Flamengo vence Flu nos pênaltis e é tri carioca com estreia de Jardim
O Flamengo derrota o Fluminense nos pênaltis por 5 a 4, após 0 a 0 no tempo normal, neste domingo (8), no Maracanã, e conquista o Carioca de 2026. O goleiro Rossi defende a cobrança decisiva, garante o 40º título estadual rubro-negro e transforma a estreia de Leonardo Jardim em taça.
Rossi vira herói em final tensa e sem gols
O clássico arrasta 62.985 pagantes ao Maracanã, rende R$ 5.270.903,50 e oferece mais tensão do que chances claras. O Flamengo tem a bola, o Fluminense fecha espaços, e o jogo se desenha em um tabuleiro de paciência, com poucas brechas nas duas áreas.
Leonardo Jardim monta o time com Arrascaeta e Pedro por dentro, Carrascal e Samuel Lino abertos, e mantém a estrutura usada por Filipe Luís. Varela avança até a última linha, o time forma quase um 3-2-5 quando ataca, mas encontra uma barreira tricolor compacta à frente da área.
Pedro tem a melhor chance rubro-negra no primeiro tempo, em chute defendido sem susto por Fábio. O Fluminense responde com tentativas de média distância, quase sempre sem direção. A disputa se concentra entre o círculo central e a intermediária, com faltas, disputas duras e pouco espaço para criação.
Luís Zubeldía ajusta o Flu para o segundo tempo. O time aumenta a pressão na saída de bola do Flamengo e consegue a melhor oportunidade do jogo até ali, em finalização de Lucho Acosta, que Rossi defende com segurança. O lance liga o alerta na defesa rubro-negra, mas não muda o roteiro de equilíbrio.
Aos 19 minutos da etapa final, Jardim mexe para tentar quebrar o bloqueio. Tira Carrascal e Samuel Lino, coloca Paquetá e Cebolinha. O camisa 10 volta ao Maracanã com função diferente: atua como meia aberto pela direita, ajudando na circulação de jogo e na pressão pós-perda.
O clássico fica mais truncado. O Fluminense ronda a área do Flamengo com cruzamentos, chutes de longe e bolas paradas. A torcida tricolor pede Savarino, e Zubeldía responde com uma bateria de trocas: entram Guga, Guilherme Arana e o próprio Savarino para renovar o fôlego pelos lados.
Sem Bruno Henrique, fora por pubalgia, Jardim volta a recorrer a uma solução típica da era Filipe Luís. Aos 28, tira Pedro e coloca Plata, buscando mais mobilidade e ataque ao espaço. A partida, porém, continua engessada. As últimas mexidas chegam apenas aos 40, quando Arrascaeta dá lugar a Luiz Araújo, enquanto Ganso e Otávio entram no Flu nas vagas de Lucho Acosta e Hércules.
O árbitro Bruno Arleu concede apenas dois minutos de acréscimo. O 0 a 0 se impõe, o Maracanã prende a respiração, e a primeira final de Carioca em jogo único vai para os pênaltis.
Tricampeonato, alívio em crise e marca histórica
A disputa por penalidades começa sem espaço para erro. Jorginho e Ganso convertem as primeiras cobranças. Luiz Araújo para em Fábio, e Savarino aproveita a brecha para colocar o Fluminense à frente. O título parece escorregar pelos dedos do Flamengo por um instante.
Cebolinha recoloca o time na disputa. Rossi então aparece pela primeira vez como protagonista da série, ao defender a cobrança de Guga. Léo Pereira e Guilherme Arana convertem. Paquetá bate o quinto pênalti rubro-negro, Fábio ainda toca na bola, mas ela entra. John Kennedy marca e leva a decisão para as alternadas.
Léo Ortiz assume a responsabilidade pelo Flamengo e converte. Na cobrança seguinte, Otávio para em Rossi, que salta para a direita, espalma e sela o 5 a 4 nas penalidades. O goleiro, criticado em momentos recentes, sai do gol ovacionado pela torcida. O título carioca, desta vez, tem luvas e sotaque argentino.
A conquista representa o 40º Campeonato Carioca do clube, disparado o maior vencedor do Estado. O Fluminense, vice deste ano, segue em segundo na lista histórica, com 33 taças. O título também vale mais que um número nos livros: fecha um tricampeonato estadual iniciado em 2024 e 2025, o sétimo “tri” do Flamengo na história da competição.
O contexto amplia o peso da taça. O Flamengo chega ao Carioca sob desconfiança, após perder a Supercopa e a Recopa no início da temporada, mesmo como atual campeão da Libertadores. O clube inicia o Estadual com o time sub-20, flerta com a eliminação na fase de grupos e só reage quando antecipa o retorno dos titulares para o mata-mata.
A mudança de rota evita um vexame precoce e prepara o terreno para a final única contra o rival de melhor campanha na Taça Guanabara. O Fluminense chega à decisão com desempenho superior na fase classificatória, mas encontra um Flamengo mais sólido defensivamente e disposto a travar o jogo, mesmo sem brilho ofensivo.
Nos bastidores, a semana é turbulenta. A diretoria demite Filipe Luís, multicampeão como jogador e em início promissor como técnico, e aposta em Leonardo Jardim, português com experiência em Monaco, Olympiacos e Oriente Médio. O Maracanã recebe o novo treinador com curiosidade, mas não esquece o antecessor: uma das organizadas leva bandeira com o rosto de Filipe, em gesto de carinho e saudade.
O primeiro Flamengo de Jardim se apoia mais na continuidade do que na ruptura. A ideia de jogo se assemelha muito à de Filipe, tanto no desenho tático quanto nas substituições. O resultado oferece tempo para ajustes e reduz a pressão imediata sobre o novo técnico, que estreia com título em um dos ambientes mais cobrados do país.
Calendário cheio, cobrança alta e próximos desafios
O efeito prático do título aparece já na próxima semana. O Flamengo volta ao Maracanã na quarta-feira para enfrentar o Cruzeiro, também campeão estadual, pelo Campeonato Brasileiro. O time entra em campo com moral elevada, mas ainda com a obrigação de mostrar evolução ofensiva e maior consistência nas atuações.
O elenco de Jardim ganha fôlego político junto à torcida e à diretoria. A conquista carioca funciona como escudo em um clube acostumado a pressão diária, mas não elimina as dúvidas sobre equilíbrio físico, definição do time titular e gestão de minutos em um calendário que inclui Brasileirão, Copa do Brasil e mata-mata continental.
O Fluminense, derrotado nos pênaltis, deixa o Maracanã com frustração, mas não em crise. A equipe de Zubeldía mantém a boa base que fez a melhor campanha da Taça Guanabara, mas sai da final com a sensação de que poderia ser mais agressiva. A reação precisa ser rápida: na quinta-feira, o time viaja a Belém para encarar o Remo, no Mangueirão, em teste importante de retomada.
O clássico reafirma o equilíbrio recente entre os rivais e mantém o futebol carioca em evidência nacional. A decisão em jogo único concentra audiência, renda alta e pressão máxima em 90 minutos, além da loteria dos pênaltis. A federação e os clubes agora medem o impacto esportivo e financeiro desse formato para definir o desenho das próximas edições.
O Flamengo sai com a taça, o goleiro em alta e o técnico estreante respaldado. O Fluminense volta para casa com um vice-campeonato e um roteiro de ajustes para o restante da temporada. O Estadual termina, mas a pergunta que fica para os próximos meses é simples e pesada: quem transforma melhor essa noite de março em combustível para brigar por títulos nacionais?
