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Flamengo perde duas taças, entra em crise e vê Cebolinha anunciar saída

O Flamengo vive a primeira grande crise da era Filipe Luís após perder a Supercopa do Brasil e a Recopa Sul-Americana em 26 dias. Em meio à pressão sobre o técnico, Everton Cebolinha antecipa, diante das câmeras, que não ficará no clube em 2027, a dez meses do fim de seu contrato.

Derrotas em sequência transformam temporada

O roteiro da crise começa em 1º de fevereiro, em Brasília. Diante do Corinthians, a equipe rubro-negra perde a Supercopa do Brasil por 2 a 0 e deixa escapar o primeiro troféu do ano. Vinte e seis dias depois, a ferida se aprofunda no Maracanã lotado, sob chuva constante, quando o time cai por 3 a 2 para o Lanús, na prorrogação, e vê a Recopa Sul-Americana escapar em casa.

O contexto torna o golpe mais duro. Filipe Luís completa 16 meses no comando e atinge a marca de 100 jogos como técnico profissional justamente no auge da contestação. A equipe mostra fragilidade defensiva, volta a sofrer gols em bolas aéreas, como já ocorrera no jogo de ida contra os argentinos e na derrota recente para o São Paulo, e depende de dois pênaltis para marcar, um deles contestado, cavado por Arrascaeta.

Na entrevista pós-jogo, o técnico insiste em enxergar um outro cenário em campo. “Fizemos um grande jogo, o time jogou o tempo todo dentro do campo do adversário”, afirma. O discurso destoa da arquibancada irritada e da análise de parte da diretoria, que vê uma equipe previsível, com pouca criatividade ofensiva e falhas repetidas na defesa.

O clima se torna mais pesado quando, ainda na zona mista, Everton Cebolinha decide expor o futuro. Diante de mais de 64 mil torcedores decepcionados que deixam o estádio, o camisa 11 anuncia que não ficará no clube em 2027. O contrato do atacante, porém, só termina daqui a dez meses, o que transforma a declaração em um recado público sobre o ambiente interno e a relação desgastada com o projeto esportivo atual.

Bastidores em ebulição e pressão sobre o projeto

Os bastidores revelam um clube em rota de colisão entre discurso de longo prazo e urgência por resultados. O presidente Luiz Eduardo Baptista, o BAP, defensor de um modelo com manutenção do treinador e trabalho de continuidade, convoca o elenco para uma conversa dura no sábado, véspera da decisão da Recopa. A reunião tenta ajustar rota e cobrar reação imediata após a perda da Supercopa, mas o time volta a fracassar dias depois.

No Maracanã, a cena pós-jogo ajuda a contar a história. No auditório do estádio, apenas Filipe Luís e o pessoal do departamento de comunicação se posicionam à frente das câmeras. José Boto, diretor de futebol, que em outras noites circula e conversa com jornalistas, se recolhe atrás de uma pilastra. A ausência simbólica indica desconforto com o momento e com as escolhas recentes.

A renovação de contrato do treinador, anunciada depois de uma longa negociação, já havia deixado cicatrizes. Parte da diretoria acha excessiva a exposição do clube ao prolongar conversas, enquanto conselheiros e aliados políticos cobram firmeza na condução do departamento de futebol. A sequência de duas taças perdidas em menos de um mês alimenta a ala que defende mudanças imediatas na comissão técnica.

Dentro do vestiário, o anúncio antecipado de Everton Cebolinha expõe um outro flanco. A gestão de elenco aparece sob suspeita, com jogadores questionando espaço, funções em campo e perspectiva esportiva até o fim da temporada. A declaração em plena zona mista, interpretada como intempestiva por dirigentes, vira símbolo de uma insatisfação que já não cabe apenas nas paredes internas do Ninho do Urubu.

A imagem do Flamengo, que encerra 2025 como protagonista nacional e presença constante em decisões continentais, sofre arranhões. Em menos de um mês, o clube perde títulos para um rival direto no mercado interno, o Corinthians, e para um adversário que, em teoria, se apresenta tecnicamente inferior, o Lanús, mas que exibe plano de jogo mais claro em 210 minutos de confronto.

Futuro de Filipe Luís, elenco sob revisão e temporada em xeque

O impacto da crise vai além da frustração imediata nas arquibancadas. A confiança da torcida, base de um projeto que movimenta cifras altas em bilheteria, programas de sócio-torcedor e contratos de patrocínio, sofre abalo visível. Nas redes sociais, organizadas e influenciadores ampliam a pressão por mudanças no comando técnico e questionam a convicção da diretoria em manter Filipe Luís após 100 jogos.

O elenco também entra em revisão. A diretoria passa a discutir, de forma mais intensa, quais jogadores ainda se encaixam no desenho pensado para 2026 e quais devem ser negociados antes do fim do ano, caso de Everton Cebolinha, que agora dificilmente cumpre o contrato até o último dia. A tendência é que a janela do meio da temporada se transforme em ponto de inflexão, com possíveis saídas e reposições pontuais, em vez de uma reforma ampla.

A final do Estadual, para a qual o time está virtualmente classificado, ganha peso que não estava no planejamento inicial. O título local, que em outros anos serve apenas como ajuste fino, vira teste de sobrevivência para a comissão técnica e termômetro da paciência da arquibancada. Uma nova frustração, em sequência às perdas da Supercopa e da Recopa, pode tornar irreversível o ambiente de ruptura.

O presidente BAP segura, por enquanto, o discurso de estabilidade e reafirma internamente a aposta em continuidade. O próximo ato, porém, precisa conciliar convicção com leitura de realidade: manter Filipe Luís sob pressão crescente ou recuar do projeto de longo prazo para tentar estancar a sangria com um novo nome no comando.

Entre reuniões de diretoria, monitoramento de redes sociais e sondagens discretas no mercado de treinadores, o Flamengo entra em março mais pressionado do que imaginava ao desenhar a temporada. A bola volta a rolar já sob o ruído constante de questionamentos. A resposta em campo, nos próximos jogos, dirá se a crise atual é tropeço de percurso ou o início de uma ruptura mais profunda no projeto esportivo rubro-negro.

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