Flamengo barra forma de pagamento e trava saída de Wallace Yan
A venda de Wallace Yan do Flamengo para o Red Bull Bragantino trava por causa da forma de pagamento combinada entre os clubes, nesta terça-feira (27). O negócio de 10 milhões de euros esbarra no teto financeiro de 5 milhões de euros por contratação imposto pela holding da equipe paulista. A diretoria rubro-negra mantém a intenção de vender, mas rejeita receber metade do valor apenas em 2027.
Limite da holding vira obstáculo para acordo
Flamengo e Red Bull Bragantino chegam a um valor, mas não a um fluxo de pagamento. O clube paulista oferece 5 milhões de euros em 2026 e os outros 5 milhões de euros só em 2027. O modelo segue a regra interna da holding Red Bull, que autoriza gastos de até 5 milhões de euros por contratação sem necessidade de aval dos donos.
O acerto parecia encaminhado quando as partes discutem apenas detalhes burocráticos. A trava surge na volta das férias do presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap. Ao tomar conhecimento da proposta parcelada, o dirigente rejeita o formato. A avaliação interna é de que um atleta valorizado, em idade de revenda, não pode sair com metade do pagamento postergada por um ano inteiro.
A posição da presidência muda o tom da negociação. Dirigentes que tratam do negócio com o Bragantino reforçam que o Flamengo quer vender o atacante de 20 anos, mas exige garantias mais robustas e um fluxo de caixa menos espaçado. A bola volta para o lado paulista, que precisa ou obter autorização da holding para ultrapassar o teto de 5 milhões de euros em um único ano ou apresentar outra engenharia financeira.
Nos bastidores, a leitura é de que o caso expõe os limites do modelo corporativo no futebol brasileiro. O Bragantino, controlado por uma multinacional com presença em diferentes ligas, opera com tetos e controles rígidos. Sem aval superior, o clube não consegue assumir um compromisso imediato de 10 milhões de euros por um único jogador, mesmo enxergando potencial esportivo e de revenda em Wallace Yan.
Jogador entra em limbo e treina à parte
Enquanto os dirigentes discutem planilhas, Wallace Yan vive uma situação desconfortável. No dia da derrota do Flamengo para o Bangu por 2 a 1, pelo Campeonato Carioca, ele vai às câmeras convencido de que se despede do clube. O atacante afirma, em lágrimas, que está deixando o lugar onde se formou.
“Foi meu último jogo pelo Flamengo. Tudo o que eu passei aqui, conquistei muitas coisas. Fico até emocionado com todo o carinho da torcida. Estou indo embora de casa”, diz, ainda no gramado. A entrevista corre o país, e a saída parece questão de dias. O anúncio oficial, porém, nunca chega.
Depois daquela noite, Wallace não entra mais em campo com a camisa rubro-negra. O Flamengo faz ainda um jogo com o time sub-20, derrota por 3 a 0 para o Volta Redonda, sem a presença do atacante. Em seguida, o técnico Filipe Luís passa a usar jogadores do elenco profissional na vitória por 1 a 0 sobre o Vasco e na derrota por 2 a 1 para o Fluminense, ambas sem o jovem de 20 anos sequer no banco.
No Ninho do Urubu, o cenário reforça a sensação de limbo. Wallace deixa de treinar com o grupo principal e segue rotina à parte, em atividades individuais. O clube evita exposição maior, mas também não recua da estratégia de aguardar um desfecho da negociação. O jogador, que se declara pronto para mudar de ares, convive com a incerteza sobre quando e onde volta a atuar em jogos oficiais.
A situação também impacta o planejamento do Bragantino. O clube estrutura a temporada contando com a chegada de um atacante jovem, com experiência em time de massa e potencial de revenda para a Europa. Cada semana de indefinição adia a integração de Wallace ao elenco e dificulta o trabalho da comissão técnica na montagem do time para 2026.
Pressão por solução e debate sobre modelo de gestão
O impasse financeiro revela uma tensão comum no futebol atual: o choque entre a pressa esportiva e a rigidez das estruturas corporativas. No caso do Bragantino, o limite de 5 milhões de euros por contratação sem aval da holding funciona como filtro de risco. A regra protege o caixa do grupo, mas reduz a agilidade do clube em disputas de mercado mais agressivas.
Do lado do Flamengo, a recusa ao pagamento com parte apenas em 2027 aponta para uma postura de maior controle sobre o fluxo de receitas. O clube vive anos de orçamento robusto, mas também de grandes investimentos, e entende que abrir mão de um ativo como Wallace sem recebimento mais imediato pode comprometer futuras operações. A diretoria busca evitar um cenário em que o jogador saia, o dinheiro demore a entrar e o atleta perca valor em caso de revenda intermediária.
Torcedores observam de perto cada movimentação. Parte reclama da paralisação da carreira de um jovem formado no clube e vê exagero na condução da diretoria. Outra ala cobra firmeza na mesa de negociação, defendendo que o Flamengo não aceite condições que julga desfavoráveis apenas para encerrar o caso. O nome de Wallace vira tema recorrente em programas esportivos e redes sociais.
Analistas enxergam no episódio um laboratório para futuras negociações envolvendo clubes brasileiros controlados por holdings ou fundos. A tendência de internacionalização da gestão convive com a urgência dos campeonatos locais, em que reforços precisam chegar, treinar e jogar em questão de semanas. Quando a decisão depende de estruturas globais, prazos se alongam e negócios correm o risco de perder o timing.
Negociação segue aberta e mantém futuro em suspenso
Flamengo e Red Bull Bragantino ainda buscam uma fórmula para destravar a transferência. Uma alternativa passa por novo desenho de parcelas, com maior entrada em 2026 e menor fatia em 2027, possivelmente atrelada a metas esportivas. Outra opção envolve a própria holding, que pode rever, de forma pontual, o teto de 5 milhões de euros por contratação, caso enxergue retorno suficiente no médio prazo.
Caso não haja acordo, o cenário mais provável é a permanência de Wallace sob contrato com o Flamengo, mas sem espaço claro no elenco. A situação força o clube carioca a decidir se reintegra o atacante ao grupo ou se busca outro comprador em um mercado já movimentado. Para o jogador, cada dia fora das partidas oficiais representa perda de ritmo e visibilidade em um momento crucial da carreira.
O desfecho do caso deve alimentar o debate sobre como clubes brasileiros negociam em um ambiente cada vez mais dominado por tetos, comitês e aprovadores externos. A dúvida, por enquanto, segue sem resposta: quem cede primeiro, a rigidez financeira da holding ou a estratégia esportiva dos clubes em campo?
