cenário já polarizado. Pesquisas recentes apontam Flávio e Lula em empate técnico na liderança das intenções de voto, o que antecipa uma disputa direta entre o herdeiro do bolsonarismo e o petista de 80 anos, que busca um quarto mandato presidencial.

Flávio tenta se afastar da imagem confrontacional que marcou o governo do pai e sua própria carreira inicial. Em vez de ataques frontais permanentes, ele insiste na ideia de moderação, mas mantém o repertório de suspeitas sobre o sistema eleitoral e críticas às instituições brasileiras, bandeiras centrais da direita radical que o impulsionou até aqui.

A disputa com Lula e a pressão sobre o sistema eleitoral

Ao falar para militantes americanos, o senador transforma a eleição brasileira em tema global. Ele acusa, sem apresentar provas, a administração do ex-presidente Joe Biden de interferir no pleito de 2022 para favorecer Lula. “Não queremos interferências nas eleições no Brasil, como fez a administração Biden para levar Lula ao poder”, afirma, retomando uma narrativa que já havia circulado entre apoiadores do pai.

Flávio também mira o funcionamento da Justiça brasileira e das plataformas digitais. “Se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contabilizados corretamente, vamos ganhar”, diz, ao ecoar críticas frequentes da direita à atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Desde 2022, decisões do STF e do TSE determinam a remoção de perfis acusados de espalhar desinformação sobre eleições, vacinas e instituições. Grupos conservadores tratam as ordens judiciais como censura política. O Supremo argumenta que aplica a legislação existente para conter ataques coordenados ao regime democrático.

A trajetória recente de Jair Bolsonaro é o pano de fundo da fala do filho. Derrotado por Lula no segundo turno de 2022, o ex-presidente é declarado inelegível pelo TSE por disseminar acusações sem provas contra as urnas eletrônicas. Em setembro de 2025, o STF o condena a 27 anos de prisão por conspirar para se manter no poder “de forma autoritária” após a derrota eleitoral.

Desde sexta-feira, Bolsonaro cumpre pena em prisão domiciliar em Brasília, após decisão judicial que o afasta da unidade prisional especial conhecida como Papudinha, para onde voltaria após duas semanas de internação por broncopneumonia. Em dezembro, antes da condenação definitiva, ele aponta publicamente Flávio como herdeiro político e candidato do bolsonarismo à Presidência.

Campanha antecipada, base radical e busca por moderação

A fala na CPAC funciona como vitrine internacional para essa transição. Flávio tenta calibrar o discurso para não romper com a base mais fiel do pai, majoritária no bolsonarismo, e ao mesmo tempo se vender como figura capaz de dialogar com setores desconfiados dos ataques às instituições. É uma equação delicada, que se desenha em público, diante de aliados que veem a eleição brasileira como parte de uma guerra cultural mais ampla.

Ao pedir que “as eleições brasileiras sejam observadas com extrema atenção” e que haja “pressão diplomática para que as instituições funcionem corretamente”, o senador envia recado direto a governos e organizações estrangeiras. Não se trata apenas de observadores eleitorais tradicionais, mas de apoio político declarado em um cenário em que a imagem externa do Brasil pesa na economia, no ambiente de negócios e nas relações diplomáticas.

A retórica de desconfiança em relação às urnas e ao Judiciário, porém, tem custo interno. Parte do empresariado e de setores do centro político já manifesta preocupação com a repetição, agora em versão 2.0, do clima que antecede o 8 de Janeiro de 2023, quando apoiadores de Jair Bolsonaro depredam a Praça dos Três Poderes em Brasília, em protesto golpista contra a vitória de Lula.

Enquanto isso, Lula usa a máquina do governo para reforçar programas sociais, acelerar obras de infraestrutura e buscar crescimento econômico próximo de 3% em 2026, segundo projeções otimistas da equipe econômica. A estratégia petista é contrastar estabilidade institucional e recuperação gradual de indicadores com a incerteza ligada ao retorno do bolsonarismo ao Planalto.

A campanha de Flávio, por sua vez, aposta no desgaste do governo, em temas como segurança pública, custo de vida e desconfiança com o Judiciário. A narrativa de vítima de perseguição política, usada pelo pai desde a Lava Jato, volta à cena, agora com o argumento da prisão domiciliar e de uma suposta criminalização da direita.

CPAC como palco e o que esperar até outubro

A escolha da CPAC no Texas como palco não é casual. O evento reúne figuras centrais da direita global e serve como espaço de alinhamento de estratégias de comunicação, financiamento e mobilização digital. Ao aparecer ali como possível futuro presidente do Brasil, Flávio tenta ampliar sua rede de aliados, do entorno de Trump a influenciadores que falam para milhões de pessoas em diferentes países.

Nos bastidores, auxiliares do senador avaliam que a presença constante em palcos internacionais ajuda a blindá-lo de parte das investigações e a reforçar a imagem de estadista em formação. A aposta é que, diferentemente do pai, Flávio consiga manter o discurso duro sem cruzar linhas que possam levar a novas ações no TSE ou no STF.

A sete meses da eleição, porém, o tabuleiro permanece aberto. A disputa entre Lula e Flávio, ambos líderes nas pesquisas, deve se intensificar à medida que a campanha oficial se aproxima e que a Justiça eleitoral define regras para o uso das redes sociais e o combate à desinformação.

O sucesso da estratégia de um “Bolsonaro 2.0” mais moderado dependerá de dois movimentos simultâneos: segurar a base radical que ainda se mobiliza em torno do ex-presidente condenado e conquistar o eleitor que rejeita extremos, mas ainda não encontrou alternativa clara. A resposta virá nas urnas, sob o olhar atento, e cada vez mais interessado, de plateias no Brasil e no exterior.

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