Fim da jornada 6×1 acirra disputa entre governo e empresas
A proposta do governo de substituir a jornada 6×1 pelo regime 5×2 acende um conflito direto com empresários brasileiros nesta terça-feira (24). Entidades patronais preveem demissões em massa e pressão extra sobre a inflação, enquanto a equipe econômica reage e classifica os alertas como “terrorismo econômico”.
Empresários falam em demissões e governo reage
O embate se intensifica em Brasília desde o início de fevereiro, quando o Ministério do Trabalho apresenta o esboço do projeto que restringe o uso da jornada 6×1 e torna o 5×2 o padrão para a maioria das categorias. A mudança, segundo integrantes da equipe, passa a valer gradualmente a partir de 1º de janeiro de 2027, com período de adaptação de 12 a 24 meses, conforme o setor.
Centrais empresariais calculam aumento imediato de até 12% na folha de pagamentos em segmentos como comércio, indústria de alimentos e serviços de logística, que hoje funcionam sete dias por semana. “Com essa regra, muitas empresas vão reduzir turnos, demitir e repassar custo para o preço final. O consumidor vai pagar a conta”, afirma, em nota, um dirigente da Confederação Nacional da Indústria. A entidade fala em risco de fechamento de pequenos negócios e cita estimativa própria, ainda sem detalhamento público, de até 500 mil vagas extintas em dois anos.
No governo, a avaliação é oposta. Integrantes da área econômica dizem que os números são “inflados” e que o impacto inflacionário seria “marginal e temporário”, inferior a 0,3 ponto percentual no IPCA ao longo de 2027. “Não há nenhum estudo sério que aponte explosão de preços ou tsunami de demissões. O que existe é resistência à formalização de jornadas mais humanas”, afirma um técnico do Planejamento, sob reserva.
A discussão atinge o Congresso em ano de disputa antecipada por protagonismo econômico. Lideranças governistas afirmam trabalhar por aprovação do texto ainda no primeiro semestre, enquanto a oposição articula audiências públicas e promete obstrução. Nas conversas de bastidor, deputados de partidos do centrão cobram do Planalto simulações detalhadas por setor e região, sobretudo no varejo e no agronegócio.
Jornada 5×2 mexe com rotina e com a conta
A transição de um modelo de seis dias trabalhados por um de descanso para a escala de cinco dias de trabalho e dois de folga mexe com as engrenagens de setores que dependem de plantões extensos. Redes de supermercados, farmácias e empresas de transporte urbano afirmam que terão de contratar mais para manter a mesma operação diária, já que dois dias fixos de folga por semana reduzem a flexibilidade de escala. Em alguns grupos, o aumento do quadro é estimado em 8% a 10% até 2028.
Especialistas em mercado de trabalho apontam, porém, que o efeito líquido pode ser diferente do que sugerem os discursos de emergência. “Em experiências internacionais, jornadas mais equilibradas tendem a reduzir afastamentos, rotatividade e custos indiretos. A questão é o ritmo de transição”, avalia um economista ouvido pela reportagem. Ele lembra que, hoje, cerca de 30% dos empregados formais no país atuam em horários que incluem fins de semana, segundo dados de 2025 da Pnad Contínua, o que torna o tema sensível para empresas e trabalhadores.
Centrais sindicais apoiam o projeto e tratam a mudança como um “acerto histórico”. Representantes afirmam que o regime 6×1, embora previsto em lei, acaba, na prática, alongando jornadas, comprimindo folgas e ampliando o adoecimento ligado ao trabalho. “Não é razoável que, em 2026, o descanso semanal ainda seja tratado como concessão e não como direito efetivo. O modelo 5×2 aproxima o Brasil de padrões adotados em países da OCDE”, diz, em entrevista, uma dirigente de central sindical nacional.
O próprio governo explora esse argumento. Técnicos do Trabalho citam estudos internos que indicam aumento de 15% nas licenças médicas entre trabalhadores em escala de seis dias contínuos em setores como call centers e limpeza urbana. A expectativa é que, com mais previsibilidade de folgas, empresas reduzam gastos com afastamentos, horas extras e substituições de última hora, o que compensaria parte da elevação inicial da folha.
Inflação, emprego e a batalha pelos próximos meses
A dúvida central recai sobre a inflação. Economistas de bancos consultorias privadas admitem pressão localizada em serviços, sobretudo alimentação fora de casa, entregas e transporte, na fase de adaptação. Nas projeções mais conservadoras, o pico poderia adicionar 0,1 a 0,2 ponto percentual ao IPCA entre o fim de 2027 e o início de 2028, antes de se acomodar. “O risco maior não está na regra em si, mas em reações em cadeia de reajustes preventivos, se o debate for conduzido na base do medo”, afirma um analista de inflação.
No emprego, o cenário também é disputado. Enquanto entidades patronais falam em cortes preventivos para “evitar colapso financeiro”, o Ministério do Trabalho projeta efeito neutro ou levemente positivo em até cinco anos, com criação líquida de vagas em serviços intensivos em mão de obra. A pasta prepara um pacote de transição com desoneração temporária de encargos para empresas de menor porte, por prazo de 24 meses, e programas de qualificação para trabalhadores deslocados por ajustes de escala.
O conflito em torno da jornada ocorre em meio a uma tentativa de atualização mais ampla da legislação trabalhista, quase uma década após a reforma de 2017. Naquele momento, o discurso dominante privilegiava flexibilidade de negociação e redução de custos como motores do emprego. Agora, o governo coloca na mesa temas como saúde mental, previsibilidade de folgas e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, que ganharam força após a pandemia de Covid-19.
As próximas semanas devem ser decisivas para o desenho final da proposta. O Planalto organiza rodadas de negociação setorial, com metas de fechar um texto consolidado até 30 de abril e enviar o projeto formalmente ao Congresso em maio. Empresários prometem atos públicos em capitais como São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, além de campanhas nas redes sociais contra o que chamam de “rigidez improdutiva”. Centrais sindicais preparam reação com foco em exemplos concretos de desgaste físico e mental de trabalhadores em escala 6×1.
O resultado desse choque de narrativas tende a influenciar decisões de investimento e a própria estratégia do Banco Central para a taxa de juros em 2027. Enquanto governo e setor produtivo disputam versões sobre demissões e inflação, milhões de trabalhadores acompanham à distância um debate que redefine quanto tempo ficará disponível para o trabalho e quanto tempo sobrará, de fato, para viver.
